19 abril 2004

o ponto

Sabes onde está o ponto?
Se sabes então nunca andarás perdido!
Se não sabes, procura-o, antes de tentares compreender-te, porque o que entenderes, se não partir do ponto, não és tu, és outro…

In " apontamentos para um manual da serenidade, ou como podes andar durante muito tempo enganado se não estiveres atento ao começar, ou ao partir..."
(Não é demais agradecer ao Mestre que o procurou, e que sem querer, me ajudou a procurar o meu...)

Bate-me à porta.
.
O coração salta-me em descompasso, em grito surdo que me assusta. Olho e olho-me perdido no vazio de quem me chama.
.
Não encontro rosto, nem feições, nem lágrima, nem emoção. Salto-me em muro que se ergue.
.
Explosão de dor que persegue, que corre, que encontra e arde.
.
O espelho estilhaça em sangue de menino que olha, que Te olha.
.

pedras sem alma

Pedra que voa,
esvoaça,
dilacera
,magoa.
Pedra que julga,
que mata,
não perdoa.
Pedra lançada,
que mata,
mulher que chora,
que olha.
Mão de pó,
rios de lágrima,
sem hora,
sem dó,
sem alma,
que mata…

(A Safya, Amina e Fatima Usman acusadas de adultério e condenadas à morte por lapidação)

18 abril 2004

bolinar a olhar para diante...

Se fores ter à margem de um rio e este te criar a ilusão que corre em sentido contrário, lembra-te de velas triangulares, criadas em cabala,sofridas, em cruz,em chagase bolina...
Se as não tiveres por perto, só te resta mergulhar, acreditando que lá no fundo, o Rio corre na direcção certa.

16 abril 2004

presença

Não sei se tens asas, se és presença, se és olhar que se intersecta no meu, mas sei que aí estás, a inventar-me histórias, a colorir-me a paisagem, a orientar-me o sentido. És sombra colorida que murmura, melodia que esvoaça em vento. Estás e empurras-me ao de leve, sem te mostrares. Estás, em forma de nada, disfarçado em mim e para mim…

15 abril 2004

desenho de criança, em dia de sol

Não sei se é da luz, se da aragem que me percorre o Ver, mas as cores andam a saltitar, loucas, de uma história para a outra, insistindo em ter vida própria, ao ponto de recusarem a fixar-se no quadro, Parecem desenho de criança, que se esconde envergonhado no imaginário e se esquece das formas…

14 abril 2004

sorriso

Cruzei-me com mulher que se passeava, ausente a sorrir sozinha. Fixei a imagem porque bela e como intruso, furtivo, tentei redesenhar aquele sorriso, que era só dela, e eu tomei como meu.
Inventei-lhe uma história que coubesse no quadro. Sorria recordação, de filho ausente, em cidade séria, de estudos, a educar-se na esperança de um futuro, sorria filho de tempos outros a puxar-lhe a saia em busca de colo, em busca de afecto, de beijos e de sorrisos, sorria saudades, sorria de amores a esconder-se de sombras e de carinhos que esvoaçavam longe, em tempos em que lhe orientava os passos, de mãos dadas, sorria, sozinha com o coração cheio de filho...

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...