Nunca se deitou antes do silêncio e verificar o descanso de todos que pernoitavam debaixo do seu tecto. Inquieta, ansiosa, depois de tudo, depois de todos, ali ficava noite dentro, a debater-se com o sono e com os seus sonhos. Só a noite era dela.
Entrava no quarto, noite dentro, de mansinho, para não afugentar, sono difícil, e cuidadosamente, recolocava a almofada, do menino adormecido, e lá saía, devagarinho, inventando caminhos àquele que dormia.
Não sei se é retrato de Mãe. É da minha…
02 maio 2004
01 maio 2004
o passeio de um duas-patas-com-memória
Olá!
Oiço em eco, como quem anda distraído, e continuo sem interrogação, o caminho que me levam os passos, naquela pequena mata, coberta de trevos e pintas amarelas...
Olá, estou aqui! Não me ouves?
Senti interrogação no eco, e fiquei em semi-alerta, mas não suficientemente curioso, para me desviar da minha própria ausência.
Eh! Tu aí, bom dia!
Não! Era demais, já não era eco, alguém estava de facto a entrar-me pelos sentidos, e queria-me. Parei em escuta.
Estou aqui! Senta-te no chão! Sei que gostas de te sentar no chão!
Olhei, rodando-me, pois via-me sozinho, naqueles verdes, que dançavam leves.
Aqui em baixo. Senta-te, já disse. Olha, lá ó coisa, disse meio zangado, se é que se pode estar zangado numa pequena mata, cheia de verdes-novos, aliás, como sabes que gosto de me sentar no chão?
O rapaz está doido! Ouve lá ó tu que tens mania que só tu te vês, não percebes, que não sou eu que te falo, mas que é a tua memória que me escuta?
Era demais. Depois de uma semana de tormentos, ter que aturar delírios, era um abuso da natureza. Baixei-me e teimoso, não me sentei no chão, mas vi uma delgada flor amarela-azeda , que me fitava atrevida. Deitei-me no chão, em posição de criança que contempla. Barriga no húmido da mata, cabeça apoiada nas mãos , cotovelos pregados e pernas levantadas a fingir que andam no ar. Na verdade gosto de me sentar no chão, Deitado de costas também é bom, lembra-me passeio em que descobri o céu, de mão dada com o meu pai, um dia, numa noite escura de verão, numa clareira de um pinhal, perto da cidade grande...
Eh!, estás parvo ou quê, então?, eh, estou aqui!
Ouve lá ó azeda, que me queres? Porque me vens a chamar desde que aqui entrei a passear-me? Aliás como é que estás aqui, se eu te ouvi lá no outro fundo, e não neste?
És mesmo um duas-patas-com-memória!. Não vês que nós somos todas um. Só vocês com a vossa memória é que tem a mania de serem únicos. Se nós todas , não fossemos só um, como seríamos tapete amarelo que pinta esta clareira de verdes trevo, que tanto gostas de olhar? Ou não te lembras o quanto gostavas de sentir o nosso azedo pendurado em amarelo?
Calma aí, menina-flor-azeda, aos anos que não me azedo em amarelos!
Lá estas tu! Já te disse que somos todas um e sempre a mesma, hoje , ontem e por aí fora. Somos semente, que pinta os vales. A azeda que te refrescava em arrepios, em menino, era eu.
Mentirosa! Aldrabona!Refilei, pouco convicto. Aquela outra ali, não és tu!, o amarelo dela é mais claro, mais azedo que o teu!
Não percebes, ou não queres perceber, ó duas-patas! Enquanto não entenderes que eu sou muito mais do que a cor que vês quando me fixas no olhar, nunca perceberás que o meu amarelo-azedo, não sou eu, mas sim todos os outros, mais os verdes que nos nascem em moldura.
Escusas de te sentar no chão a julgar-te criança, e fingir-te poeta! Vai! Continua os teus passos e entretém-te com o Eu e não te oiças no eco do teu olhar. Vai!
Levantei-me e fui cabisbaixo, sem reacção, atordoado. Primeiro lento, mais apressado depois, meio ausente no final.
Volta, volta amanhã, volta quando quiseres, oiço o eco em cores amarelas a imitar as estrelas que em menino vi de mão dada com o meu pai, numa mata perto da cidade grande...
Oiço em eco, como quem anda distraído, e continuo sem interrogação, o caminho que me levam os passos, naquela pequena mata, coberta de trevos e pintas amarelas...
Olá, estou aqui! Não me ouves?
Senti interrogação no eco, e fiquei em semi-alerta, mas não suficientemente curioso, para me desviar da minha própria ausência.
Eh! Tu aí, bom dia!
Não! Era demais, já não era eco, alguém estava de facto a entrar-me pelos sentidos, e queria-me. Parei em escuta.
Estou aqui! Senta-te no chão! Sei que gostas de te sentar no chão!
Olhei, rodando-me, pois via-me sozinho, naqueles verdes, que dançavam leves.
Aqui em baixo. Senta-te, já disse. Olha, lá ó coisa, disse meio zangado, se é que se pode estar zangado numa pequena mata, cheia de verdes-novos, aliás, como sabes que gosto de me sentar no chão?
