15 abril 2004

desenho de criança, em dia de sol

Não sei se é da luz, se da aragem que me percorre o Ver, mas as cores andam a saltitar, loucas, de uma história para a outra, insistindo em ter vida própria, ao ponto de recusarem a fixar-se no quadro, Parecem desenho de criança, que se esconde envergonhado no imaginário e se esquece das formas…

14 abril 2004

sorriso

Cruzei-me com mulher que se passeava, ausente a sorrir sozinha. Fixei a imagem porque bela e como intruso, furtivo, tentei redesenhar aquele sorriso, que era só dela, e eu tomei como meu.
Inventei-lhe uma história que coubesse no quadro. Sorria recordação, de filho ausente, em cidade séria, de estudos, a educar-se na esperança de um futuro, sorria filho de tempos outros a puxar-lhe a saia em busca de colo, em busca de afecto, de beijos e de sorrisos, sorria saudades, sorria de amores a esconder-se de sombras e de carinhos que esvoaçavam longe, em tempos em que lhe orientava os passos, de mãos dadas, sorria, sozinha com o coração cheio de filho...

13 abril 2004

quadros guardados que o deixaram de ser

Misturei-me nas cores e pintei, preenchi-me de tonalidades e texturas, de desenho que guardava em imagens e que suavemente permiti que esvoaçassem em tela branca.
Os tons de seara, penteada de mar, escorreram em forma de lágrima, colorida de universo(s) e de sorrisos. Quadros multifacetados de um olhar que deixou de se esconder e se libertou em cor.

12 abril 2004

o instante

Tudo indicava que seria um dia normal, igual a tantos outros que em fila, se sucediam em cadência de rotina, uns com mais luz, outros com ligeira névoa, tons e cores vários, que de alguma forma, imprimiam uma vontade de os descobrir, de os usar, Vezes, todo, (que o Tempo não é para se estragar), outras, apenas de fugida, (que o cansaço e a curiosidade não duram sempre). Este, que se escreve hoje, em forma narrativa, pausada e de palavras bem escolhidas, foi ÚNICO, e andou dentro do personagem dias seguidos até chegar ao desenho e à imagem, como quem quer guardar só para si tão sublime momento. Mais calmo, menos egoísta, resolveu segredá-lo a quem o escrevesse, porque ele não tinha palavras para os contornos, para as cores, para o sentir do momento.
Para onde quer que fosse, escolhia sempre um local, onde ao fim do dia pudesse encontrar-se consigo, em forma de reflexão, onde explorava os seus limites, físicos e mentais, em corrida, onde ele conseguia ser só ele e se renovava para o dia seguinte, Era assim que ganhava animo e forças para reinventar o novo dia, era assim há anos, muitos.Para onde fora, em descanso, também tinha o seu canto, o seu espaço e lançou-se em corrida, em pensamentos seus, onde as sombras, os bancos de jardim, as acácias rubras, os pinheiros mansos, as memórias, o acompanhavam , em harmonia intima a brincar com as cores e com o sentir, Momentos havia que lhe apareciam palavras novas, histórias novas, carinhos e afectos que rescrevia para si e para os outros, em imagem, vezes, filtrada e cuidada, vezes outras, assim tal qual, ao jeito selvagem, como quem pinta um quadro de uma só cor, de uma só vez.
Naquele dia tudo foi diferente, e por mais que este narrador lhe suplicasse descrição mais concreta, não conseguiu mais do que "um momento de uma intensidade e de uma beleza imensurável". (Temos que admitir que é pouco e se imensurável, presume-se que indescritível e a vontade que dá é ficarmos por aqui…)
Mas sabemos que este narrador tem relação privilegiada com o personagem, e vezes várias consegue mergulhar nas cores que se lhe formam no sentir e a tarefa torna-se mais simples, até porque as cores são sempre simples, a moldura é que estraga sempre tudo.
Confirma-se a” inexplicabilidade” do facto, Vamos admitir que foi uma conjugação de momentos únicos que resolveram convergir num Instante,( temperatura, perfumes de pinheiro e réstias de eucalipto, aragem de montanha a visitar o mar, que se perdia no alto, sol-pôr, esforço físico no limite, e outros inúmeros momentos únicos que não se descortinam nas profundezas da mente deste nosso amigo), e num ápice, deixou de se sentir, deixou de se pertencer e explodiu em “Espírito”, o seu corpo ali estava em corrida louca, mas ele era coisa ”nenhuma” e coisa “toda” ao mesmo tempo, e só deu conta que se tinha esfumado na paisagem, nos elementos que o rodeavam, quando se ouviu em discurso directo a falar com ELE, e incapaz de descodificar o momento, ouvia-se ao longe, no corpo que corria, um repetido “já valeu a pena, já valeu a pena”, como que resignado e esmagado com a beleza do instante e a sua vida se resumisse e convergisse para aquele dia, aquela hora .
Ele sabia, (já o tinha constatado vezes outras) que o seu crescimento tinha sido por etapas, aos solavancos, nesse dia teve consciência que tudo seria diferente, até o olhar…

05 abril 2004

passeio pela vida

Encontrei homem, carregado de sabedoria, de face gravada e olhar no caminho que suplicava às pernas, passos curtos e lentos, não fosse a vida assustar-se com a sua passagem…

02 abril 2004

fada sininho

Escondeu-se num copo esguio, cheio de reflexos, em corpo de” arte-nova”, de cigarrilha igual, de fumo ausente. Imaginei-lhe musica, em paços doces, em abraço uno. Capto-lhe os odores, o perfume, em sons de saxofone triste. Fecho os olhos e durmo...
"Anjo da guarda?"
"Fada sininho?"
Não sei resposta, levou-me a alma, em silêncio...
Devagarinho...

01 abril 2004

porta de coisa nenhuma

Atravessei porta após subida de escada que se afunilava para o escuro. Uma simples porta, moldura de madeira negra, entreaberta de luz. Chegado, interroguei-me sobre o sentido daquela passagem e não encontrei algum. (Só mesmo um tolo se daria ao trabalho de colocar uma porta no cimo de uma escada que leva a lado nenhum). Senti o tempo que escoo a abrir portas que escondem o vazio, em passatempo interior que só eu vejo, que só eu sei.
Pintei a porta com "cores-de-paisagem", virei-lhe as costas e esqueci-me do lugar.(Muito ao longe ouvi a escada a troçar de mim, em risos soluçados de alegria…)

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...