O dia entrou dentro de mim, como tempestade sufocante, onde o simples acto de respirar envolveu esforço e coordenação de movimentos. O existir fugiu ao instinto monótono do viver.
Os estímulos cegaram-me e comandaram-me até à exaustão.
Procurei o silêncio, como quem tenta, em desespero agarrar uma bóia de salvação, mas nem esses gritos de naufrago me devolveram auxilio. Senti-me embrulhado em onda gigante, onde o sentido deixou de existir.
As cores insistiram no cinzento em tons de azul negro, e eu nem sentia forças para procurar ar e para colocar os olhos noutras cores.
Prestes a entregar-me, como quem surge do nada, oiço finalmente o mar em sons de abraço que se envolve no areal de praia deserta.A tempestade acalmou e transformo-me em palavras.
O dia terminou.
Agarrei num livro de páginas brancas e os gestos desenharam palavras que emitiram sons de um grande suspiro.
Voltara finalmente a reencontrar-me. O Tempo transformara-se noutros ritmos e os pensamentos, envoltos em fumo, dirigiam-se para o vazio em passos de peregrino e em sons de batuque, como quem invoca os espíritos.
30 setembro 2003
29 setembro 2003
fusões desencontradas
Fiz e desfiz o quadro que me andava a pintar cores sem desenho.
Nasceu com impulsos cubistas, recheado de traços criados com gestos cegos que se reviam em cada ponto de fuga.
Encheram o espaço com uma guitarra, um livro, uma mesa e aroma de café cachimbo. Em névoa cinzenta estava um rosto que me olhava e se olhava. Sorriso e lágrima de uma mesma cor, entre o azul e o vermelho.
Números, poucos. Datas, algumas. As suficientes para me estragarem as sombras que revoltadas quiseram ser verdes!Foi o verde que estragou o quadro!
Nasceu com impulsos cubistas, recheado de traços criados com gestos cegos que se reviam em cada ponto de fuga.
Encheram o espaço com uma guitarra, um livro, uma mesa e aroma de café cachimbo. Em névoa cinzenta estava um rosto que me olhava e se olhava. Sorriso e lágrima de uma mesma cor, entre o azul e o vermelho.
Números, poucos. Datas, algumas. As suficientes para me estragarem as sombras que revoltadas quiseram ser verdes!Foi o verde que estragou o quadro!
26 setembro 2003
aqui há gato!
Sonhei que era um gato, que dormia dentro de uma lata de tinta, cor de azul velho, manchada de amarelo (daquele amarelo que não se mistura com cor alguma…amarelo amarelo…com alguns tons de vermelho!), (tenham paciência com o autor, tem muita dificuldade em decidir-se!)
O gato, besuntado de cores, saltou para dentro de um quadro enorme de MIRÓ e rebolou-se, espreguiçou-se em enorme satisfação de liberdade criativa.
Acordei sobressaltado, mas reconheci um enorme sorriso escondido na alma.
Dei comigo a pedir desculpas ao artista, quase em confissão religiosa “ …mas que culpa tenho eu, de coabitar com um gato que me salta do sonho…”
O gato, besuntado de cores, saltou para dentro de um quadro enorme de MIRÓ e rebolou-se, espreguiçou-se em enorme satisfação de liberdade criativa.
Acordei sobressaltado, mas reconheci um enorme sorriso escondido na alma.
Dei comigo a pedir desculpas ao artista, quase em confissão religiosa “ …mas que culpa tenho eu, de coabitar com um gato que me salta do sonho…”
25 setembro 2003
cores perdidas
Tenho pena dos dias em que perco a capacidade de me espantar.
A culpa é certamente minha, mas não consigo insultar-me por perder a sensibilidade de descodificar os sinais que andaram a esbarrar na minha indiferença. Há dias assim. Esqueci-me de afiar o lápis e de lavar os pincéis. Mas a paleta está lá cheia de cores que não vou mais utilizar.
A culpa é certamente minha, mas não consigo insultar-me por perder a sensibilidade de descodificar os sinais que andaram a esbarrar na minha indiferença. Há dias assim. Esqueci-me de afiar o lápis e de lavar os pincéis. Mas a paleta está lá cheia de cores que não vou mais utilizar.
24 setembro 2003
a máscara
Há mascaras de várias cores, para vários momentos e ocasiões.
Todas elas enfermam de serem sombras que filtram a expressão e o sentimento, mas nunca o olhar.
Tenho a tendência de, ao acordar, como quem coloca os óculos para focalizar a existência que o rodeia, de me encobrir com uma máscara e andar com ela hora após hora.
Triste hábito de quem se procura e coloca os olhos no chão com medo de fixar as cores que o dia lhe oferece. É uma espécie de cobardia de quem se sente bem na escuridão, porque aí não tem necessidade de focalizar o olhar. Mais do que uma defesa, é uma fuga. A máscara é o peso da fantasia que nos alivia da angústia de não saber o que fazer, tal é o estado de desorientação que nos imprime o dia.
O sentimento de fuga adensa-se com o cansaço, é verdade, mas também é verdade que a fuga não nos leva a lugar nenhum, nem sequer nos serve de consolo.
Isto tudo, para chegar à conclusão de não saber se o que escrevo, o que pinto ou o que sonho, sou eu, ou os olhos da máscara que se me cola ao rosto.
Todas elas enfermam de serem sombras que filtram a expressão e o sentimento, mas nunca o olhar.
Tenho a tendência de, ao acordar, como quem coloca os óculos para focalizar a existência que o rodeia, de me encobrir com uma máscara e andar com ela hora após hora.
Triste hábito de quem se procura e coloca os olhos no chão com medo de fixar as cores que o dia lhe oferece. É uma espécie de cobardia de quem se sente bem na escuridão, porque aí não tem necessidade de focalizar o olhar. Mais do que uma defesa, é uma fuga. A máscara é o peso da fantasia que nos alivia da angústia de não saber o que fazer, tal é o estado de desorientação que nos imprime o dia.
O sentimento de fuga adensa-se com o cansaço, é verdade, mas também é verdade que a fuga não nos leva a lugar nenhum, nem sequer nos serve de consolo.
Isto tudo, para chegar à conclusão de não saber se o que escrevo, o que pinto ou o que sonho, sou eu, ou os olhos da máscara que se me cola ao rosto.
23 setembro 2003
vertigem
Sou impelido para a fantasia e atropelo-me entre os vazios que me preenchem o sonho.
Perco-me na cegueira do reencontro com as certezas que nunca tive e faltam-me as forças para me erguer e caminhar pelo Mundo.
Reflexos de espelho que não me olha e que recusa o sorriso.
Ritmos que se esvaziam, como quem sente a agonia do Mundo a girar em vertigem.
Perco-me na cegueira do reencontro com as certezas que nunca tive e faltam-me as forças para me erguer e caminhar pelo Mundo.
Reflexos de espelho que não me olha e que recusa o sorriso.
Ritmos que se esvaziam, como quem sente a agonia do Mundo a girar em vertigem.
22 setembro 2003
labirintos
As palavras que me envolvem o Eu começam a incomodar-me.
Criam uma teia de labirintos que se erguem como muros.
Prendem o olhar e asfixiam-me no enredo que a Vida me destinou.
Criam uma teia de labirintos que se erguem como muros.
Prendem o olhar e asfixiam-me no enredo que a Vida me destinou.
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