31 maio 2004

sou árvore

Pregado no chão,
na terra,
no caminho,
com raízes,
nem chorando nem sorrindo,
sonhando,
escrevo palavras,
livres.
Sou árvore que sonha,
que voa,
que abana,
que é folha,
fruto,
cor,
sombra.
Pregado no chão,
criando,
sentindo,
olhando.
Fragmentos de vida,
sem fuga,
sonhando,
palavras que voam,
que fogem,
sozinhas,
das raízes,
com o vento,
voando,
sentido...S
ou árvore que chora,
sozinha,
que liberta,
que cria,
que pinta, s
ombras suaves,
coloridas.
Pregado no chão,
voo,
escrevo,
sinto,
vou em voo de mim,
por aí,
para ninguém,
nem para mim…

30 maio 2004

à procura do(s) sentido(s)

Papá, Papá, ajuda-me a escolher as palavras para descrever o que sinto?
O que sentes?
Não sei papá, estou Maravilhado!
Que palavras tens? Porque não escolhes uma?
Não sei o significado delas, não sei se cabem no meu sentir. Ajuda-me! Ajuda-me, sim?
Queres começar por onde?
Intensidade!
O que diz o sentir da palavra intensidade Papá?
Diz, profundo, quase limite, mas ainda suportável, sensação forte, qualquer que seja a cor do sentir, e essas tu sabes não sabes?
Não essa não serve, não cabe no meu sentir…,e Suave, Papá suave, o que te diz, a palavra suave?
Bem… diz, ao de leve, ternura, beijo, perfume, brisa, azul-céu-de-manhã-de-primavera, carinho, melodia, violinos de Chopin…
Chega, Papá, já entendi! Não serve, também não serve…Amor, Papá, amor, sabes essa?
Bem, filho, está cada vez mais complicado, amor….vejamos, amor... intenso... suave…
É essa Papá! É essa! Essa cabe no meu sentir, cabe toda Papá. Não é maravilhoso?

29 maio 2004

quando o mar (en)canta

Vem…
Anda…
Não sei se é musica. É chamamento, que percorre o corpo, e se prende nos passos.
Só eu vou, o resto fica. Não sei o que fica, e se o que fica sente. É flauta mágica que encanta e me chama. Só a forma se esquece, quase estátua, sem vida.
Anda…
Vem…
Oiço mar, da praia para onde ia, e vou, não sei se na gaivota, se na onda, se no vento ou na brisa, apenas vou…

27 maio 2004

quando as palavras nos falam baixinho

Não estudo as palavras, gosto de as inventar, de lhes trocar o sentido, (o que não é tarefa de todo própria para quem mergulha em números e tarefas outras, dia a dia, todo o dia.)
Hoje (re)inventei uma palavra, ou melhor, foi ela, a própria, que me segredou, ao emprestar-me o seu sentir, a sua origem, a sua essência, que acalmar, queria dizer:
estar com a alma, estar dentro da alma… (para quem não sabe, que fique desde já a saber, as palavras falam e sentem sozinhas, vivem por elas, só nos emprestam o sentir)
Só me disse isso, a matreira, porque não deu resposta, só sorriso, quando lhe perguntei:
na nossa, ou de outra alma?
Talvez outro dia, mais calmo, ela me diga afinal, qual é a alma que acalma…

poema desenhado


Há poemas que não se escrevem, desenham-se, depois, com sensibilidade, ou ilusão descrevem-se com emoção. Este que vejo, que fixo, que me transforma, é quase paixão. É linha única, de homem, talvez rapaz, que brinca, que joga. A linha é precisa que o desenhador não é qualquer, (por isso quem vê, imagina que o que se joga, não é só brincadeira, é coisas outras, mais profundas, só dele, que sentiu). Dentro da forma, a dar-lhe cor e sorriso, no mesmo corpo, nas mesmas linhas, está mulher, talvez menina. O poema, não está na linha, está na sombra, suave e colorida do abraço da mulher.

Tentativa de descrição do poema desenhado de Mestra Almada - La raqueta Japonesa

26 maio 2004

árvore-laranja

Olhei arvore-laranja, fresca de sombra, pintada de sua cor. Convidou-me, simpática, a levar cores que lhe pesavam. Não gostava ela, sabia-o eu, de ver suas cores pingadas no chão, que este se quer verde , castanho, ou de outra qualquer. Laranja é que não! “Colhe-me, insistiu!”
Fui buscar escada, em passos solenes, que árvore avó merecia respeito, não só pela sombra, não só pelas cores, por ela, que me dava a sorrir sangue dela, em doces coloridos. Uma a uma, guardei as cores que me oferecia, todas diferentes, todas dela, com cuidados muitos, como ela merecia.
“Não sejas tonto, não me colhas assim, que não me vês toda. Dessa escada, mesmo alta, só me tiras cor pouca, e só por fora fico outra, em tons verde-sem-laranja. Sobe-me os ramos, olha-me de dentro, que eu envolvo-te de fresco e de cores, que daqui vês muitas. Só daqui, por mim, de mim, me vês frutos todos, os de dentro, os de fora, e os que chorei para o chão."

25 maio 2004

uma flor chamada Maria...

(titulo emprestado por Mestre Alves Redol, que um dia soube escrever história simples de uma flor, mas essa era história de crianças. Esta é muito mais séria. Tem cor.)

Passou por uma flor. Não sebe se a viu se a sentiu. Estava ali. Deixou-o passar. Mas estava ali, sabia-a ali, era o seu lugar. Não lhe sabia cor. Não a viu (sei-o agora, que escrevi,).
Depois, só depois, roubou-lhe o olhar, a sua cor. Seguiu-o e quis levá-la, levantando-a do chão. Olhou-o triste só com a cor. Queria tanto as cores daquela flor. Só lhe tinha jarra para lhe dar, mas aí só lhe sentia dor. Hesitou passos. Perdeu-se no andar. Ah, se ao menos a flor lhe emprestasse pelo menos o odor…
Mas o que ele queria era mesmo a cor. Era linda aquela cor, da sua flor. Por mais que andasse (não nos vamos a atrever e dizer, por mais que ele fugisse, não vá a flor saber e sentir-se triste), ia sempre ao lugar, onde longe da jarra, ali estava, amor-perfeito (nome que damos àquela flor). Sentou-se, fez-se laço e ali ficou até se transformar em flor (contam os antigos, que àquele sitio, por causa da cor, lhe deram nome de Vale Flor…)

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...