11 março 2004

estilhaço

Não me peçam imaginação para pintar grito que nasce sussurro junto ao chão,
que mina,
cresce,
sobe,
até explodir no coração.

Não é sangue que vejo,
Não é ódio que sinto,
É vento, tempestade,
indignação.
Porque te matas, homem sem ambição?
Porque te estilhaças,
sem amor nem perdão?

Para onde vais,besta?
Porque corres sem cabeça,
e do (des)amor,
fazes festa?
Porque rastejas, verme?
Diz-me !
Porque te cegas?
Porque te matas?
Porque tens alma, se não treme?

( as palavras sabem mal, a fel, predem-se no vazio, que me chora o ver. são martelo, são cal viva que se chora, que se grita. o vento cheira a morte que se vai embora, sem alma, sem norte...)

10 março 2004

o povo da árvore

Encontrei um povo que vivia numa enorme árvore que espreitava as nuvens e o mar. Não se lhe conhecia feitos históricos, actos de bravura ou conquistas além-mar, além terra ou mesmo além árvore. Era discreto e contemplativo este Povo que tinha como missão OLHAR, compreender e interpretar.
Cabia nele todo o Universo.
Todos os dias, o Mestre descia da árvore e escrevia as descobertas na areia límpida da praia…
Questionado um dia sobre a forma como o seu Povo conservava e transmitia o conhecimento, o Mestre suspirou e disse com voz serena:“ Foi a única forma que conseguimos encontrar para armazenar tudo o que apreendemos do cimo da nossa árvore...”

09 março 2004

paleta de amarelos e de vida

Pinto sem tela, mistura de paleta de amarelos, e escondo-me em campo de trigo que se perde ao fundo em azuis que se resguardam do Sol.
Sombra, só a do pássaro em que me transformo para sentir todo o calor das cores que Vêem a Alma.

08 março 2004

labirintos

Escrevo sem parar,
folhas mortas,
sem alma,desordenadas,
pintadas de raiva, sem sentido.
Piso-as,
sujo-as,
desentendo-as no que me gritam.
Uma a uma,
Moldo-as,
transformo-asem labareda que se esfuma,
caindo...
Caminhos trocados
labirintos…
cobertos de espuma.
Cenário sem actores,
fingindo…

07 março 2004

inventor (in)sofrido

Queria inventar palavras que se transformassem em vento e cantassem o fado,
mas os pássaros que voam brancos,
não me trazem senão o olhar de um mar gigante em forma de negro,
criar sons de borboleta mensageira de flores que se beijam às escondidas,
mas a guitarra só chora e não canta,
mas sinto-me preso,
inquieto e pedra ferida,
sem voz nem poema,
a desenhar lágrima colorida…

06 março 2004

dialectos musicais

Não sei escrever musica, e muito menos reconheço as notas com que falam, no entanto nasceu em mim uma melodia, onde os personagens eram um violino e um saxofone. Falavam em sons geométricos, em tons de azul aguarela. O sax voava em sons quentes e o violino preenchia as sombras que não cabiam dentro de mim. A história que contaram, só eu a ouvi.

05 março 2004

silhoeta inacabada

Sintetizo silhueta de mulher em um só traço numa só cor.
Imagino mil e uma tonalidades que combinem com o traço e que o envolvam e não me decido por nenhuma.
Fica inacabado o quadro, mas a silhueta, essa pôs-se a dançar em ares de gozo aos sons de melodia muda…

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...