Corri, tropecei e caí.
Sorri, porque sabia que não podia enganar o Tempo, e no entanto corri, como se fosse o ultimo minuto de sol, numa tarde de Inverno.
Castiguei-me com austeridade e não me levantei (cheguei mesmo a engelhar o sobrolho com jeitos de juiz severo, porém justo). Obriguei-me a olhar a vida, como quem se senta pela primeira vez num banco de escola a conter lágrimas, com arrepios de angústia.
Sentado no chão, fechei os olhos e deixei a vida correr, em imagens de filme mudo, no entanto não resisti em dar-lhe cor...
16 fevereiro 2004
15 fevereiro 2004
cenário com um actor sem coragem para ousar
Se conseguisse, pintava um quadro com todas as cores que um reflexo de água pode imaginar.
Enceno o quadro. A luz, as formas e a dança com que me foge o pincel com as cores…
Não sei se é da música ou do bailado, mas há algo de errado entre aqueles dois que não param a dança, sem se darem conta que a melodia deixou de os acompanhar. As cores ficaram como que esmagadas entre os olhos, o sonho e a imagem.
Difusas.
Desfocadas.
Se eu quisesse muito, inventava as minhas próprias cores, e transbordava-me em sons que se infiltravam em todo o meu corpo e transformava-me em Quadro!
Enceno o quadro. A luz, as formas e a dança com que me foge o pincel com as cores…
Não sei se é da música ou do bailado, mas há algo de errado entre aqueles dois que não param a dança, sem se darem conta que a melodia deixou de os acompanhar. As cores ficaram como que esmagadas entre os olhos, o sonho e a imagem.
Difusas.
Desfocadas.
Se eu quisesse muito, inventava as minhas próprias cores, e transbordava-me em sons que se infiltravam em todo o meu corpo e transformava-me em Quadro!
12 fevereiro 2004
11 fevereiro 2004
pião de corda
Sinto a cabeça a estoirar de vazios.
Cheia de palavras desarrumadas, sem sentido. Como cego, que perde o apoio, os sons, as referências que o encaminham, (numa manhã fria de Sol com cheiros a orvalho), fujo do encontro de Mim.
Pego numa mão cheia de palavras e deixo as escorrer como areia da praia. A areia não cabe na mão, esvoaça, escoa em carícias, mas continuo a não entender o que as palavras me escrevem, em segredo, ao ouvido…
Sinto-me máscara moldada que se finge, que se engana, que se reinventa.
Sou pião de corda nas mão de menino, que brica sozinho num jardim. (Todos os jardins tem pombas, e este onde o menino me joga em pião não é original, mas responde por Estrela e guarda-se em recordações de infância, como móvel esquecido em sótão envolto em pó. Estrela que nunca vi, mas imagino talvez escondida por nuvem de pombas assustadas com o movimento brusco, porém belo, da corda do pião que se joga em Vida e em desenho que insurrecto se colocou em folha branca, datada e assinada e que se exibe em parede também ela branca, não muito longe daquele jardim que responde por Estrela!)
Cheia de palavras desarrumadas, sem sentido. Como cego, que perde o apoio, os sons, as referências que o encaminham, (numa manhã fria de Sol com cheiros a orvalho), fujo do encontro de Mim.
Pego numa mão cheia de palavras e deixo as escorrer como areia da praia. A areia não cabe na mão, esvoaça, escoa em carícias, mas continuo a não entender o que as palavras me escrevem, em segredo, ao ouvido…
Sinto-me máscara moldada que se finge, que se engana, que se reinventa.
Sou pião de corda nas mão de menino, que brica sozinho num jardim. (Todos os jardins tem pombas, e este onde o menino me joga em pião não é original, mas responde por Estrela e guarda-se em recordações de infância, como móvel esquecido em sótão envolto em pó. Estrela que nunca vi, mas imagino talvez escondida por nuvem de pombas assustadas com o movimento brusco, porém belo, da corda do pião que se joga em Vida e em desenho que insurrecto se colocou em folha branca, datada e assinada e que se exibe em parede também ela branca, não muito longe daquele jardim que responde por Estrela!)
10 fevereiro 2004
sons...
Toquei sons de “violino-flauta”, que me dançou no corpo e moldou quadro de cores em forma de orquídea em campo de trigo ao fim do dia...
05 fevereiro 2004
num banco de jardim, à sombra de uma acácia rubra
Sentou-se em banco de jardim, como quem procura silêncios. Escolheu o fresco de uma sombra de acácia rubra e abriu livro de capa coberta, inibida, que se recusa expor a intimidade do nome, do título, dos ambientes e da relação com as letras que mantêm um com o outro. Calmamente, solenemente, degusta as palavras, ausente de tudo. Concentra-se na criação dos espaços que as palavras lhe sugerem, embebido na cumplicidade que a história lhe conta com os olhos.
