Surgiram-me, em espasmos de memória, sete pequenos cavalos brancos de porcelana que me acompanharam a infância, expostos num recanto da sala, sob um pano verde oliva, cada qual com o seu movimento.
Recordei a sua evolução e as suas aparições durante os meus passos no Tempo. Vezes eram tentativas de desenho, onde me fixava na liberdade das suas crinas, voando em galope silencioso, outras, olhando as nuvens que se auto desenhavam em imagens ao som do vento, em movimentos místicos que lentamente se tornavam invisíveis de azul.
Mais tarde estilhaçaram-se na minha memória.Voltaram hoje, como animais totémicos num trote alado, a confortar saudades e sentimentos esquecidos.
03 outubro 2003
02 outubro 2003
paradoxo
Sei que é um “lugar comum”, mas não resisto ao prazer dos odores da terra fecundada pela chuva.Sinto-me renascer em cores de primavera, num paradoxo outonal.
01 outubro 2003
a degustação da palavra
Perdi-me nas páginas de um livro, onde cada palavra, cada frase me soube a vinho do Porto (o sabor da terra, da uva, do sol, do suor, da alegria, do vento e a luz da paisagem em paladar que se degusta e não se quer que tenha fim). Saboreei as e retive-as numa confusão de sensações, entre a emoção e o prazer.
E assim fiquei, como que atropelado por um enorme bem-estar que me inibiu a palavra.
Hoje vivi na alma emprestada do poeta e confortei-me.
E assim fiquei, como que atropelado por um enorme bem-estar que me inibiu a palavra.
Hoje vivi na alma emprestada do poeta e confortei-me.
30 setembro 2003
peregrino
O dia entrou dentro de mim, como tempestade sufocante, onde o simples acto de respirar envolveu esforço e coordenação de movimentos. O existir fugiu ao instinto monótono do viver.
Os estímulos cegaram-me e comandaram-me até à exaustão.
Procurei o silêncio, como quem tenta, em desespero agarrar uma bóia de salvação, mas nem esses gritos de naufrago me devolveram auxilio. Senti-me embrulhado em onda gigante, onde o sentido deixou de existir.
As cores insistiram no cinzento em tons de azul negro, e eu nem sentia forças para procurar ar e para colocar os olhos noutras cores.
Prestes a entregar-me, como quem surge do nada, oiço finalmente o mar em sons de abraço que se envolve no areal de praia deserta.A tempestade acalmou e transformo-me em palavras.
O dia terminou.
Agarrei num livro de páginas brancas e os gestos desenharam palavras que emitiram sons de um grande suspiro.
Voltara finalmente a reencontrar-me. O Tempo transformara-se noutros ritmos e os pensamentos, envoltos em fumo, dirigiam-se para o vazio em passos de peregrino e em sons de batuque, como quem invoca os espíritos.
Os estímulos cegaram-me e comandaram-me até à exaustão.
Procurei o silêncio, como quem tenta, em desespero agarrar uma bóia de salvação, mas nem esses gritos de naufrago me devolveram auxilio. Senti-me embrulhado em onda gigante, onde o sentido deixou de existir.
As cores insistiram no cinzento em tons de azul negro, e eu nem sentia forças para procurar ar e para colocar os olhos noutras cores.
Prestes a entregar-me, como quem surge do nada, oiço finalmente o mar em sons de abraço que se envolve no areal de praia deserta.A tempestade acalmou e transformo-me em palavras.
O dia terminou.
Agarrei num livro de páginas brancas e os gestos desenharam palavras que emitiram sons de um grande suspiro.
Voltara finalmente a reencontrar-me. O Tempo transformara-se noutros ritmos e os pensamentos, envoltos em fumo, dirigiam-se para o vazio em passos de peregrino e em sons de batuque, como quem invoca os espíritos.
29 setembro 2003
fusões desencontradas
Fiz e desfiz o quadro que me andava a pintar cores sem desenho.
Nasceu com impulsos cubistas, recheado de traços criados com gestos cegos que se reviam em cada ponto de fuga.
Encheram o espaço com uma guitarra, um livro, uma mesa e aroma de café cachimbo. Em névoa cinzenta estava um rosto que me olhava e se olhava. Sorriso e lágrima de uma mesma cor, entre o azul e o vermelho.
Números, poucos. Datas, algumas. As suficientes para me estragarem as sombras que revoltadas quiseram ser verdes!Foi o verde que estragou o quadro!
Nasceu com impulsos cubistas, recheado de traços criados com gestos cegos que se reviam em cada ponto de fuga.
Encheram o espaço com uma guitarra, um livro, uma mesa e aroma de café cachimbo. Em névoa cinzenta estava um rosto que me olhava e se olhava. Sorriso e lágrima de uma mesma cor, entre o azul e o vermelho.
Números, poucos. Datas, algumas. As suficientes para me estragarem as sombras que revoltadas quiseram ser verdes!Foi o verde que estragou o quadro!
26 setembro 2003
aqui há gato!
Sonhei que era um gato, que dormia dentro de uma lata de tinta, cor de azul velho, manchada de amarelo (daquele amarelo que não se mistura com cor alguma…amarelo amarelo…com alguns tons de vermelho!), (tenham paciência com o autor, tem muita dificuldade em decidir-se!)
O gato, besuntado de cores, saltou para dentro de um quadro enorme de MIRÓ e rebolou-se, espreguiçou-se em enorme satisfação de liberdade criativa.
Acordei sobressaltado, mas reconheci um enorme sorriso escondido na alma.
Dei comigo a pedir desculpas ao artista, quase em confissão religiosa “ …mas que culpa tenho eu, de coabitar com um gato que me salta do sonho…”
O gato, besuntado de cores, saltou para dentro de um quadro enorme de MIRÓ e rebolou-se, espreguiçou-se em enorme satisfação de liberdade criativa.
Acordei sobressaltado, mas reconheci um enorme sorriso escondido na alma.
Dei comigo a pedir desculpas ao artista, quase em confissão religiosa “ …mas que culpa tenho eu, de coabitar com um gato que me salta do sonho…”
25 setembro 2003
cores perdidas
Tenho pena dos dias em que perco a capacidade de me espantar.
A culpa é certamente minha, mas não consigo insultar-me por perder a sensibilidade de descodificar os sinais que andaram a esbarrar na minha indiferença. Há dias assim. Esqueci-me de afiar o lápis e de lavar os pincéis. Mas a paleta está lá cheia de cores que não vou mais utilizar.
A culpa é certamente minha, mas não consigo insultar-me por perder a sensibilidade de descodificar os sinais que andaram a esbarrar na minha indiferença. Há dias assim. Esqueci-me de afiar o lápis e de lavar os pincéis. Mas a paleta está lá cheia de cores que não vou mais utilizar.
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