18 maio 2004

sem artefactos

Não se diz:
Vou peregrinar…
Peregrina-se!

In “apontamentos para um manual da serenidade, assim sem mais nada, sem artefactos, porque o assunto é sério”

as rosas de uma flor

Não gosto de pintar flores, porque lhes não sei cor. Quando as desenho ou pinto, escondo-as em reflexos, em sombras, não vão elas zangar-se por lhes ter roubado as cores. Pintar uma flor é como que levantá-la do chão, morrem lágrima. Incolor, mesmo sendo lágrima de uma flor…
As flores que pinto, não existem, são só imaginação.

17 maio 2004

(des)encontro

Pediram-lhe um sorriso, não o conseguiu. Guardou-o para a sua hora, naquele dia, em forma de história.
Conta, encontros e desencontros de coisas simples, de um pastor e de um menino. Um guardava rebanho, o outro, sonhos enquanto corria. Cruzavam-se dia após dia, a horas várias, mas sempre no mesmo caminho, junto a águas que os acompanhava em melodias, que cada um ouvia conforme sentia.
Quando se transformavam em encontro, Pastor, rebanho e menino, este, educado, abrandava o passo que corria e perguntava, “Posso? Bom dia! “
Não esperava resposta, que sempre havia, quase eco pois só ouvia “dia”. O facto é que ou por o sentir ovelha, ou por outra coisa ainda, o rebanho não fugia, só se afastava para deixar passar quem ia.
Foi assim, dia seguido de dia, o Pastor sempre o mesmo, o rebanho esse, não sabia, porque nessas coisas de ovelhas era ignorante o menino.
Houve porém vez em que se deu o desencontro, ou o menino, o já não era, ou o peso dos seus passos eram outros, ou simplesmente o Pastor não ouvia o Rio, o certo, é que ainda hoje não se sabe o porquê do que se passou. A verdade é que quando depois do “Bom dia”, se cruzaram, pastor, menino (que quase entendemos o já não era) e ovelhas, estas por aí foram a correr, a balir e a sinar ( palavra estranha, inventada por certo, o narrador desgostou de juntar balir a badalar, mas que se ouve sino pequenino e assustado), em passo apressado de fugida. O Pastor em voz fúria disse, “Este caminho é de cabra, não é para correr! Neste caminho ando eu”. ( não, não era eco não senhor, era voz trovão de pastor). O menino (já que começamos a chamar-lhe assim, não custa nada manter a ilusão, que por dentro ainda o há, e que por fora ainda se sente, o que de resto nem é importante para a história), continuou, sem medo, porque o não tinha, mas preocupado, porque afinal, aquele seu caminho, era de outro, era do pastor, que o Vivia.
No outro dia, pois lá estava, que era respeitoso o menino, mas não medroso, lá foi correr junto ao seu rio, quando avistou de longe o Pastor e o rebanho que o seguia, desviou-se para verdes mais em baixo, e quando lhe viu olhos, acenou-lhe e disse “Bom dia”.
O pastor levantou cajado em aceno vistoso e alegre e sem ser em eco difuso largou um sorriso corrido de um “ Bem-haja, menino, tenha um Bom Dia”.
Sentiu-se bem o menino, por lhe ver nos olhos tanta alegria, no Pastor que afinal, só naquele dia o vira.
Conclusão, não há, a não ser que ao lê-la, tenha sorrido. O narrador, esse, teve-o sempre consigo, enquanto escrevia, pois foi isso que se lhe pedia. Um sorriso.
Mas o menino, esse cresceu naquele dia, pois aprendeu que por vezes, é necessário afastar-se para não haver desencontro e que nem sempre o estar perto, mesmo dando bom dia, provoca encontro, ou alegria...

em lado nenhum...

Há dias estranhos em que nos deixamos morrer no vazio das palavras. Não encontramos sentido, nem cores, nem sentir. Estamos ausentes, em lado nenhum, nem dentro nem fora. Será cansaço da Vida? Cegueira? Loucura? Ou simplesmente morremos aos soluços, como marioneta que anda aos saltinhos?

16 maio 2004

sem sentido unico e nunca obrigatório

“Temos a tendência para colocarmos a Verdade bem lá no fundo do nosso Sentir. Quando a vemos, colocamos-lhe olhares interrogativos e transformamo-la em pensamento profundo, com sentires de propriedade e sentido único… “

In “apontamentos para um manual da serenidade, ou a forma de ensinar que basta retirar o peso que lhe colocamos, para ela (verdade), suavemente emergir, e flutuar na vida sempre perto do nosso olhar. Mas cuidado, não lhe retires o lastro, todo de vez só, retira-o em tempo certo e cuidados muitos, não vá ela emergir vulcão e saltar à tua frente e em vez de flutuar voa-te para outros rios e ficas a olhá-la longe, como às cegonhas, que estão lá no alto, a rir-se de nós com o seu voar quase sem sombra…"

14 maio 2004

quando andamos a passear um sorriso, esquisito, sem jeito...

Andei dia todo, com um poema no peito,
não tinha forma, nem rima,
não tinha jeito,
não cabia em palavra,
era,
perfeito…

calaivos!

Cientistas de todo o mundo,
calai-vos!
Biólogos,
Médicos,
Físicos,
Genéticos,
Róboticos,
Engenheiros,
Filósofos,
Sábios,
E outros que tais,
Relinchem bestas!
Sebentas,mortais!
Parem de mentir,
de ser banais!
Porque não dizem o simples!
Porque não ensinam
que Morrer, é deixar de Sentir!

Parem, não digam nada!
Não façam nada,
recolham a vossas casa,
aos Hospitais
Não vos vou ouvir,
JAMAIS!
Vou,vou gritar!
Vou por aí, de porta a porta,
até deixar de sentir,
até deixar de sonhar,
não importa,
vou, dizer, nem que seja a cantar:Deixem os poetas falar…

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...