26 abril 2004

apontamentos...

Olha-te com verdade e verás a mentira que és!
In “apontamentos para um manual de serenidade dedicado a todos os alunos que me habitam”
Escrito em jeito de meia resposta a uma provocação colectiva da Witheball a 23 de abril

24 abril 2004

amanhã

Recordo menino-flor, vermelha, encarnada que guarda em arma fria, carregada, fotografia, antiga que se revolta, libertada…
Pergunto-me indignado e lúcido, triste e revoltado, até quando o símbolo que liberta, é arma disparada…

23 abril 2004

excelência,

Pinto-te macaco em cores de papagaio, Tu que te vestes de gravata e fato apropriado e te agachas em aplausos submissos e sorrisos cínicos, Tu que te vergas , Tu que te engasgas com Sua Excelência em salamaleques ordinários e medrosos, Agonias-me em cheiros de dejecto que se espalha no ar, em nuvem contaminada de cobardia. Tu que te levantas em aplausos à passagem de Sua excelência, reflectes vermelhos de vergonha, mas sem ela. Riu-me de Ti e Dele em gargalhada aberta, que se abafa nos aplausos, mas riu, e oiço-me, e mostro-me, e vês-me, e olhas, primata com cores de chimpanzé. Discursas de boca cheia, mas só tu te ouves, e sentes-te César, e vês-te no coliseu de polegar virado, armado em matador, Tu que decides, Tu que te envolves nas gravatas de alfaiate, e falas de povo, e falas de macacos que te aplaudem, Peço-te, humildemente, tem vergonha, cala-te, olha-te ao espelho e vê que esse papagaios não voam, Exige andorinhas, exige gaivotas, exige o que quiseres, mas macacos não, papagaios não que cheiram mal, cheiram a podre, e as palmas são patéticas e as palavras são iguais às tuas, Tem coragem, e envolve-te com quem te diz não, tem vergonha dos sim excelência, que são cínicos, e só tu não vês. Olha nos olhos e diz o que pensas, não te engasgues em compromissos que não sentes e não queres. Segue o teu caminho, porque se não é o teu, deixa a tarefa para quem o saiba, Autentico, sem fingimentos, sem fugas, mal ou bem, mas Verdadeiro. (Não tenho jeito para isto, prefiro o circo, os saltimbancos, os palhaços, os animais, com cor ou sem cor, esboço de carvão em papel amarrotado, mas autênticos, reais.)

22 abril 2004

um beijo ao longe, para longe...

Passei a mão pelo teu olhar, de longe, como quem afaga o cabelo que se liberta no vento e na brisa do mar. Baixas os olhos, escondes sorriso em cor tímida. Ouviste o que o Ver te levou nas palavras que não disse, que adivinhaste, que sentiste. Foi a minha vez de sorrir e (des) olhar-te , tímido também, só que sem cor, porque os anos já são outros. Pinto o momento, sozinho, em cor-de-mar, em cor-de-onda, em cor-de-rocha. Pinto sem desenho, porque o traço limita o sentir e eu não quero interferir, deixo que o quadro se pinte, nasça e com a cor se embale, como onda. Ela volta, volta sempre, nova, outra, mas sempre cor-de-onda, de mar…

dia que acordou à noite

O dia acordou-me brusco, antipático ao som de zumbidos de mosca, persistente, teimoso. Finjo silêncio, mas ele insiste em ferir-me, em espicaçar-me o corpo cansado que ainda dorme. Olho-o, mas ele não pára(que zumbido, não se faz sem voo).
Decido-me esquecê-lo, em ignorância de o ver. Recuso-me preenchê-lo. Mas não me deixa, não me larga, zumbe, insulta, estremece, magoa. Olho-o em desafio incontido, como quem provoca o touro em arena colorida de pó e sons de corneta. Dou um passo, outro, e mais um em corrida curta e medrosa e aí vou…

21 abril 2004

cores que se fingem

Pesam-me as palavras que não digo. Respiro-as e desenho-as em folhas que se misturam em voo de pássaro, com cores que se fingem de Outono.
As palavras prendem-se, atropeladas na angústia de se ouvirem, fechadas, sem sentir.
Grito que se inventa semente de flor que não vê o dia.
Já não há folha, não há pássaro nem grito, nem palavra nem poesia, apenas nuvem cinzenta, que chora sozinha…

20 abril 2004

não te sei, mas vejo-te

Desenho-te, sentada em mesa de café. Envolvo-te em azuis cinza e luz pouca, que se fuma, que se esfuma. Pensas, olhas-te no papel que escreves, nas palavras que te dizes.
Não te sei, mas vejo-te. Sonhas em tons creme de azuis que vivem, e dançam e embalam.
Desenho-te silhueta em sono de menina, agora deitada, a ouvir as palavras que te dizem

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...