Divertem-se, debaixo daquela enorme acácia rubra, deslocada no espaço e no tempo. Nem ele, nem ela pertencem aquele cenário. Só o banco e o livro parecem entender o paradoxo da interligação emocional daqueles dois.
Divertem-se, o homem, o banco, o livro e a acácia. Até o ar, fez o favor de não estar demasiado húmido, demasiado quente, demasiado quieto. É suave a imagem (bela, diríamos nós que os observamos).
Em continuidade (como aliás é o próprio destino. Bem sei que nem sempre é tão suave como desejaríamos, mas no entanto, continuo. Interminavelmente continuo!), surge personagem quinta, que aproveita a quietude do cenário, do banco e da sombra (que já entendemos não ser Sombra qualquer, porque rubra!) e senta-se.
Quebrada que foi a intimidade, esguelham-se de curiosidade, os olhos (ainda cheios de palavras, pensamos nós, sem no entanto interferir com a história que se desenrola à nossa frente) a interrogar, quem ou o quê, se atreveu a interpor-se e a interromper aquele momento sagrado? (adivinhamos que sagrado, só para os protagonistas,mas o melhor é deixarmos de ser embirrentos e deixar correr a história).
Surgiu homem idoso, de olhos grandes, fora das orbitas, interrogativos e irrequietos, que tudo olham, tudo aspiram (mesmo o nosso personagem se sente incomodado, porque fecha o livro com cara de enfado).
Olharam-se! Fundiram-se em incómodos (até o banco sentiu o que só nós vimos).
“Tem um lápis?” pergunta, o de olhos sôfregos de vida.
Sem sons, sem resposta ( e sem perguntas), entrega-lhe um lápis mendigo, sumido, quase sem bico (Ranhoso, mas fiel, pensou ele, dizemos nós, que continuamos intrometidos e chatos, a observar a cena, longe da sombra rubra e calma, como não é demais referir).
Num ápice, num instante que só o tempo sabe medir, o nosso estranho personagem, em papel surgido do nada (estávamos desatentos, não há duvida que perdemos o momento da chegada do papel. Ainda por cima, nem demos conta, mas é personagem sexta desta história), em gestos frenéticos começa a desenhar.
Traço, atrás de traço, nascem ruas, prédios e acomodam-se volumes em espaços que só ele sabe. E o papel cresce, e a cidade nasce, a um ritmo que deixa assustado o nosso leitor, que na verdade já o não é à muito tempo.
“ É arquitecto!”, pensou, “ talvez poeta?”, questionou. “Artista!”, convenceu-se!
A cidade que brotava naquele papel, sem parar, só podia ser obra de um arquitecto-poeta-artista!
Estava lá tudo, até um jardim de rosas, ruas inteiras a esconderem-se das árvores, das esculturas e dos prédios, em contrastes inimagináveis.
O frenético criador não parava, e o lápis era já dedos sujos, mas o universo de papel e de sombras não parava, tomando dimensões quase reais, até que,( num momento que não sabemos precisar, muito menos quantificar),TUDO PAROU! ( e quanto nos é possível observar, não foi falta de lápis, pois mesmo sumido, ainda riscava, encravado numa unha do artista).
O arquitecto-poeta-artista, parou assustado ( os olhos não enganam!), suado, louco, demente, apavorado!“ Que foi Mestre?” ( Nome muito mais adequado, temos que admitir, que esta lengalenga comprida, de Arquitecto-poeta-artista)“Mestre! Diga alguma coisa, por favor! Porque parou? Porque se assustou?”
Aterrado (e nós também, observadores passivos, é verdade, mas qualquer um se assusta com tamanha brutalidade no olhar, sobretudo vinda de um poeta), vê o Mestre agarrar no papel e em fúria, primeiro, em desespero incontido, depois, rasga-lo, estilhaça-lo, até não restar, sombra, janela, rosa ou árvore, daquela cidade, criada de um só folgo, de um só sopro!
“Porquê Mestre? Porquê?”
“ Não consegui, meu filho! Não consegui imaginar as pessoas com que gostaria de enfeitar a minha cidade. Falta-me a imaginação!”
A acácia moveu-se, a sombra fugiu, e os dois ficaram a olhar o vazio, sem saber que foram personagens de uma história que não estava escrita, e que se escondia entre a capa e forro, de um livro tímido, que não gostava de mostrar a intimidade a qualquer um, mesmo aquele que se senta num banco do jardim, à sombra de uma enorme acácia rubra que não devia estar ali…
Divertem-se, debaixo daquela enorme acácia rubra, deslocada no espaço e no tempo. Nem ele, nem ela pertencem aquele cenário. Só o banco e o livro parecem entender o paradoxo da interligação emocional daqueles dois.
