28 janeiro 2004
pela manhã
Entrei cedo pela manhã, em perfumes de quem se passeia pela praia à noite, com o mar a cantar baixinho…
27 janeiro 2004
retracto de uma insónia muda
Não há nada pior que uma madrugada chuvosa e fria em que o corpo insiste em fingir que dorme e a cabeça em fuga ao sono, emite pensamentos desconexos e inconscientes, como quem brinca com o cansaço, regados com sabor a fel.
Interromperam-me o sono, imagem de livros, retidos na memória de uma infância rodeada de estantes e lombadas de saber, oriundos de poetas e escritores dispostos sem Pátria. Três livros solitários, sem relação conexa, alimentaram-me a insónia.
A “Queda” de Camus, que me desafia para a leitura à mais de trinta anos, um catálogo de uma exposição de pintura, provavelmente no Louvre (falava francês o dito catalogo dos anos cinquenta de século passado), do qual recordo a capa, branca amarela (do uso), com um quadro de Cezane ( julgo), com um homem a jogar às cartas, ( recordo também comentários meus, de uma infância interrogativa e irreverente , “como é possível fazer um catalogo de pintura a preto e branco?”), e finalmente o “Velho e o Mar” de Hemingway, livro quase gasto, quase roto, não fosse ele de bolso e visivelmente viajante, tão cansadas estavam as suas folhas.Ao bom estilo de filme mudo (as insónias conseguem ser ainda mais mudas que os sonhos), estes livros, estas capas, vaguearam-me a madrugada, sem razão aparente, fugidos de uma memória cansada, num não menos esgotado corpo.Finda esta apresentação, quase publicitária, surgiram em forma de fantasma palavras que corriam atrás de mim, em bicos dos pés, em segredinhos de meninas adolescentes e em risinhos cobardes (continuamos no entanto sem som). Seguiam-me e escondiam-se, quando irritado, me voltava de fúria.
E elas escondiam-se!
E elas riam-se!
E eu não dormia!( e o ciclo repetia-se quase sem fim...)
Por fim, e já esgotado, as palavras que corriam como sombras chinesas, juntaram-se, ditas por um Jesuíta, em domingo de homilia “ Ousa! Ousa ser as palavras que dizes! Ousa ser as palavras que escreves!”
E foi assim que me levantei hoje, enfeitado com olheiras, a fingir que não ouvi o que a insónia me obrigou a Ver ( e no entanto era muda o raio da insónia!), e entrei sem vontade pelo dia, que me esperava, de braços abertos e sorriso cínico.
Interromperam-me o sono, imagem de livros, retidos na memória de uma infância rodeada de estantes e lombadas de saber, oriundos de poetas e escritores dispostos sem Pátria. Três livros solitários, sem relação conexa, alimentaram-me a insónia.
A “Queda” de Camus, que me desafia para a leitura à mais de trinta anos, um catálogo de uma exposição de pintura, provavelmente no Louvre (falava francês o dito catalogo dos anos cinquenta de século passado), do qual recordo a capa, branca amarela (do uso), com um quadro de Cezane ( julgo), com um homem a jogar às cartas, ( recordo também comentários meus, de uma infância interrogativa e irreverente , “como é possível fazer um catalogo de pintura a preto e branco?”), e finalmente o “Velho e o Mar” de Hemingway, livro quase gasto, quase roto, não fosse ele de bolso e visivelmente viajante, tão cansadas estavam as suas folhas.Ao bom estilo de filme mudo (as insónias conseguem ser ainda mais mudas que os sonhos), estes livros, estas capas, vaguearam-me a madrugada, sem razão aparente, fugidos de uma memória cansada, num não menos esgotado corpo.Finda esta apresentação, quase publicitária, surgiram em forma de fantasma palavras que corriam atrás de mim, em bicos dos pés, em segredinhos de meninas adolescentes e em risinhos cobardes (continuamos no entanto sem som). Seguiam-me e escondiam-se, quando irritado, me voltava de fúria.
E elas escondiam-se!
E elas riam-se!
E eu não dormia!( e o ciclo repetia-se quase sem fim...)
Por fim, e já esgotado, as palavras que corriam como sombras chinesas, juntaram-se, ditas por um Jesuíta, em domingo de homilia “ Ousa! Ousa ser as palavras que dizes! Ousa ser as palavras que escreves!”
E foi assim que me levantei hoje, enfeitado com olheiras, a fingir que não ouvi o que a insónia me obrigou a Ver ( e no entanto era muda o raio da insónia!), e entrei sem vontade pelo dia, que me esperava, de braços abertos e sorriso cínico.
26 janeiro 2004
preencher vazios
A criatividade nasce da necessidade quase compulsiva e instintiva de preencher vazios, sejam da alma, folha de papel ou Espaço…
25 janeiro 2004
o giz que fugiu em forma de borboleta
Tenho as mãos sujas de cor!
Pó que se sopra em voo, sem sons.
Movimento-me em manchas coloridas que se desfazem no branco e preenchem vazios de luz.Sombras violetas de giz.
VIOLENTAS!
Palavras que se armadilham em sons e de sons e ferem o poema. (mas que mania a tua de saltar do quadro para as palavras e das palavras para o desenho! Pára por favor que me angustias a alma!)
Formigas de pó que se desenham em esperança de borboleta.
Violinos sem maestro, rasgam sons que pintam o voo delicado de formiga colibri que se reflecte em borboleta (violeta?) aos olhos do poeta triste que não sabe de que luz ou de que sombra há-de pintar os olhos que lhe incomodam o SONHO!