O rapaz está doido! Ouve lá ó tu que tens mania que só tu te vês, não percebes, que não sou eu que te falo, mas que é a tua memória que me escuta?
Era demais. Depois de uma semana de tormentos, ter que aturar delírios, era um abuso da natureza. Baixei-me e teimoso, não me sentei no chão, mas vi uma delgada flor amarela-azeda , que me fitava atrevida. Deitei-me no chão, em posição de criança que contempla. Barriga no húmido da mata, cabeça apoiada nas mãos , cotovelos pregados e pernas levantadas a fingir que andam no ar. Na verdade gosto de me sentar no chão, Deitado de costas também é bom, lembra-me passeio em que descobri o céu, de mão dada com o meu pai, um dia, numa noite escura de verão, numa clareira de um pinhal, perto da cidade grande...
Eh!, estás parvo ou quê, então?, eh, estou aqui!
Ouve lá ó azeda, que me queres? Porque me vens a chamar desde que aqui entrei a passear-me? Aliás como é que estás aqui, se eu te ouvi lá no outro fundo, e não neste?
És mesmo um duas-patas-com-memória!. Não vês que nós somos todas um. Só vocês com a vossa memória é que tem a mania de serem únicos. Se nós todas , não fossemos só um, como seríamos tapete amarelo que pinta esta clareira de verdes trevo, que tanto gostas de olhar? Ou não te lembras o quanto gostavas de sentir o nosso azedo pendurado em amarelo?
Calma aí, menina-flor-azeda, aos anos que não me azedo em amarelos!
Lá estas tu! Já te disse que somos todas um e sempre a mesma, hoje , ontem e por aí fora. Somos semente, que pinta os vales. A azeda que te refrescava em arrepios, em menino, era eu.
Mentirosa! Aldrabona!Refilei, pouco convicto. Aquela outra ali, não és tu!, o amarelo dela é mais claro, mais azedo que o teu!
Não percebes, ou não queres perceber, ó duas-patas! Enquanto não entenderes que eu sou muito mais do que a cor que vês quando me fixas no olhar, nunca perceberás que o meu amarelo-azedo, não sou eu, mas sim todos os outros, mais os verdes que nos nascem em moldura.
Escusas de te sentar no chão a julgar-te criança, e fingir-te poeta! Vai! Continua os teus passos e entretém-te com o Eu e não te oiças no eco do teu olhar. Vai!
Levantei-me e fui cabisbaixo, sem reacção, atordoado. Primeiro lento, mais apressado depois, meio ausente no final.
Volta, volta amanhã, volta quando quiseres, oiço o eco em cores amarelas a imitar as estrelas que em menino vi de mão dada com o meu pai, numa mata perto da cidade grande...
30 abril 2004
desculpem
A quem me lê, ou lia, desculpem se falo de mim, mas quando o desenho confunde as cores com a noite, e nem é noite nem sombra, é escuro, não conseguimos sair deste invólucro egocêntrico que se funde no “mim”
sem desenho, deserto, sem olhar, escrevi...
Escrevi sem parar, de raiva, sem desenho, sem olhar. Palavras, secas, de deserto, evaporadas, afiadas, doentes, dementes. De olhos fechados, escrevi, laminas, disparadas sem sentido. Escrevi, no papel, febril, sem afecto, sem calor, mas insisto, deserto. No fim, depois do ponto, agarrei no papel, amachuquei-o, humilhei-o, rasguei-o, queimei-o, insisto, febril e voltei a mim…
29 abril 2004
sem titulo, sem nome, porque não és. ( recado só para mim)
Espero em desespero , resposta, de mim, não de ti. Indeciso ou ausente, ando por aí, sem horizonte, porque me encontro em desencontro com ele, e torno-o pequeno, em mim.
Não espero um sim, mas um caminho, que percorro tacteando, sentindo, longe de ti. Sento-me na areia e oiço e quero. Não vens. Voas por aí.
Não espero um sim, mas um caminho, que percorro tacteando, sentindo, longe de ti. Sento-me na areia e oiço e quero. Não vens. Voas por aí.
no entanto eram árvores
Hoje as árvores dançaram, loucas, ora verdes, ora sombra-verde-prata, a fingir-se levantadas do chão.
Não eram folhas, eram ondas, crina de cavalos alados, que não sabem para onde vão.
Não eram folhas, eram ondas, crina de cavalos alados, que não sabem para onde vão.
28 abril 2004
fui
E o menino disse, em sussurro, baixinho, anda, vem comigo...
Fiquei assustado, porque o sonho era lindo, mas tinha cruz que sofria, mas fui com o menino, não sei se no sonho, se sozinho...
Fui, com os passos que me voam nos olhos, sempre com ele, com o menino, no caminho.
Fiquei assustado, porque o sonho era lindo, mas tinha cruz que sofria, mas fui com o menino, não sei se no sonho, se sozinho...
Fui, com os passos que me voam nos olhos, sempre com ele, com o menino, no caminho.
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