24 janeiro 2004

um instante, um abraço!

Perco-me na espera de um momento. Um instante apenas. Um som, uma brisa, um traço de cor. Um instante em troca de um sorriso, de um impulso. Vento quente de Africa, um sopro, uma recordação. Um instante só, um momento, um beijo de tons e de melodias que se perdem na memória de quem se confunde e tropeça na fantasia. Um beijo de vento quente, de Africa ou de qualquer sitio, apenas um instante que me aqueça e me estremeça desta solidão que tropeça nas palavras e nos traços que se desenham e nascem sem luz.
Uma Palavra, uma só palavra, um só gesto.
Um abraço.

23 janeiro 2004

o lápis amotinado

Agarrei com raiva um lápis de carvão, com a fúria de lhe partir a ponta, sem lhe dar a oportunidade de se transformar em sombra.
Com a autoridade e irreverência que lhe é devida (os meus lápis são assim, não há nada a fazer…), recusou-se na tarefa de se auto mutilar e transformou-se em silhueta dançante, em traços delicados de bailarina com sotaque cigano,ao som de flamengo, tocado por uma, não menos delicada, flauta de Pan (o raio do lápis deu em ser musico e surrealista!).
O negro travestiu-se em cinzento que sem pudor e respeito se despiu em tons de vermelho aguarela, (acreditam que atrás da bailarina, o negro carvão escondeu-se em esboço de coelho com olhos de touro prestes a entrar na arena? Não acreditam? Eu também não! Mas a verdade é que nesta história de bailarina a dançar flamengo, fica bem um touro! O pior é que a bailarina é linda ( já o tínhamos intuído) e atrás de semelhante silhueta só mesmo um coelho se pode esconder, mesmo sendo um coelho com olhos cor de sangue, que chora em reflexos de vermelho aguarela!).
Resignado, deixei-me levar pela música que o lápis pintou só para me contrariar!

22 janeiro 2004

preguiça

Acordo lento, quase mandrião, como quem recusa movimento.
Fico suspenso entre a decisão de retomar a obrigação de produzir, a negação do existir ou esconder-me entre a escuridão de um poema, que impõe novos rumos, novos passos…
Como máquina desajustada, que vomita rotinas sem autorização, levanto-me.
Dou comigo sentado à secretária, rabiscando ofícios, orientando decisões, gesticulando direcções e sentidos.
Sinto-me parênteses que me canibalizam o Tempo e o Ser.
Procuro palavras, sentidos e invento cores sem formas, como quem esculpe texturas em pedra polida.
Hoje o dia soa a filme mudo, onde nem o piano se deixa ouvir.
Restam-me as cores, sempre elas, fiéis amigas de um olhar que insiste a ir mais longe que a imagem que se reflecte sem filtros.

21 janeiro 2004

transparências

Paro!
Rápido e de improviso à espera que o Mundo me ultrapasse e eu o consiga ver de costas sem olhar as máscaras que o enfeitam.
Ilusão!
Parei e ninguém me ligou nenhuma, ninguém me ultrapassou, pura e simplesmente saltei fora da imagem, e só eu dei por isso. Não vi costas, nem mascaras, nem reflexos.
Sentei-me a olhar a multidão e percebi o quanto cada um de nós é transparente e inexistente. Somos árvore que só existe quando buscamos sombra, ou quando olhamos o vazio à procura de paisagem…

16 janeiro 2004

um abraço inoportuno

Corro, não em busca de ilusões ou fantasias, mas na própria imagem que me confunde o Sonho.
Transporto-me para longe da percepção que me esconde o olhar e fundo-me entre a imagem e o sentir.
Esfumo-me em cor imaterializada, no exacto instante do reflexo que persiste nas águas turvas do rio que me atropela os afectos e os sentidos.
Parado no tempo, respiro.Acordo com o vento frio que me abraça e empurra os passos que teimo em não dar.

13 janeiro 2004

poder

É urgente eliminar o poder que a fraqueza humana detêm nos desígnios do destino que nos orienta os caminhos...

09 janeiro 2004

recusa

Procuro o lápis e papel para fixar palavras que me saltam em imagens irrequietas.
O lápis fugiu e eu embaraço-me na memória que teima em perder as cores quando olhada ás escondidas, sem aviso prévio!
Perco o momento!
As palavras não passam de imagem esbatida à procura de ordem, sentido e arrumo. No entanto sei que lá estão, algures entre o pensamento que as criou e a imagem em que se transformaram.
Talvez volte à noite, quando já não for importante!
É muito envergonhada esta imagem que se recusou a ser poema!

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...