15 novembro 2003

rotina

Os olhos frios, fixaram-me, como animal furtivo que na escuridão da selva segue o movimento da presa que se esconde no vento. Paro. Oiço-me, em batuque acelerado e interrogo-me. Silenciado com a ausência, sinto-me parte de um jogo para que não fui convidado. Já não me olham. Agora quem fita é o medo. O impulso corre o chão que me foge e fica longe, escondido no escuro. Abro a torneira, que também fria me acorda, e se mistura em gestos quotidianos, que nos prendem à rotina do amanhecer.
O dia começa, e já não me interrogo, sigo. Só mais tarde me reconheço no olhar. É assim todos os dias. É assim a rotina de quem se perde no horizonte só depois de se reconhecer no olhar.

09 novembro 2003

quando não estamos prontos para nos desnudarmos

“Qual é a sua opinião?”
Atordoado, com a interiorização da pergunta, apenas se conseguiu questionar. “ Que raio de interrogatório é este?” Foi o que lhe veio à imagem, porque as palavras estilhaçaram-se sem sentido. “ A minha opinião?”, “ Mas para que querem a minha opinião?” Ficou incomodado, remexeu-se frenético na cadeira e zangou-se com o cachimbo (fiel companheiro) que inoportunamente resolvera apagar-se.
Não sabe ao certo quanto tempo se ausentou entre a pergunta e a resposta que não tinha.
Levara a vida inteira a gerir consensos e opiniões alheias e agora, inesperadamente queriam apoderar-se dos seus pensamentos, a ele que os guardava ciosamente como tesouros?
Não, não estava preparado para se desnudar!
Reacendeu o cachimbo, encolhido na palma da mão, interiorizou o aroma e expeliu lentamente os pensamentos em fumo azul cinzento. Ali estava a sua opinião, materializada em nuvem. Se a quisessem de facto, voltariam a perguntar ou juntavam as palavras que lentamente se eclipsavam na atmosfera densa daquela sala recheada de executivos e de decisores dos destinos de ninguém.
Quando fixou os olhos nos olhares, sentiu o silêncio da espera,”querem ver que a querem mesmo?”, pensou. Sentiu-se encurralado, endireitou os papeis desalinhados e fez ouvir o bater das folhas na mesa infinda e recolocou-os, direitos e perfilados. Estava terrivelmente cansado.
Sabia que dissesse o que dissesse, a discussão continuaria no mesmo diálogo de surdos, porque cada um continuava a ouvir se a si próprio. Tinha sido sempre assim durante toda a sua vida, e hoje não seria diferente. Era esse o seu grande segredo, porque geralmente, era o único que ouvia, media, ponderava e decidia, longe do barulho, sossegado com o seu fiel companheiro de reflexões.Voltou a reacender o cachimbo, “ Até este hoje embirra comigo!”, pensou. Pausadamente, solenemente, disse – “o gato pintou-se às riscas azuis!”.
Como esperava, o gorgolejo opinativo continuou, terminando horas depois, quando todos, cansados de se ouvirem a eles próprios, acordaram data de nova sessão…

07 novembro 2003

escultura colectiva

Quando o vazio nos enche a alma de interrogações, normalmente refugiamo-nos em recordações que tentam iludir as percepções do presente, e por momentos, breves é certo, julgamo-nos senhores da vida. Controlamos os sentidos, escolhemos as cores que envolvem o olhar, e lá no fundo, bem no fundo do sentir, descobrimos que sabemos sorrir, que fomos premiados por afectos, e que essa existência nos permite jogar aos dados com a vida.
Não fossem essas recordações, essas viagens por uma realidade que é só nossa, não conseguiríamos perceber a infinidade de acasos que nos moldaram o carácter. Somos mais do que uma simples escultura, de um único artista, de um único pintor, somos obra colectiva que não existiria se um único dos acasos que se cruzou na nossa vida se perdesse noutros caminhos, noutras direcções, noutras existências.

06 novembro 2003

sem timoneiro

Preciso de Espaço para sentir o TEMPO e de me abstrair desta muralha infinita que me desfoca os sentidos.Invento-me num barco à vela, sem timoneiro, orientado pela fuga.
A viagem perde-se nos atropelos das recordações que afundam o barco e me devolvem, sem pedir licença, para um espaço que me agrilhoa o VER!

04 novembro 2003

exercício de liberdade: introdução

Quero andar por aí. Invisível, ausente, submerso, para sentir o Vento, os sons e as cores. Não me quero em Mim, que me enegreço!
Não me digam o nome, não me vejam os olhos, não me oiçam os gritos. Hoje, pura e simplesmente não Existo!

03 novembro 2003

a vida de um lápis

O lápis corre à procura da imagem que sem nexo e sem harmonia vai desenhando o Tempo. Salta barreiras que o autor esconde e indelicadamente, põe-se a escutar, como quem sorri ao som de uma melodia, escondido atrás de uma flor.
O ambiente criado, pelo lápis paciente e sapiente, soltam o autor, que animado, baralha as palavras e lança-as no papel como quem se diverte no Jogo da Vida.
Não procura o sentido do que escreve. Está ali apenas a fazer companhia, aquele lápis irreverente que lhe espicaça a Consciência e as imagens que reteve do caminho. É uma companhia silenciosa que os complementam. Vivem à procura do entendimento e do respeito pela comunhão que lhes alimenta a poesia. Seguem-se, unos, com o mesmo ritmo, com uma só sombra.

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...