13 abril 2004

quadros guardados que o deixaram de ser

Misturei-me nas cores e pintei, preenchi-me de tonalidades e texturas, de desenho que guardava em imagens e que suavemente permiti que esvoaçassem em tela branca.
Os tons de seara, penteada de mar, escorreram em forma de lágrima, colorida de universo(s) e de sorrisos. Quadros multifacetados de um olhar que deixou de se esconder e se libertou em cor.

12 abril 2004

o instante

Tudo indicava que seria um dia normal, igual a tantos outros que em fila, se sucediam em cadência de rotina, uns com mais luz, outros com ligeira névoa, tons e cores vários, que de alguma forma, imprimiam uma vontade de os descobrir, de os usar, Vezes, todo, (que o Tempo não é para se estragar), outras, apenas de fugida, (que o cansaço e a curiosidade não duram sempre). Este, que se escreve hoje, em forma narrativa, pausada e de palavras bem escolhidas, foi ÚNICO, e andou dentro do personagem dias seguidos até chegar ao desenho e à imagem, como quem quer guardar só para si tão sublime momento. Mais calmo, menos egoísta, resolveu segredá-lo a quem o escrevesse, porque ele não tinha palavras para os contornos, para as cores, para o sentir do momento.
Para onde quer que fosse, escolhia sempre um local, onde ao fim do dia pudesse encontrar-se consigo, em forma de reflexão, onde explorava os seus limites, físicos e mentais, em corrida, onde ele conseguia ser só ele e se renovava para o dia seguinte, Era assim que ganhava animo e forças para reinventar o novo dia, era assim há anos, muitos.Para onde fora, em descanso, também tinha o seu canto, o seu espaço e lançou-se em corrida, em pensamentos seus, onde as sombras, os bancos de jardim, as acácias rubras, os pinheiros mansos, as memórias, o acompanhavam , em harmonia intima a brincar com as cores e com o sentir, Momentos havia que lhe apareciam palavras novas, histórias novas, carinhos e afectos que rescrevia para si e para os outros, em imagem, vezes, filtrada e cuidada, vezes outras, assim tal qual, ao jeito selvagem, como quem pinta um quadro de uma só cor, de uma só vez.
Naquele dia tudo foi diferente, e por mais que este narrador lhe suplicasse descrição mais concreta, não conseguiu mais do que "um momento de uma intensidade e de uma beleza imensurável". (Temos que admitir que é pouco e se imensurável, presume-se que indescritível e a vontade que dá é ficarmos por aqui…)
Mas sabemos que este narrador tem relação privilegiada com o personagem, e vezes várias consegue mergulhar nas cores que se lhe formam no sentir e a tarefa torna-se mais simples, até porque as cores são sempre simples, a moldura é que estraga sempre tudo.
Confirma-se a” inexplicabilidade” do facto, Vamos admitir que foi uma conjugação de momentos únicos que resolveram convergir num Instante,( temperatura, perfumes de pinheiro e réstias de eucalipto, aragem de montanha a visitar o mar, que se perdia no alto, sol-pôr, esforço físico no limite, e outros inúmeros momentos únicos que não se descortinam nas profundezas da mente deste nosso amigo), e num ápice, deixou de se sentir, deixou de se pertencer e explodiu em “Espírito”, o seu corpo ali estava em corrida louca, mas ele era coisa ”nenhuma” e coisa “toda” ao mesmo tempo, e só deu conta que se tinha esfumado na paisagem, nos elementos que o rodeavam, quando se ouviu em discurso directo a falar com ELE, e incapaz de descodificar o momento, ouvia-se ao longe, no corpo que corria, um repetido “já valeu a pena, já valeu a pena”, como que resignado e esmagado com a beleza do instante e a sua vida se resumisse e convergisse para aquele dia, aquela hora .
Ele sabia, (já o tinha constatado vezes outras) que o seu crescimento tinha sido por etapas, aos solavancos, nesse dia teve consciência que tudo seria diferente, até o olhar…

05 abril 2004

passeio pela vida

Encontrei homem, carregado de sabedoria, de face gravada e olhar no caminho que suplicava às pernas, passos curtos e lentos, não fosse a vida assustar-se com a sua passagem…

02 abril 2004

fada sininho

Escondeu-se num copo esguio, cheio de reflexos, em corpo de” arte-nova”, de cigarrilha igual, de fumo ausente. Imaginei-lhe musica, em paços doces, em abraço uno. Capto-lhe os odores, o perfume, em sons de saxofone triste. Fecho os olhos e durmo...
"Anjo da guarda?"
"Fada sininho?"
Não sei resposta, levou-me a alma, em silêncio...
Devagarinho...

01 abril 2004

porta de coisa nenhuma

Atravessei porta após subida de escada que se afunilava para o escuro. Uma simples porta, moldura de madeira negra, entreaberta de luz. Chegado, interroguei-me sobre o sentido daquela passagem e não encontrei algum. (Só mesmo um tolo se daria ao trabalho de colocar uma porta no cimo de uma escada que leva a lado nenhum). Senti o tempo que escoo a abrir portas que escondem o vazio, em passatempo interior que só eu vejo, que só eu sei.
Pintei a porta com "cores-de-paisagem", virei-lhe as costas e esqueci-me do lugar.(Muito ao longe ouvi a escada a troçar de mim, em risos soluçados de alegria…)

31 março 2004

o meu Pinóquio ou a marioneta vagabunda, ou o que quiserem porque o titulo nem sequer devia existir…

O tempo e a memória andam a enganar-se em forma de saltimbanco, que se finge ilusionista de emoções.
Escondem-se um do outro, como amantes adolescentes que amuam de tanto se quererem. (hoje ando a desbaratar palavras, não há duvida que “adolescentes” está a mais neste retrato)
Há falta deles, transformo a história que me conto e dou vida ao Pinóquio, sem dar conta que ao transformar-me na personagem que me foge em cores, sou eu que sou marioneta vagabunda perdida na história e no tempo.
Sinto-me bem no conto, e por ali fico a passear em terras outras, até que os amantes amuados se beijam e eu volto a ter gravata e fico a olhar o meu chapéu de palha, roto do sol em cores de seara de trigo, abandonado, junto ao espantalho que me sorriu por momentos, poucos, mas suficientes para me sentir bem dentro da minha própria memória.( prometo que vou aprender a escrever parágrafos mais curtos e menos confusos…)

30 março 2004

o barco que se obrigou a Ser.

Tocou-me ao de leve, primeiro, em ritmos de despertar, em espaços menos cuidados, até me forçar a abrir os olhos e fitá-lo de frente, meio sonolento e rabugento inteiro.
“ Que me queres a esta hora?”
“Vem!”
Fui de corpo.
“Agarra-me e pinta” ,sopra-me o lápis irreverente, que me levou sonâmbulo até à tela que me espreitava na penumbra.
“Agarra-me e pinta” ,insiste, em jeito autoritário mas de sorriso ameno, terno, em forma de conquista, mergulhando em imagem todo inteiro dentro de mim…
Agarrei-o e naveguei barco à vela em “azuis-manhã” que encheu o horizonte em “esperança-névoa”.
No fim, quando as cores já não eram só minhas, deitei-o como quem aconchega criança, à noite depois da história.
Eu, fiquei ali, a olhar o barco que não se resignou a ser só Sonho e partiu deste, para o Mar.

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...