07 maio 2004

pinta azul!

Pinta azul!
Ouviu,num quase perto, que lhe soou longe. Não entendeu.
Sabia,quase certo,o que era azul, (logo ele que tinha tanto mar e tanto céu no olhar).
O espanto que o incomodou,
quase susto,
quase duvida,
foi o imperativo para O pintar,
quando ele só tinha violetas-amarelo-em-tons-de-brisa,
no ver e no sentir .
Tentou, mesmo assim, imaginar, tons de azuis-estrela, mas não havia duvida, era o violeta-em-tons-de-saudade
quase castanhos-rosa-aguarela,
oferecidos em forma de beijo que o Vivia e que lhe voava na alma,
sem desenho,
sem sombras,
só cor que lhe deslizava o Dia.

06 maio 2004

lágrimas de uma árvore triste que me dava bom dia…

Encoberta de névoa que te esbatia as cores, fingiste-me sorriso. Olhei-o lágrima, vermelho-Outono, em folha que caía. Perguntei-te porque me fingias cores em tempo de verdes-criança. Ofereceste-me lágrima, outra, em amarelos-escuros-que-não-gostavam-de-castanhos. Vi que choravas e que não era névoa que te encobria, mas a indiferença de quem por ti passava e não te via...

05 maio 2004

a revolta

Os caminhos revoltaram-se nocturnos, em serpentear raivoso, com cabeças várias e em sons de mar vermelho, em tempestade incontida no sonho.
Agarrei Caravela sem velas e fui, qual cavaleiro montado em cavalo livre. Olhei a Fúria, do cimo de uma onda do meu caminho revoltado e perguntei-lhe:
Que me queres, se sabes que não me assustas?
Que me vejas, que me sintas e que não andes por aí a olhar para todo o lado, menos para onde pões os passos, em mim!
Estás enganado, fúria raivosa, se não te olho, é porque confio. Não entendes que o meu olhar para ti é o meu acreditar?
Eu sei, mas sinto tanto a tua falta…
Sabes melhor do que eu, que os passos que me levam em ti, são a razão da tua e da minha existência, tu e eu somos o mesmo, e existímo-nos em simultâneo, por isso pára com essa revolta sem sentido, não és, e não sou mais do que caminho por percorrer…
Tu és os meus passos, não te empertigues e não queiras ser mais do que isso, portanto acalma-te, porque sabes que nada me irá deter, nada me fará parar. Se fizeres o favor, sai do meu sonho, sai do meu dormir e deixa-me descansar, porque amanhã tenho cores novas para te pintar…

04 maio 2004

ilusões

"Procura a melhor forma de resistires à tentação de veres apenas com os teus olhos, para não caíres na ilusão de te sentires feliz em vez de o seres…"

In “ apontamentos para o manual da serenidade, ou como se pretende demonstrar que para a atingir, é obrigatório estar atento…"

03 maio 2004

teorias

“Só quando do somatório de todas as parcelas, resultar o UM, podes ambicionar olhar o infinitamente grande.”

In “ apontamentos para o manual da serenidade, ou como se pretende demonstrar que para a atingir é necessário o desassossego”

Resultado da leitura dos ditos apontamentos por um matemático em noite de insónia

Somatório de n igual a infinito
Infinito igual a UM
Logo, somatório de n igual a UM
Donde, um, a dividir por infinito igual a UM

(A diferença é abismal enquanto que com a teoria corrente, o infinitamente grande reduz a zero qualquer que seja o numero que tem o azar de ser dividido, na teoria da serenidade, que agora se demonstra, o infinitamente grande, iguala-se a qualquer numero, e transforma-se nele, independentemente do seu tamanho,porque o não divide)

Prova:
A divisão do infinito por qualquer número é sempre infinita.
O UNO (um) é indivisível (já dizia o Mestre).

Conclusão:
Estou doido!

Nota: A todos os matemáticos e cientistas, por nos terem andado a enganar, informa-se que a formula, e a teoria (teoria da serenidade) agora tornada publica, se encontra registada e patenteada pelo autor.Se ensinada, transmitida, ou vivida com o Sentir, está dispensada de qualquer taxa ou emolumento.