Divertem-se, o homem, o banco, o livro e a acácia. Até o ar, fez o favor de não estar demasiado húmido, demasiado quente, demasiado quieto. É suave a imagem (bela, diríamos nós que os observamos).
Em continuidade (como aliás é o próprio destino. Bem sei que nem sempre é tão suave como desejaríamos, mas no entanto, continuo. Interminavelmente continuo!), surge personagem quinta, que aproveita a quietude do cenário, do banco e da sombra (que já entendemos não ser Sombra qualquer, porque rubra!) e senta-se.
Quebrada que foi a intimidade, esguelham-se de curiosidade, os olhos (ainda cheios de palavras, pensamos nós, sem no entanto interferir com a história que se desenrola à nossa frente) a interrogar, quem ou o quê, se atreveu a interpor-se e a interromper aquele momento sagrado? (adivinhamos que sagrado, só para os protagonistas,mas o melhor é deixarmos de ser embirrentos e deixar correr a história).
Surgiu homem idoso, de olhos grandes, fora das orbitas, interrogativos e irrequietos, que tudo olham, tudo aspiram (mesmo o nosso personagem se sente incomodado, porque fecha o livro com cara de enfado).
Olharam-se! Fundiram-se em incómodos (até o banco sentiu o que só nós vimos).
“Tem um lápis?” pergunta, o de olhos sôfregos de vida.
Sem sons, sem resposta ( e sem perguntas), entrega-lhe um lápis mendigo, sumido, quase sem bico (Ranhoso, mas fiel, pensou ele, dizemos nós, que continuamos intrometidos e chatos, a observar a cena, longe da sombra rubra e calma, como não é demais referir).
Num ápice, num instante que só o tempo sabe medir, o nosso estranho personagem, em papel surgido do nada (estávamos desatentos, não há duvida que perdemos o momento da chegada do papel. Ainda por cima, nem demos conta, mas é personagem sexta desta história), em gestos frenéticos começa a desenhar.
Traço, atrás de traço, nascem ruas, prédios e acomodam-se volumes em espaços que só ele sabe. E o papel cresce, e a cidade nasce, a um ritmo que deixa assustado o nosso leitor, que na verdade já o não é à muito tempo.
“ É arquitecto!”, pensou, “ talvez poeta?”, questionou. “Artista!”, convenceu-se!
A cidade que brotava naquele papel, sem parar, só podia ser obra de um arquitecto-poeta-artista!
Estava lá tudo, até um jardim de rosas, ruas inteiras a esconderem-se das árvores, das esculturas e dos prédios, em contrastes inimagináveis.
O frenético criador não parava, e o lápis era já dedos sujos, mas o universo de papel e de sombras não parava, tomando dimensões quase reais, até que,( num momento que não sabemos precisar, muito menos quantificar),TUDO PAROU! ( e quanto nos é possível observar, não foi falta de lápis, pois mesmo sumido, ainda riscava, encravado numa unha do artista).
O arquitecto-poeta-artista, parou assustado ( os olhos não enganam!), suado, louco, demente, apavorado!“ Que foi Mestre?” ( Nome muito mais adequado, temos que admitir, que esta lengalenga comprida, de Arquitecto-poeta-artista)“Mestre! Diga alguma coisa, por favor! Porque parou? Porque se assustou?”
Aterrado (e nós também, observadores passivos, é verdade, mas qualquer um se assusta com tamanha brutalidade no olhar, sobretudo vinda de um poeta), vê o Mestre agarrar no papel e em fúria, primeiro, em desespero incontido, depois, rasga-lo, estilhaça-lo, até não restar, sombra, janela, rosa ou árvore, daquela cidade, criada de um só folgo, de um só sopro!
“Porquê Mestre? Porquê?”
“ Não consegui, meu filho! Não consegui imaginar as pessoas com que gostaria de enfeitar a minha cidade. Falta-me a imaginação!”
A acácia moveu-se, a sombra fugiu, e os dois ficaram a olhar o vazio, sem saber que foram personagens de uma história que não estava escrita, e que se escondia entre a capa e forro, de um livro tímido, que não gostava de mostrar a intimidade a qualquer um, mesmo aquele que se senta num banco do jardim, à sombra de uma enorme acácia rubra que não devia estar ali…
04 fevereiro 2004
quadro inacabado
Só falta a musica, os sons, os tons, para terminar este quadro, que se encheu de saltimbanco palhaço, ilusionista, entretido a brincar com os sonhos, a fingir equilibrio, numa enorme mancha de tinta, cor de azul Picasso.
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