21 abril 2004

cores que se fingem

Pesam-me as palavras que não digo. Respiro-as e desenho-as em folhas que se misturam em voo de pássaro, com cores que se fingem de Outono.
As palavras prendem-se, atropeladas na angústia de se ouvirem, fechadas, sem sentir.
Grito que se inventa semente de flor que não vê o dia.
Já não há folha, não há pássaro nem grito, nem palavra nem poesia, apenas nuvem cinzenta, que chora sozinha…

20 abril 2004

não te sei, mas vejo-te

Desenho-te, sentada em mesa de café. Envolvo-te em azuis cinza e luz pouca, que se fuma, que se esfuma. Pensas, olhas-te no papel que escreves, nas palavras que te dizes.
Não te sei, mas vejo-te. Sonhas em tons creme de azuis que vivem, e dançam e embalam.
Desenho-te silhueta em sono de menina, agora deitada, a ouvir as palavras que te dizem

19 abril 2004

o ponto

Sabes onde está o ponto?
Se sabes então nunca andarás perdido!
Se não sabes, procura-o, antes de tentares compreender-te, porque o que entenderes, se não partir do ponto, não és tu, és outro…

In " apontamentos para um manual da serenidade, ou como podes andar durante muito tempo enganado se não estiveres atento ao começar, ou ao partir..."
(Não é demais agradecer ao Mestre que o procurou, e que sem querer, me ajudou a procurar o meu...)

Bate-me à porta.
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O coração salta-me em descompasso, em grito surdo que me assusta. Olho e olho-me perdido no vazio de quem me chama.
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Não encontro rosto, nem feições, nem lágrima, nem emoção. Salto-me em muro que se ergue.
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Explosão de dor que persegue, que corre, que encontra e arde.
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O espelho estilhaça em sangue de menino que olha, que Te olha.
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pedras sem alma

Pedra que voa,
esvoaça,
dilacera
,magoa.
Pedra que julga,
que mata,
não perdoa.
Pedra lançada,
que mata,
mulher que chora,
que olha.
Mão de pó,
rios de lágrima,
sem hora,
sem dó,
sem alma,
que mata…

(A Safya, Amina e Fatima Usman acusadas de adultério e condenadas à morte por lapidação)

18 abril 2004

bolinar a olhar para diante...

Se fores ter à margem de um rio e este te criar a ilusão que corre em sentido contrário, lembra-te de velas triangulares, criadas em cabala,sofridas, em cruz,em chagase bolina...
Se as não tiveres por perto, só te resta mergulhar, acreditando que lá no fundo, o Rio corre na direcção certa.

16 abril 2004

presença

Não sei se tens asas, se és presença, se és olhar que se intersecta no meu, mas sei que aí estás, a inventar-me histórias, a colorir-me a paisagem, a orientar-me o sentido. És sombra colorida que murmura, melodia que esvoaça em vento. Estás e empurras-me ao de leve, sem te mostrares. Estás, em forma de nada, disfarçado em mim e para mim…

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...