14 maio 2004

visita

Mestre, fui visitar-te!
Estavas pendurado, ainda sonho, quase Homem-menino em paredes pintadas a electrico-lisboa.
Foi encontro estranho, porque o foi, o sentir e o ver-te evoluir, em desenho, em movimento, sozinho, todo ao mesmo tempo…
(Os traços estavam lá todos, depois , ah depois, andaste a bricar com os olhos e foste crescendo, até...começar...)

(Retratos do sentir na visita à exposição de Mestra Almada Negreiros “ El Alma de Almada el impar: obra gráfica 1926-1931" no Palácio das Galveias em Lisboa.)

13 maio 2004

a aventura de um cágado

Não era vez nenhuma.
Não o era,
porque não só uma,
mas muitase porque não história.
Era assunto sério, que se conta com gravidade, austero e olhos de criança. Não tem fadas, nem fábula, mesmo que contada por animais.
Vez era, portanto,
que cágado pachorrento, todos os dias-noite-lua, se espreguiçava e descia a rua, (Não havia necessidade nenhuma de rima. Deixa-te de fragilidades emocionais e conta lá a tua história, que somos todos olhos, mas pouco Tempo), (Logo vi que ia ter problemas. Qual é o mal de pôr uma rua, descida por um cágado, que só rima por mero acaso. Ele descia a rua e ponto final, pelo menos no que diz respeito à rima, que isto não é verso nem história). Não ia beber-se de água, que essa tinha de perto, ia olhar a luz que de noite se escondia dos candeeiros e os transformava em reflexos, já que ela, a própria tinha luz emprestada (convém recordar os distraídos, que o cenário é de noite-lua). Naqueles dias-noite em que ele se emprestava ao sentir, era para, em sossego olhar a sua flor. Ela crescia junto à calçada entre pedras unas, nua. Também ela se espreguiçava em cor, em noites sem nuvem. Ali ficavam os dois, cágado-feio-enrugado e flor-sem-nome de amarelos-lua, toda a noite a olhar-se, a amar-se em silêncios, com ternura.
(Mas a história? Conta lá a história!)
Não é história coisa nenhuma, disse já que é coisa séria, é só ternura, e essa não cabe em história, nem em coisa nenhuma, é AVENTURA!

12 maio 2004

conta-me uma história

Papá! Papá, ensina-me a amar, que eu não percebi nada do que me ensinaste!
Eu não te ensinei, não se ensina a amar. Também não te ensinei a ter sede pois não?
Mas eu não entendo!
Diz-me papá, porque é que as pessoas guardam todo o amor que tem dentro de si e só o dão aos bocadinhos. Eu quando tenho sede bebo o copo de água todo de uma vez, quando amo, dou-o todo e só assim fico satisfeito. Só o dando todo ele volta a nascer em mim…
Diz-me papá porque se incomodam tanto as pessoas de receberem quantidades enormes de amor e não sabem o que fazer com ele? Porque se aborrecem com quem lhes dá todo o amor que têm e dão tanta atenção a quem só o dá aos poucos, ou com quem lhe oferece sorrisos cínicos?
Porque têm todos tanto medo de se darem, porque se riem tanto de quem se entrega?
Tenho tanto medo de andar enganado…
Diz-me!
Conta-me uma história como só tu sabes contar!
Conta-me…

apontamentos de um ilusionista

“Estás demasiado perto para veres!
Portanto, afasta-te!
Estás certamente longe para sentires!
Portanto, estás com um enorme problema para resolveres…”

Inapontamentos para o manual da serenidade, ou como se chega à conclusão que há um ponto em cada instante que é mágico

11 maio 2004

simplesmente

Desenho-te, sem palavras, nem sons, nem perguntas, nem porquês.
Nasces bailado de cores em gestos que se entrelaçam,
que só tu ouves,
só tu vês…
Sentada,
olhas-te,
a voar,
a sentir,
a rezar.
Falas,
contigo,
com ninguém,c
omigo,
além…
Imaginas-te desenho,
sem traço,
só cor, (que desenho não cabe em abraço, em amor.)
Irrequieta,
erguida,
decidida,
és imagem múltipla,
que ora,
facetada,
dividida...
Já não consigo desenho,
fugiu,
não chora.
Ausente,
saltita, borboleta-flor,
enternecida.
Pinto mulher,
multicolor,
cristalina,
Pinto-te,
simplesmente,
Maria…

10 maio 2004

esquecimento

O dia olhou-me com reticências, medos vários, passos lentos, indecisos. Não sei se o assustei, mas ele lá entendeu que o ia virar do avesso, esticá-lo, cansá-lo sem tréguas nem compaixão.
Brinquei-lhe o tempo,
perdeu-se no espaço
e ouviu-me rir em sons de plateia-criança encantada com os palhaços.
Isto de nos esquecermos do dia tem que se lhe diga,
porque afinal, nem me Vi…

08 maio 2004

teoria da descontinuidade

Explica melhor, por favor!
Supliquei, todo sentidos, debruçado em atenção.
Caramba, caro senhor, já não sei como lhe explicar coisa tão simples, então não entende que há os Partidos de dentro, (os de direita, do centro da esquerda, das extremas), e os de fora? Os de dentro ainda não deram o pulo, e continuam todos a olhar para o dentro, e ainda não perceberam que já não há mais nada que experimentar se quiserem evoluir, se não quiserem estagnar. É como os números!
Como os números? Pergunto esbugalhado de curiosidade.
Sim, caro senhor, entre os números um e dois há uma infinidade de outros, basta por uma virgula e já vê o quanto se torna impossível passar do um para o dois, sem se dar um salto para fora. A continuidade só existe no tempo, não na evolução. Para evoluirmos temos que andar sempre a saltar de limite em limite, de descontinuidade em descontinuidade. Assim é também com a sociedade e com a forma de politicar. Eu, caro senhor, sou o arauto do partido de fora, não há cá votos em branco, não senhor. Há o partido de fora, e quando os de dentro passarem para os de fora, cá estou eu para saltar outra vez, é o meu contributo para a sociedade.
Fiquei a olhar para o arrumador de carros, que de olhar no longe me estendia a mão, para uma moeda. Olhei-o fundo, na sujidade que o cobria, nas rugas que o feriam, gravadas do frio e da indiferença. Não havia dúvida possível, tinha ganho um adepto, dei-lhe a mão, não moeda, e saltei de pés juntos, para fora.

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...