20 fevereiro 2004

disco riscado

Mesmo não gostando da música que emperrava em disco riscado, éramos impelidos, quase instintivamente a levantar a agulha, em toque ligeiro, para que em harmonia ela seguisse a sua função de libertar os sons de um caminho a percorrer (que a rapaziada mais nova me desculpe, eu sei que a imagem pode soar a anacronismo, mas a mensagem é também para vós).
Porque não nos impelimos ao mesmo gesto, com os que nos rodeiam, que muitas vezes gritam por socorro mesmo debaixo dos nossos ouvidos, e que apenas apelam para um pequeno gesto, um pequeno toque, um simples olhar? Será por estarmos desatentos aos sinais?
Será porque a solidariedade, andou a ser usada e gasta como quem cola na alma cartazes de propaganda politica, escondida em sorrisos cínicos?
Ou pura e simplesmente porque se deixou de ouvir discos de vinil?

19 fevereiro 2004

quando o pincel se põe a dançar o tango em mais uma noite de insónia

Invadiram-me o sono sombras chinesas a dançar o tango, em traços de bailarina russa. Acordado, imitei os traços em papel que só aceitou tons de sépia e azul ultramarino (este azul mora em selos em desuso em casa paterna, que me recorda serões de outros tempos e que não tem nada a ver nem com o sonho, nem com a bailarina, só mesmo com o azul, que me ficou na retina e me revisita quando o misturo com os sépias).

18 fevereiro 2004

chávena de café

Deambulo pensamentos em movimentos lentos de chávena de café.
Inalo recordações em matizes amarelo-laranja de sentimentos que a memória teima em fugir e que se prendem em aromas de jarra de flores em quadro de pinceladas livres no qual não me atrevo a fixar cores.

17 fevereiro 2004

a estátua

Ele embirrava com a estátua.
Todos os dias ali passava e insultava aquele menir de pedra escura sem expressão nem sentimento nem raios de beleza. Pura e simplesmente não gostava do volume que o incomodava. Era pura antipatia, que o agastava, que o envelhecia, que lhe roubava serenidade sempre que por ali passava, dia a dia , vezes múltiplas e sempre pares. Sentia ser o seu destino, irritar-se com aquela estátua, que não sabia sequer quem era, pois nome não tinha. Nome de artista, pior ainda, não tinha artista, e isso era uma certeza que ele levaria até à morte. Um dia, em que a angustia o tirara de manhã cedo da mordomia dos lençóis, saiu em horas frias e geladas, com tons de nevoeiro, leve no entanto, pois deixava que a luz iluminasse, para além do olhar e permitisse uma tonalidade azul cinzenta de aquecer o coração. Perdeu os passos, diante da estátua e “estatesiou-se” (palavra inexistente é certo, mas o que o narrador pretende transmitir, em dicionário da sua autoria é a imagem de transformar-se em estatua!) ele próprio frente aquele monumento, incapaz de fechar a boca que lhe caía de espanto.
Seria a luz?
Seria a forma?
Que raio seria?
Quem se atrevera a esculpir aquela obra de arte que o comovia que lhe enaltecia os afectos?
Estava confuso, porque tentava recordar-se das formas daquela coisa informe e a memória, não lhe reflectia senão a imagem que se detinha defronte do seu olhar. Não conseguia sair dali e ali ficou até meio da tarde, quando o nevoeiro se despediu, e percebeu que o que tinha mudado era“apenas” o seu olhar.

16 fevereiro 2004

castigo

Corri, tropecei e caí.
Sorri, porque sabia que não podia enganar o Tempo, e no entanto corri, como se fosse o ultimo minuto de sol, numa tarde de Inverno.
Castiguei-me com austeridade e não me levantei (cheguei mesmo a engelhar o sobrolho com jeitos de juiz severo, porém justo). Obriguei-me a olhar a vida, como quem se senta pela primeira vez num banco de escola a conter lágrimas, com arrepios de angústia.
Sentado no chão, fechei os olhos e deixei a vida correr, em imagens de filme mudo, no entanto não resisti em dar-lhe cor...

15 fevereiro 2004

cenário com um actor sem coragem para ousar

Se conseguisse, pintava um quadro com todas as cores que um reflexo de água pode imaginar.
Enceno o quadro. A luz, as formas e a dança com que me foge o pincel com as cores…
Não sei se é da música ou do bailado, mas há algo de errado entre aqueles dois que não param a dança, sem se darem conta que a melodia deixou de os acompanhar. As cores ficaram como que esmagadas entre os olhos, o sonho e a imagem.
Difusas.
Desfocadas.
Se eu quisesse muito, inventava as minhas próprias cores, e transbordava-me em sons que se infiltravam em todo o meu corpo e transformava-me em Quadro!

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...