19 setembro 2003

um pedaço de universo

Pintei uma flor que se reflectia em sombra multicolor.
Era uma flor alegre que sorria a felicidade de ser um pedaço do Universo.
É impossível imaginar o Universo sem aquela flor, que cheira a rosa e a alecrim.

18 setembro 2003

erro de cálculo

Quando o que pensas não cabe no desenho, pinta reticências e verás a forma em que se transforma o sonho.
"Conclusão lógica de um matemático poeta: é preciso três pontos para desenhar um sonho!”
Foi nesse instante que o matemático, na sua lógica de poeta, sentiu pena dos povos que não têm escrita para desenhar os sonhos…
Coitados dos povos que precisam de escrita para fixar o sonho, pensou o filósofo do povo que não desenha palavras…

17 setembro 2003

monólogo de um anjo

Olhei uma árvore que me disse: abraça-me!
Olhei uma gaivota que me disse: acolhe-me!
Olhei um homem que me disse: afasta-te!
Abracei o homem, senti-me árvore e voei!

16 setembro 2003

o livro que voava

Olhei o céu negro da noite.Pintei-o com as páginas brancas de um livro que voava de mão em mão. Desenhei-lhe as palavras de um pensamento e imaginei-lhe uma história.O livro passeou-se de alma em alma à procura de pensamentos de outros que pintavam o céu.Vidas depois o livro regressou às mãos de quem o largou a voar. Vinha recheado de páginas, de histórias e de sentimentos.Nesse dia não houve noite…

15 setembro 2003

tela

Acordei a rever as vidas que me cruzaram os caminhos.
Revi sobretudo paisagens, humanas umas, familiares, outras, de afectos muitas.
Senti calor, como quem pega o cachimbo prestes a terminar a cumplicidade com o fumador.
No fumo e no aroma ficaram as recordações.
São estes pequenos instantes que nos recolocam na Vida, sem receio de olhar para trás. Há infinitas imagens que nos moldaram a alma e os olhos.
Os nossos caminhos estão plantados de sentimentos e de emoções que se regam com a luz do nosso olhar.
Por isso quando acordamos e abrimos o Ver, damos conta da enorme tela branca que o dia nos oferece para pintar.

12 setembro 2003

palavra evaporada ao som do Jaz

Procuro uma palavra.
Uma única palavra que transmita a revolta que engulo em sons de saxofone numa noite escura, frente ao mar agitado.
Desenho na areia palavras e imagem sem luz.
Sei o que o desenho me diz, mas ninguém o vê.
O mar apagou a palavra, levou-a para longe, transformada em espuma que se evapora na luz da manhã.
Procuro a palavra que me contorna a alma, uma única palavra que desenhe todo o peso da minha solidão!

11 setembro 2003

terrorismo da indiferença

Hoje, 11 de Setembro, ano dois (*) do Século XXI (2003), morreram 3000 pessoas vítimas do TERRORISMO DA INDIFERENÇA.Morreram, sem rosto, sem nome, sem MEMORIAL!Amanhã, morrerão mais 3000, que caem uma a uma, sem grito, sem lágrima, Guerrilheiros sem nome, sem farda, mortos em batalha de sobrevivência.
Olhos esquecidos, almas pedidas mortas pela humanidade!

(*)Nota: O autor, não resistiu, neste pequeno texto de desabafo a que o seu inconsciente se permitisse a fixar na palavra alguns laivos de futurismo. Resignou-se aos senhores do Mundo e acreditou que mais tarde ou mais cedo, a hipocrisia do poder, transformada em arrogância, venha a assumir-se como senhora do Tempo. A tragédia que assolou os ditos senhores em 2001, à semelhança de tempos idos, irão, na óptica resignada do autor, levar a ajustamentos do calendário, que nos rege a alma. Assim escreveu ano DOIS do século XXI, para evitar ter que, certamente muito em breve, rever o pequeno texto, que lhe surgiu em forma de grito. Aqui fica portanto o esclarecimento, aos olhos de quem lê, que não foi erro de cálculo, mas uma, tropelia do inconsciente de quem também desenha com palavras.

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...