03 novembro 2003

a vida de um lápis

O lápis corre à procura da imagem que sem nexo e sem harmonia vai desenhando o Tempo. Salta barreiras que o autor esconde e indelicadamente, põe-se a escutar, como quem sorri ao som de uma melodia, escondido atrás de uma flor.
O ambiente criado, pelo lápis paciente e sapiente, soltam o autor, que animado, baralha as palavras e lança-as no papel como quem se diverte no Jogo da Vida.
Não procura o sentido do que escreve. Está ali apenas a fazer companhia, aquele lápis irreverente que lhe espicaça a Consciência e as imagens que reteve do caminho. É uma companhia silenciosa que os complementam. Vivem à procura do entendimento e do respeito pela comunhão que lhes alimenta a poesia. Seguem-se, unos, com o mesmo ritmo, com uma só sombra.

30 outubro 2003

provavelmente haverá outras…

É com alguma imaginação que tem sido possível encarar a vida com alguma serenidade, e continua capacidade para compreender as motivações dos outros, permitindo-me a abertura de espírito suficiente, para sorrir e ver poesia, mesmo que pintada de uma enorme solidão.
Estou convencido, que só é possível manter uma relação afectiva (neste nosso novo mundo empregando de egocentrismo, e consequente egoísmo) se estivermos dispostos a Dar, sem estarmos à espera do Receber. Isto porque se esperamos retorno, mais tarde ou mais cedo, iremos perceber que ele se perdeu algures no calor de quem o recebeu e que se esquece que o amor é um conjunto de reflexos de um espelho que só existe se reflectir a imagem que lhe pomos no sonho.
A minha forma de estar na vida, baseia-se no facto de não haver conquista. Pura e simplesmente ESTOU! Sou um observador atento que se diverte com o OLHAR, sem estar a espera de agarrar e de possuir nada do que vejo, nada do que sinto. Nada é meu, tudo é da Vida! Foi a forma que encontrei, para me sentir capaz de andar pelos meus caminhos, sem demasiadas quedas. Provavelmente haverá outras…

29 outubro 2003

o horizonte amuado

Falei com um ponto, focalizado algures no horizonte, que mudo, ria-se da humanidade.
Não consigo perceber se fiquei irritado, com aquela entidade abstracta que me absorvia o olhar, ou triste com a própria humanidade. Engoli em seco e concentrei-me num quadro em tons de vermelho com gotas de amarelo escuro.
Terminada a pintura, virei o quadro para a parede e imaginei-lhe outras cores e sorri para aquele anjo mudo e surdo escondido no horizonte, que amuado fugiu com o quadro.

28 outubro 2003

história de um livro cansado

Sujei uma folha branca de palavras que desenhavam o reflexo de uma gaivota que se escondia de um gato que não gostava do Mar.
A folha, transfigurou-se em Livro, cansado de contar a história que se ocultava nas pegadas cortadas na areia da praia. As páginas, revoltadas, transformaram-se em ondas que se divertiam com o gato que olhava a gaivota que cheirava a peixe.
Nem o gato gostava do mar, nem o mar da gaivota, nem a gaivota do gato, por isso o Livro sacudiu as paginas que semearam a areia de palavras que desenharam as pegadas de um pescador que pintava ondas, em tons de branco azul.
Foi assim, que a folha, transformada em livro, passou a ter a cor dos olhos do pescador pintor que gostava do mar, do gato e da gaivota.

Pescador = Pintor, criador
Gato = criatura
Gaivota = criatura
Livro cansado = o que ensina a Amar
Pegadas cortadas na areia = sinais do criador que a criatura não vê porque não olha para trás
Onda = movimento, vidaBranco azul = branco azul

27 outubro 2003

imagens de um ecrã gigante de um concerto sem som

Joguei às escondidas numa estrada plantada de candeeiros saltitantes, envoltos num nevoeiro azul. Ao fundo projectavam-se imagens de uma humanidade sem rumo, sedentas de sangue, onde se sentia o silêncio angustiante da ausência de convicções.
Entrei numa história sem argumento, onde até o pincel se recusou a misturar as emoções. Perdi-me entre os candeeiros que corriam loucos a fugir da luz.
Chove água sem som, lágrimas incolores de um fado sem acordes, de uma guitarra sem cordas, sem vida e sem alma.

24 outubro 2003

choque de cores

Cruzaram-se duas linhas que fugiam apavoradas do pincel surrealista, em choque de cores.
Choravam o quadro que lhes pintaram no EU.

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...