Pó que se sopra em voo, sem sons.
Movimento-me em manchas coloridas que se desfazem no branco e preenchem vazios de luz.Sombras violetas de giz.
VIOLENTAS!
Palavras que se armadilham em sons e de sons e ferem o poema. (mas que mania a tua de saltar do quadro para as palavras e das palavras para o desenho! Pára por favor que me angustias a alma!)
Formigas de pó que se desenham em esperança de borboleta.
Violinos sem maestro, rasgam sons que pintam o voo delicado de formiga colibri que se reflecte em borboleta (violeta?) aos olhos do poeta triste que não sabe de que luz ou de que sombra há-de pintar os olhos que lhe incomodam o SONHO!
24 janeiro 2004
um instante, um abraço!
Perco-me na espera de um momento. Um instante apenas. Um som, uma brisa, um traço de cor. Um instante em troca de um sorriso, de um impulso. Vento quente de Africa, um sopro, uma recordação. Um instante só, um momento, um beijo de tons e de melodias que se perdem na memória de quem se confunde e tropeça na fantasia. Um beijo de vento quente, de Africa ou de qualquer sitio, apenas um instante que me aqueça e me estremeça desta solidão que tropeça nas palavras e nos traços que se desenham e nascem sem luz.
Uma Palavra, uma só palavra, um só gesto.
Um abraço.
Uma Palavra, uma só palavra, um só gesto.
Um abraço.
23 janeiro 2004
o lápis amotinado
Agarrei com raiva um lápis de carvão, com a fúria de lhe partir a ponta, sem lhe dar a oportunidade de se transformar em sombra.
Com a autoridade e irreverência que lhe é devida (os meus lápis são assim, não há nada a fazer…), recusou-se na tarefa de se auto mutilar e transformou-se em silhueta dançante, em traços delicados de bailarina com sotaque cigano,ao som de flamengo, tocado por uma, não menos delicada, flauta de Pan (o raio do lápis deu em ser musico e surrealista!).
O negro travestiu-se em cinzento que sem pudor e respeito se despiu em tons de vermelho aguarela, (acreditam que atrás da bailarina, o negro carvão escondeu-se em esboço de coelho com olhos de touro prestes a entrar na arena? Não acreditam? Eu também não! Mas a verdade é que nesta história de bailarina a dançar flamengo, fica bem um touro! O pior é que a bailarina é linda ( já o tínhamos intuído) e atrás de semelhante silhueta só mesmo um coelho se pode esconder, mesmo sendo um coelho com olhos cor de sangue, que chora em reflexos de vermelho aguarela!).
Resignado, deixei-me levar pela música que o lápis pintou só para me contrariar!
Com a autoridade e irreverência que lhe é devida (os meus lápis são assim, não há nada a fazer…), recusou-se na tarefa de se auto mutilar e transformou-se em silhueta dançante, em traços delicados de bailarina com sotaque cigano,ao som de flamengo, tocado por uma, não menos delicada, flauta de Pan (o raio do lápis deu em ser musico e surrealista!).
O negro travestiu-se em cinzento que sem pudor e respeito se despiu em tons de vermelho aguarela, (acreditam que atrás da bailarina, o negro carvão escondeu-se em esboço de coelho com olhos de touro prestes a entrar na arena? Não acreditam? Eu também não! Mas a verdade é que nesta história de bailarina a dançar flamengo, fica bem um touro! O pior é que a bailarina é linda ( já o tínhamos intuído) e atrás de semelhante silhueta só mesmo um coelho se pode esconder, mesmo sendo um coelho com olhos cor de sangue, que chora em reflexos de vermelho aguarela!).
Resignado, deixei-me levar pela música que o lápis pintou só para me contrariar!
22 janeiro 2004
preguiça
Acordo lento, quase mandrião, como quem recusa movimento.
Fico suspenso entre a decisão de retomar a obrigação de produzir, a negação do existir ou esconder-me entre a escuridão de um poema, que impõe novos rumos, novos passos…
Como máquina desajustada, que vomita rotinas sem autorização, levanto-me.
Dou comigo sentado à secretária, rabiscando ofícios, orientando decisões, gesticulando direcções e sentidos.
Sinto-me parênteses que me canibalizam o Tempo e o Ser.
Procuro palavras, sentidos e invento cores sem formas, como quem esculpe texturas em pedra polida.
Hoje o dia soa a filme mudo, onde nem o piano se deixa ouvir.
Restam-me as cores, sempre elas, fiéis amigas de um olhar que insiste a ir mais longe que a imagem que se reflecte sem filtros.
Fico suspenso entre a decisão de retomar a obrigação de produzir, a negação do existir ou esconder-me entre a escuridão de um poema, que impõe novos rumos, novos passos…
Como máquina desajustada, que vomita rotinas sem autorização, levanto-me.
Dou comigo sentado à secretária, rabiscando ofícios, orientando decisões, gesticulando direcções e sentidos.
Sinto-me parênteses que me canibalizam o Tempo e o Ser.
Procuro palavras, sentidos e invento cores sem formas, como quem esculpe texturas em pedra polida.
Hoje o dia soa a filme mudo, onde nem o piano se deixa ouvir.
Restam-me as cores, sempre elas, fiéis amigas de um olhar que insiste a ir mais longe que a imagem que se reflecte sem filtros.
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escureceu uma brancura-de-nevoeiro, onde nem os passos se sentem. hesitantes. medrosos…( ou como é sempre necessário luz outra, quando nos p...