24 março 2004

desenho sem cor. vermelho!

Engulo palavras sem sabor,
ásperas,
ácidas,
translúcidas.
Lágrimas-amêndoa,
Que pingam, em ping-ping
lento,
de dor,
lúcidas!
Traço risco,
gravado,
fundo,
Vermelho-sangue
escoado em lava que pinga,
em ping-ping de raiva,
mudo,
sujo,
em vergonha que esconde do espelho,
palavra que desenha "amor",
que pinga,
em ping-ping,
sem cor

a papoila

Encontrei uma papoila cor amarelo-tulipa. Estava triste e sozinha, porque todos lhe chamavam tulipa e ela queria ser somente papoila, mesmo que amarela…
(versão do patinho feio, contada a uma criança que se julgava feia...)

23 março 2004

o silêncio da árvore

Abracei-me a uma árvore para lhe ouvir os segredos e o murmúrio, de quem assiste paciente, à loucura da paisagem que indiferente, atropela o tempo.
Nada me disse e desfolhou-se em vermelhos de-nuvens-ao-fim-de-tarde.
Insisti com questionar permanente e contínuo, o porquê de tamanha dor…
Não murmurou, nem segredou…
Remeti-me ao silêncio, coberto de verdes-escuros, a aguardar a cor de uma flor, apreensivo com o amanhã, porque isto das árvores ficarem mudas tem que se lhe diga...

22 março 2004

desabafo

Normalmente não me exalto, e mastigo com serenidade, paciência e algum gozo, confesso, quando confrontado com o que não entendo, obrigando-me a accionar os mecanismos de auto-controlo, que a idade me ensinou.
No entanto dificilmente consigo digerir frases ocas e saudosistas do tipo “ no meu tempo é que…” ou “ esta geração, meu Deus…
É de mais para mim e sinto-me descontrolado, irado com vontade de abanar quem as vomita.
Será tão difícil de perceber, que esta geração, seja ela qual for e em lugar qualquer, é única e exclusivamente aquilo que conseguimos criar?
É o nosso último estado de evolução.
Somos todos nós, os de hoje e os de ontem a olhar o amanhã!
O Jovem, criança ou não, é o elemento mais velho do nosso ramo familiar. Não o mais novo. O mais novo foi o primeiro!
Não este, que está a olhar com tudo aquilo que os outros viram e lhe deixaram no Ver, e no Sentir.
Todos não seremos suficientes para lhe orientar o olhar!
Ajudem-no a correr para diante, em vez de lhe cuspirem o Eu!

21 março 2004

distrações

Estava tão absorto, nos meus passos, nos pensamentos e na minha utopia de imaginar o renascer de uma nova humanidade que nem os bons dias dei ao rio que me acompanhou na caminhada. Vou ter que voltar, pelo menos para lhe dizer obrigado.

18 março 2004

o sorriso da personagem

Um autor…
(não ficava nada mal, seres um pouco mais ambicioso, digamos, mais abrangente…Certamente que o que pretendes transmitir, vestia-se bem na palavra “criador”…)
Um inventor, contador de histórias… (pronto, já percebi, pretendes que quem vir a palavra lida a “estique” conforme bem entender!)
Será que é desta?
Vossa Excelência dá licença?
Um contador de histórias tem toda a autoridade de saber o que a sua personagem esconde, entre a pontuação (reflexos, tonalidades, texturas…), mas nunca saberá o que ela esconde nas palavras ditas (cores, perspectivas, expressão, olhares…)!
(confessa lá, o que realmente queres dizer é que não sabes o que escreves! eh! eh!)

17 março 2004

caixa de cartão

Tenho uma caixa de cartão onde guardo o meu olhar, que fica a criar cores para me contar em palavras…
Todos os dias, sento-me fixo no longe a ouvir as histórias que ele me conta apenas com sete palavras, misturadas e segredadas em brincadeira de criança.

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...