21 maio 2004

fim do desenho do ver

Este espaço chegou ao fim.
Não é morte, é fim, como as histórias.
O fim não se desenha, nunca vi quadro ou cor com fim.
Tentei desenhar uma história, sem quadro mas com cor e senti-la.Senti-a.Coloquei-lhe um ponto, o meu ponto. Não conheço pontos finais.
Este é só um ponto, com fim.
Mas, mesmo antes do ponto, desenho um beijo para a mana, que sem querer, criou este espaço.
Nasceu de um impulso, numa carta-resposta, para ti.
Depois vieram memórias, depois o desenho e o sentir.Das memórias ficaram as nossas fugas de meninos, por entre, e por dentro do “mato” de Angola, por onde caminhávamos como se fossemos para a escola, DESCOBRIR.Íamos sem saber perigo (Se criança não o sabe, é porque não existe). Não sei se era eu que te puxava a mão, ou se me deixava ir, não recordo, sei que foi aí que me nasceram os olhos e o sentir…
Foi assim que nasceu este espaço, Ana Maria…
Fim…
(Porque com três pontos se sente um poema)

espero, chuva de palavras, que não vêem

Espero, não sei se palavras. Simplesmente não sei, mas espero. Sinto-me pescador que olha, o mar, o céu e se funde no ar, em espera. Não é hora, pensa, (talvez), e o que era só olhar, foi-se transformando em sentir. Mais que sentidos, porque o corpo acelera compassos, ritmos já esquecidos. Aguardo palavras. Sentença. Sem juiz, porque o não há. Os minutos, são lentos, são horas. Que coisa estranha o dia. Afinal, ele brinca, ele baralha. Espero palavras. Perdi-me no tempo, no sentir, nesta interminável espera. Fiquei preso em cores já esquecidas. Estou bem. Até as palavras esperam. Estão presas no tempo. Oiço o Mar, está calmo, também ele espera, gaivotas, (talvez).
O sentido das palavras mudou. Estranho a incerteza, mas sinto-me confusamente, bem. Serenidade? Não sei! Espero palavras que não vem. Andam por certo por aí a voar. Ficaram ao colo? De quem? Não é angústia, é calma, já disse, é Mar que se espreguiça, não esqueçam. Vai e vem. Limpa passos de areia. Passos perdidos? Não sei, perdi-me de pensamentos. Só sinto. Espero.
Nem as palavras vêem, por isso as repito. São as que tenho. Afinal, espero chuva, de palavras.
Dava jeito.
Abraços também…

20 maio 2004

o meu dia

O dia entrou violento,
mal educado.
Entrou furacão,
feito paixão,
em atropelo,
incontido,
mutação.
Feriu-me em luz ,l
acerou me o sentir,
o entendimento,
a razão,sem mentir.
Olhei-o!
Fitei-o,
mas continuou galope crina em vaga-turbilhão.
Todo ele era nuvem ao vento,
onda,
explosão.
Parei,
invisualizei-me,
ausência do sentir,
mas ele gritou,
abanou,
empurrou,
parecia multidão.
Pára!
Quase gritei!
Implorei, quase oração.
Quis fugir-lhe,
mas disse, Não!
Respirei-te o ar,
Olhei-te fundo,
quase mar,
peguei-te mão e disse-te,
devagar,
dá-te tempo,
aprende a dançar,
não te finjas tempestade,
amanhã és outro,
inteiro,
gente,
cidade.
Por mais que corras,
por mais que grites,s
ó te tens Tempo.
Não te faças morto.
Já pensaste?Olhar para ti
e ter-te,
grande,
inesquecível?
Já imaginaste,
sentir-te?
Seres história contada a netos que vão ser Avós?
Basta seres sensível,
único,
inconfundivelmente ÚNICO,
mágico,
mistério,
voz!
DESCOBERTA!
Deixa me descobrir-te ,
sentir-te,
pintar-te,
para seres o Meu dia,
a minha fantasia,
suave,
terno,
quente
meta,
sem me sentir ausente,
e ser ave,
sol-poente...

Recados de um dia que não se deixou atropelar, por quem o não via...

"Tu é que te iludiste que eu tinha mais tempo para te dar, tu é que me atropelaste e me cegaste em cor. Se há coisa que não posso fazer é inventar-me para ti. Sou sempre o mesmo, tu é que me passeias a fugir-te.
Pára tu, para me veres.
Eu não corro, não o sei, estou preso em mim, cada segundo morro, cada segundo vivo, estou preso, em grades do olhar e da fantasia de cada um que me toma como seu.
Só me liberto porque cada um me usa, me consome de maneiras várias.
Sou sombra e luz em cada um que me corre. Sou aquilo que não tens, não sou Ser, mas vivo, vivo-te enquanto tu me corres em olhares multicolores.
Por tudo isso, aprende-me, que eu sou flor que só dura um dia. Vive-me, porque amanhã é outro dia."


