28 fevereiro 2004

apaga a luz, mamã

Pegaram na minha mão ao de leve e disseram-me, “ vem, vem viajar…”
Fui. (também quem recusa viajar, quando a mão que nos leva é a da nossa mãe?)
Apertei a mão e fui, com a alegria de ter todos os sentidos transformados em olhar.
Parámos em terras onde os rios se cruzam e seguem juntos, para mais além se envolverem noutro maior, como quem dá as mãos para ir viajar…
Imagino um vale de arroz, de tons verdes, de terras quentes.
Sentamo-nos a ouvir os rios que se segredam em música. (quando se viaja pela mão da nossa mãe, é obrigatório imaginar coisas e contar histórias com os olhos a pintar cores e lugares. Este cenário por exemplo, nos olhos da minha mãe ainda só tinha um rio, se bem que o outro corria mais à frente, onde esta viagem na verdade nunca aconteceu, a não ser muitos anos mais tarde, quando os olhares já eram outros, mas as cores essas, Deus meu, eram as mesmas.Já não sei quem conta a história, se eu, se a minha mãe. Eu sou capaz de afirmar de pés juntos e solenemente que quem a conta é o rio, em segredos murmurados e incontidos que se escapam em sons de flauta, que se transforma em brisa e ondula o arroz que ainda é espiga.)
Na paisagem (que já todos perceberam, se movimenta em bailado) em tons de girassol, cresce um circo. Tenda gigante de um só mastro, que não navega mas saltimbanca. Vi perfeitamente o mastro a içar, como Nau que ergue a vela ao som de marinheiros.Em artes de ilusionista entra em cena Saltimbanco louco, saltimbanco roto, que nunca ouviu falar de Pierrot e muito menos de Arlequim.
A criança, que era minha mãe, continuou a viagem com o menino por sua mão, neste palco onde o actor se comove com as cores e se perde em si mesmo, e do tempo, e do espaço, e já não sabe, ou não quer saber, que olhos viram a cena, se os seus, se o do saltimbanco, que apesar de roto e triste faziam rir a menina, apesar de tímida e quase submissa, onde só em sonhos se transformava em leão feiticeiro, em terras de OZ.(Já não sei se estou a contar uma história se estou a viajar, é tempo e lugar de por um ponto de ordem na narrativa, não vá o leitor desatento julgar que afinal não há história nenhuma.)Vimos também que o saltimbanco influenciou o imaginário da menina, que o já não é e a mim próprio, porque estou sempre a desenhar saltimbancos e também já o não sou (menino, claro). Já vimos que ao lado do saltimbanco (não vimos nada, mas é uma forma de continuar a história), apareceu uma menina de olhos verdes, tristes, porém sonhadores que se imaginava mil e uma coisas, mas naquele momento era ainda só personagem da sua própria vida, senhora das suas lágrimas e que só mais tarde seriam falsas, quando em espaços outros, onde o esplendor das luzes, é muito diferente das cores do cenário desta historia, ouviu senhora idosa em sons de aplausos, e sentimento nas veias, afirmar “ … as árvores morrem de pé.” (este contador de histórias é muito complicado, qual era o problema de dizer, assim de rajada, que a menina que assistia o saltimbanco sonhava em ser actriz e que já era senhora de uma enorme imaginação ? Mas não, arma-se em erudito e é no que dá).
O menino hoje não sabe ao certo como acabou esta história, até porque recorda fotografia antiga, de sua tia, menina, vestida em artes de teatro, naturalmente para uma festa da escola em terras onde lá mais à frente os rios se cruzam, e regam o arroz, e dão vida aos girassóis. Sabe também que a mão que o levou a viajar, é mão tímida porém sonhadora o que torna o final imprevisível. Mas como fomos todos crianças, não é difícil perceber, que a vida tem esta magia de dotar de vontade e de crer aqueles que tem a arte de não se ficarem pelos sonhos e serem o próprio sonho, que alimenta uma cadeia infindável de novos sonhadores, de novos lutadores, sejam eles saltimbancos, poetas ou actores, donde se conclui, que a menina pisa hoje aplausos, e que a outra, escondida em sonhos, imaginou-se um dia menos tímida a declamar afectos e a fazer poesia em histórias que contava à noite a meninos que vezes sem conta se esqueceram dos aplausos e no final apenas pediam, “apaga luz, mamã…”

27 fevereiro 2004

monologo de quem acorda, sem um narrador à mão…

Hibernei do Ser (ou de ser), sem angústias, nem lágrimas de aflição, como quem olha uma escarpa que se ajeita para receber o embate de uma onda gigante a desfazer-se em espuma.
Coloquei-me de lado, em gaveta sem chave a aguardar uma gota de Sol.
Esta manhã, acordei e reconheci-me no olhar e no Nome (ouvi-me claramente a dizer, em segredo interior – “ Nem tudo se perdeu”)
Fiquei intrigado e como não tinha narrador à mão questionei-me Eu próprio – “ o que perdeste afinal?”
Que pergunta imbecil, meu velho”. Disse ele, aliás … eu (o raio do narrador parece parvo, quando foi preciso pirou-se. Agora santa paciência, vá plantar batatas…) “Perdeste um pedaço de cor do quadro que não acabaste... “, disse-me.

25 fevereiro 2004

vagabundo

Gostava de conseguir ler um só livro de cada vez, mas sinto-me um saltimbanco de Vidas, vagabundo do sentir e do Ver.

24 fevereiro 2004

mergulho, escondido no horizonte

Peguei em folha de papel branco (está a tornar-se uma obsessão, o branco e o espelho. Resta-me encolher os ombros e resignar-me com o facto, outras obsessões virão, para me alegrar a criatividade.), dizia eu (estás a ficar chato, não há duvida), peguei em folha branca sem reflexos, sem introspecção e desenhei o horizonte, como quem limita o olhar. Por cima do horizonte esculpi uma gaivota em tons de aguarela suja de mar.
Afastei-me do papel, olhei a gaivota e esbati-me na linha que tracei, como quem mergulha na liberdade de pintar um quadro só com a imaginação.

23 fevereiro 2004

sem leme

Continuo a navegar, como criança à janela numa sala de aula em dia de chuva. Navego em barco alado à procura de uma história, de uma palavra que me empurre para o outro lado do vidro.
Navego com a força dos ventos, sem leme nem destino. Sou a própria caravela, que flutua nas cores de uma lágrima de chuva.

marinheiro de almas

Fiquei sentado a ver-Me partir e juntar-Me às folhas de árvore que insistem em colorir o imaginário de quem se sente bem com os tons de Outono.
Tonalidade que se sente no ar, em qualquer lugar, em qualquer hora e que se cola à pele (como humidade africana) e nos transforma em marinheiros de almas...

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...