11 maio 2004

simplesmente

Desenho-te, sem palavras, nem sons, nem perguntas, nem porquês.
Nasces bailado de cores em gestos que se entrelaçam,
que só tu ouves,
só tu vês…
Sentada,
olhas-te,
a voar,
a sentir,
a rezar.
Falas,
contigo,
com ninguém,c
omigo,
além…
Imaginas-te desenho,
sem traço,
só cor, (que desenho não cabe em abraço, em amor.)
Irrequieta,
erguida,
decidida,
és imagem múltipla,
que ora,
facetada,
dividida...
Já não consigo desenho,
fugiu,
não chora.
Ausente,
saltita, borboleta-flor,
enternecida.
Pinto mulher,
multicolor,
cristalina,
Pinto-te,
simplesmente,
Maria…

10 maio 2004

esquecimento

O dia olhou-me com reticências, medos vários, passos lentos, indecisos. Não sei se o assustei, mas ele lá entendeu que o ia virar do avesso, esticá-lo, cansá-lo sem tréguas nem compaixão.
Brinquei-lhe o tempo,
perdeu-se no espaço
e ouviu-me rir em sons de plateia-criança encantada com os palhaços.
Isto de nos esquecermos do dia tem que se lhe diga,
porque afinal, nem me Vi…

08 maio 2004

teoria da descontinuidade

Explica melhor, por favor!
Supliquei, todo sentidos, debruçado em atenção.
Caramba, caro senhor, já não sei como lhe explicar coisa tão simples, então não entende que há os Partidos de dentro, (os de direita, do centro da esquerda, das extremas), e os de fora? Os de dentro ainda não deram o pulo, e continuam todos a olhar para o dentro, e ainda não perceberam que já não há mais nada que experimentar se quiserem evoluir, se não quiserem estagnar. É como os números!
Como os números? Pergunto esbugalhado de curiosidade.
Sim, caro senhor, entre os números um e dois há uma infinidade de outros, basta por uma virgula e já vê o quanto se torna impossível passar do um para o dois, sem se dar um salto para fora. A continuidade só existe no tempo, não na evolução. Para evoluirmos temos que andar sempre a saltar de limite em limite, de descontinuidade em descontinuidade. Assim é também com a sociedade e com a forma de politicar. Eu, caro senhor, sou o arauto do partido de fora, não há cá votos em branco, não senhor. Há o partido de fora, e quando os de dentro passarem para os de fora, cá estou eu para saltar outra vez, é o meu contributo para a sociedade.
Fiquei a olhar para o arrumador de carros, que de olhar no longe me estendia a mão, para uma moeda. Olhei-o fundo, na sujidade que o cobria, nas rugas que o feriam, gravadas do frio e da indiferença. Não havia dúvida possível, tinha ganho um adepto, dei-lhe a mão, não moeda, e saltei de pés juntos, para fora.

07 maio 2004

pinta azul!

Pinta azul!
Ouviu,num quase perto, que lhe soou longe. Não entendeu.
Sabia,quase certo,o que era azul, (logo ele que tinha tanto mar e tanto céu no olhar).
O espanto que o incomodou,
quase susto,
quase duvida,
foi o imperativo para O pintar,
quando ele só tinha violetas-amarelo-em-tons-de-brisa,
no ver e no sentir .
Tentou, mesmo assim, imaginar, tons de azuis-estrela, mas não havia duvida, era o violeta-em-tons-de-saudade
quase castanhos-rosa-aguarela,
oferecidos em forma de beijo que o Vivia e que lhe voava na alma,
sem desenho,
sem sombras,
só cor que lhe deslizava o Dia.

06 maio 2004

lágrimas de uma árvore triste que me dava bom dia…

Encoberta de névoa que te esbatia as cores, fingiste-me sorriso. Olhei-o lágrima, vermelho-Outono, em folha que caía. Perguntei-te porque me fingias cores em tempo de verdes-criança. Ofereceste-me lágrima, outra, em amarelos-escuros-que-não-gostavam-de-castanhos. Vi que choravas e que não era névoa que te encobria, mas a indiferença de quem por ti passava e não te via...

05 maio 2004

a revolta

Os caminhos revoltaram-se nocturnos, em serpentear raivoso, com cabeças várias e em sons de mar vermelho, em tempestade incontida no sonho.
Agarrei Caravela sem velas e fui, qual cavaleiro montado em cavalo livre. Olhei a Fúria, do cimo de uma onda do meu caminho revoltado e perguntei-lhe:
Que me queres, se sabes que não me assustas?
Que me vejas, que me sintas e que não andes por aí a olhar para todo o lado, menos para onde pões os passos, em mim!
Estás enganado, fúria raivosa, se não te olho, é porque confio. Não entendes que o meu olhar para ti é o meu acreditar?
Eu sei, mas sinto tanto a tua falta…
Sabes melhor do que eu, que os passos que me levam em ti, são a razão da tua e da minha existência, tu e eu somos o mesmo, e existímo-nos em simultâneo, por isso pára com essa revolta sem sentido, não és, e não sou mais do que caminho por percorrer…
Tu és os meus passos, não te empertigues e não queiras ser mais do que isso, portanto acalma-te, porque sabes que nada me irá deter, nada me fará parar. Se fizeres o favor, sai do meu sonho, sai do meu dormir e deixa-me descansar, porque amanhã tenho cores novas para te pintar…

04 maio 2004

ilusões

"Procura a melhor forma de resistires à tentação de veres apenas com os teus olhos, para não caíres na ilusão de te sentires feliz em vez de o seres…"

In “ apontamentos para o manual da serenidade, ou como se pretende demonstrar que para a atingir, é obrigatório estar atento…"

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...