E ele , sem pedir licença ( eu bem disse que ele era mal educado) tornou-se ÚNICO, e não coube em mim. Fiquei cheio de silêncios e sentimentos vários, a sorrirem-me criança, todos só para mim…

18 maio 2004

sem artefactos

Não se diz:
Vou peregrinar…
Peregrina-se!

In “apontamentos para um manual da serenidade, assim sem mais nada, sem artefactos, porque o assunto é sério”

as rosas de uma flor

Não gosto de pintar flores, porque lhes não sei cor. Quando as desenho ou pinto, escondo-as em reflexos, em sombras, não vão elas zangar-se por lhes ter roubado as cores. Pintar uma flor é como que levantá-la do chão, morrem lágrima. Incolor, mesmo sendo lágrima de uma flor…
As flores que pinto, não existem, são só imaginação.

17 maio 2004

(des)encontro

Pediram-lhe um sorriso, não o conseguiu. Guardou-o para a sua hora, naquele dia, em forma de história.
Conta, encontros e desencontros de coisas simples, de um pastor e de um menino. Um guardava rebanho, o outro, sonhos enquanto corria. Cruzavam-se dia após dia, a horas várias, mas sempre no mesmo caminho, junto a águas que os acompanhava em melodias, que cada um ouvia conforme sentia.
Quando se transformavam em encontro, Pastor, rebanho e menino, este, educado, abrandava o passo que corria e perguntava, “Posso? Bom dia! “
Não esperava resposta, que sempre havia, quase eco pois só ouvia “dia”. O facto é que ou por o sentir ovelha, ou por outra coisa ainda, o rebanho não fugia, só se afastava para deixar passar quem ia.
Foi assim, dia seguido de dia, o Pastor sempre o mesmo, o rebanho esse, não sabia, porque nessas coisas de ovelhas era ignorante o menino.
Houve porém vez em que se deu o desencontro, ou o menino, o já não era, ou o peso dos seus passos eram outros, ou simplesmente o Pastor não ouvia o Rio, o certo, é que ainda hoje não se sabe o porquê do que se passou. A verdade é que quando depois do “Bom dia”, se cruzaram, pastor, menino (que quase entendemos o já não era) e ovelhas, estas por aí foram a correr, a balir e a sinar ( palavra estranha, inventada por certo, o narrador desgostou de juntar balir a badalar, mas que se ouve sino pequenino e assustado), em passo apressado de fugida. O Pastor em voz fúria disse, “Este caminho é de cabra, não é para correr! Neste caminho ando eu”. ( não, não era eco não senhor, era voz trovão de pastor). O menino (já que começamos a chamar-lhe assim, não custa nada manter a ilusão, que por dentro ainda o há, e que por fora ainda se sente, o que de resto nem é importante para a história), continuou, sem medo, porque o não tinha, mas preocupado, porque afinal, aquele seu caminho, era de outro, era do pastor, que o Vivia.
No outro dia, pois lá estava, que era respeitoso o menino, mas não medroso, lá foi correr junto ao seu rio, quando avistou de longe o Pastor e o rebanho que o seguia, desviou-se para verdes mais em baixo, e quando lhe viu olhos, acenou-lhe e disse “Bom dia”.
O pastor levantou cajado em aceno vistoso e alegre e sem ser em eco difuso largou um sorriso corrido de um “ Bem-haja, menino, tenha um Bom Dia”.
Sentiu-se bem o menino, por lhe ver nos olhos tanta alegria, no Pastor que afinal, só naquele dia o vira.
Conclusão, não há, a não ser que ao lê-la, tenha sorrido. O narrador, esse, teve-o sempre consigo, enquanto escrevia, pois foi isso que se lhe pedia. Um sorriso.
Mas o menino, esse cresceu naquele dia, pois aprendeu que por vezes, é necessário afastar-se para não haver desencontro e que nem sempre o estar perto, mesmo dando bom dia, provoca encontro, ou alegria...

em lado nenhum...

Há dias estranhos em que nos deixamos morrer no vazio das palavras. Não encontramos sentido, nem cores, nem sentir. Estamos ausentes, em lado nenhum, nem dentro nem fora. Será cansaço da Vida? Cegueira? Loucura? Ou simplesmente morremos aos soluços, como marioneta que anda aos saltinhos?

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...