02 maio 2004

esboço de um retrato

Nunca se deitou antes do silêncio e verificar o descanso de todos que pernoitavam debaixo do seu tecto. Inquieta, ansiosa, depois de tudo, depois de todos, ali ficava noite dentro, a debater-se com o sono e com os seus sonhos. Só a noite era dela.
Entrava no quarto, noite dentro, de mansinho, para não afugentar, sono difícil, e cuidadosamente, recolocava a almofada, do menino adormecido, e lá saía, devagarinho, inventando caminhos àquele que dormia.
Não sei se é retrato de Mãe. É da minha…

01 maio 2004

o passeio de um duas-patas-com-memória

Olá!
Oiço em eco, como quem anda distraído, e continuo sem interrogação, o caminho que me levam os passos, naquela pequena mata, coberta de trevos e pintas amarelas...
Olá, estou aqui! Não me ouves?
Senti interrogação no eco, e fiquei em semi-alerta, mas não suficientemente curioso, para me desviar da minha própria ausência.
Eh! Tu aí, bom dia!
Não! Era demais, já não era eco, alguém estava de facto a entrar-me pelos sentidos, e queria-me. Parei em escuta.
Estou aqui! Senta-te no chão! Sei que gostas de te sentar no chão!
Olhei, rodando-me, pois via-me sozinho, naqueles verdes, que dançavam leves.
Aqui em baixo. Senta-te, já disse. Olha, lá ó coisa, disse meio zangado, se é que se pode estar zangado numa pequena mata, cheia de verdes-novos, aliás, como sabes que gosto de me sentar no chão?
O rapaz está doido! Ouve lá ó tu que tens mania que só tu te vês, não percebes, que não sou eu que te falo, mas que é a tua memória que me escuta?
Era demais. Depois de uma semana de tormentos, ter que aturar delírios, era um abuso da natureza. Baixei-me e teimoso, não me sentei no chão, mas vi uma delgada flor amarela-azeda , que me fitava atrevida. Deitei-me no chão, em posição de criança que contempla. Barriga no húmido da mata, cabeça apoiada nas mãos , cotovelos pregados e pernas levantadas a fingir que andam no ar. Na verdade gosto de me sentar no chão, Deitado de costas também é bom, lembra-me passeio em que descobri o céu, de mão dada com o meu pai, um dia, numa noite escura de verão, numa clareira de um pinhal, perto da cidade grande...
Eh!, estás parvo ou quê, então?, eh, estou aqui!
Ouve lá ó azeda, que me queres? Porque me vens a chamar desde que aqui entrei a passear-me? Aliás como é que estás aqui, se eu te ouvi lá no outro fundo, e não neste?
És mesmo um duas-patas-com-memória!. Não vês que nós somos todas um. Só vocês com a vossa memória é que tem a mania de serem únicos. Se nós todas , não fossemos só um, como seríamos tapete amarelo que pinta esta clareira de verdes trevo, que tanto gostas de olhar? Ou não te lembras o quanto gostavas de sentir o nosso azedo pendurado em amarelo?
Calma aí, menina-flor-azeda, aos anos que não me azedo em amarelos!
Lá estas tu! Já te disse que somos todas um e sempre a mesma, hoje , ontem e por aí fora. Somos semente, que pinta os vales. A azeda que te refrescava em arrepios, em menino, era eu.
Mentirosa! Aldrabona!Refilei, pouco convicto. Aquela outra ali, não és tu!, o amarelo dela é mais claro, mais azedo que o teu!
Não percebes, ou não queres perceber, ó duas-patas! Enquanto não entenderes que eu sou muito mais do que a cor que vês quando me fixas no olhar, nunca perceberás que o meu amarelo-azedo, não sou eu, mas sim todos os outros, mais os verdes que nos nascem em moldura.
Escusas de te sentar no chão a julgar-te criança, e fingir-te poeta! Vai! Continua os teus passos e entretém-te com o Eu e não te oiças no eco do teu olhar. Vai!
Levantei-me e fui cabisbaixo, sem reacção, atordoado. Primeiro lento, mais apressado depois, meio ausente no final.
Volta, volta amanhã, volta quando quiseres, oiço o eco em cores amarelas a imitar as estrelas que em menino vi de mão dada com o meu pai, numa mata perto da cidade grande...

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...