06 março 2004

dialectos musicais

Não sei escrever musica, e muito menos reconheço as notas com que falam, no entanto nasceu em mim uma melodia, onde os personagens eram um violino e um saxofone. Falavam em sons geométricos, em tons de azul aguarela. O sax voava em sons quentes e o violino preenchia as sombras que não cabiam dentro de mim. A história que contaram, só eu a ouvi.

05 março 2004

silhoeta inacabada

Sintetizo silhueta de mulher em um só traço numa só cor.
Imagino mil e uma tonalidades que combinem com o traço e que o envolvam e não me decido por nenhuma.
Fica inacabado o quadro, mas a silhueta, essa pôs-se a dançar em ares de gozo aos sons de melodia muda…

04 março 2004

tinha tempo...

Como quem abre uma caixa de chocolates e retira um com uma mão e outro com o olhar, dei comigo entre duas reuniões e com tempo…
Entre o conforto do táxi e o envolver-me na multidão, optei por seguir-me nos passos e deixar-me ir com o movimento, mimetisando-me nos cheiros, nos olhares, nas vidas de todos os que comigo se embalavam nos subterrâneos da Cidade Grande.
Movimentei-me na multidão, em pedaço dela. Tinha tempo…
Inventei uma história para cada uma das vidas que se isolavam do olhar e o escondiam no chão que se orientava em carris infindos, em movimentos rápidos como quem transporta destinos.
Senti-me desconfortado com a frieza do Ver de cada um e não resisti em vasculhar imagens de outros tempos, de outras paragens, de outras emoções e calhou-me na sorte a recordação de uma menina de sorriso atrevido, em terras de Africa, e que me fazia corar com o olhar e deixei-me navegar. Tinha tempo…
Quando voltei à multidão, a minha saída estava algures entretida com os passos apressados de outros, mas não os meus. Saí a correr em paragem próxima e corri desesperado para um táxi. Olhei relógio minuto a minuto, transpirando cada segundo que me corria nas veias.
Atrasado, chateado, comigo e com a multidão, limpei a angustia e fixei-me em cada um dos rostos que me penetravam com interrogações. Voltei ao meu mundo, ao meu espaço, longe da multidão, à ausência do sentir, do Ver e do tempo…

03 março 2004

muro suspenso

O lápis desliza em formas violentas de muro, que se suspende sem portas nem frestas nem transparências e que se enrola em torre de Babel, que se esconde em luzes escuras, quase a cair do quadro.
Não há árvore que o transponha em sombra, não há pensamento, sentimento, poema, tempestade ou emoção que demova o quadro que me foge da mão.
Desenha-se sozinho.
Autoritário.
Gigante.
Paro cansado, transpirado, ansioso e olho em sorriso extasiado de frente para tamanha aberração suspensa em “cinzentos-prata”, fragilizada pela sua própria arrogância e imponência.
Zangado, penduro-o de pernas para o ar!

02 março 2004

ás escondidas

Andei a brincar às escondidas com a cor de uma laranja. Procurava textura original, com reflexos de tarde amena, sentado à sombra de um pinheiro manso (esta referência pode ser absurda, mas o facto de estar sentado, naquele preciso lugar, dá desde logo uma tonalidade única, sem a qual estas palavras nunca existiriam).
A brincadeira tornou-se séria quando a laranja se escondeu no Sol e fugiu em tons de "vermelho sangue".
Senti-me traído e contentei-me com a sonolenta Lua, que tendo pena de mim, segredou-me um olhar e escreveu nas estrelas “ não se deve confiar numa cor que cabe inteirinha numa forma. Quando se brinca com uma cor devemos pensar no mar, no céu, no deserto, no dia ou na noite, para que ela não se envergonhe da sua nudez e se entregue…”

auto-retrato numa manhã fria

Pintei o meu auto-retrato em formas cubistas.
Coloquei-me à frente de um espelho (sem especial cuidado com as cores da envolvente e muito menos com a moldura), fixei-me na imagem e lancei uma pedra.Num instante de magia, lá estava eu multifacetado a sorrir-me de espanto. Terminado o reflexo, desfeita a imagem em sons multicolores de queda desordenada, estilhaçada, o que ficou pendurado em imagem foram os pedaços que sobraram de mim.
E se a pedra fosse outra? E se o arremesso fosse outro?
O quadro tinha outra imagem, e as sobras de mim outras cores…

01 março 2004

o jardineiro desatento

A forma menos passiva de estar na vida é a da entrega.
Digo isto com toda a convicção que me vai na alma, porque a entrega, não é mais do que semear incessantemente sinais, aos que nos rodeiam. É como se estivéssemos permanentemente a ensinar ao nosso companheiro, aos nossos amigos, aos nossos colegas um modo de agir, um modo de olhar a Vida, e isso não tem nada de passivo ou de submissão. É precisamente o contrário, é uma atitude de orientação e de indicação de caminhos e de opções, onde a escolha é de cada um. É por isso que se torna aliciante a relação com os outros, é por isso que nos dirigimos numa direcção, num sentido. É o que nos faz levantar de manhã e sabermos que temos uma tela inteira para pintar as nossas cores, o nosso poema. A vida assim torna-se entusiasmante e uma Aventura! Não se deixem cair na tentação da submissão, isso sim trás angústia e desespero e minam uma relação humana. Daí a necessidade do olhar, do estar atento, do observar, para detectar que tipo de sinal é que vai produzir uma determinada reacção.
É como um jogo de luz e de sombras.
É como assistir ao nascer de uma flor que precisa ser regada na medida certa.
Cada flor precisa de um cuidado individual. Não há uma única rosa com a mesma cor, mesmo as brancas!
Tudo isto deixa de funcionar, quando nos pomos no lugar da flor, à espera dos cuidados do jardineiro desatento.
Vamos morrendo lentamente, isolados do mundo e da Vida.
Vezes sem conta olhamos o vazio e sentimos lágrimas incontidas , mas isso faz parte do poema e do conforto de conseguirmos criar o nosso próprio universo, e de sentirmos que a nossa existência tem um significado e um objectivo que ultrapassa a nossa própria individualidade.

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...