18 junho 2004

quando um sonho cabe inteiro na tua mão.

Agarrei sonho que se aconchegou na minha mão.
Guardou-se nos meus poros e transformou-me o EU.
Anda agora a esvoaçar e a libertar as cores em que se pintou em mim.
Ainda não é quadro.
Ainda o sinto concha na minha mão.
Não arde, não é vulcão, é quase beijo, é quase rosa.
Só ainda não é quadro...
Só lhe oiço o sorriso…

17 junho 2004

antevisão

Obcecado! Estava, duvida, não havia!
Envolvera-se em angústias e em insónias, à procura das cores que lhe cabiam na sua história. Inventara-se, entregara-se, todo, aos sentidos, atento, caçador, à escuta das cores, e nada.
Cada desenho, cada quadro, cada esboço, era sistematicamente amarrotado em ritmos febris e alucinantes. Minuto a minuto, hora a hora, dia a dia, vida toda e nada, não havia meio de se rever no quadro, nas cores que lhe corriam no sentir. Fora Homem, menino, mulher, lágrima dela, papoila, até personagem. Saltimbanco, palhaço, marinheiro sem saber içar vela, e nada, não havia cores que lhe bastassem.
Os ritmos sucediam-se loucos, com as angustias a voarem em papeis de cores várias, amachucadas, humilhadas, caíam lágrima no chão, uma após outra, quase arvore-de-outono.
Já sem tintas, já sem papel, enrugava-os, desprezava-os, em pedaços de vida que abandonava, em insónias, no chão.
Cansado, levantou-se raiva e de tesoura na mão impeliu-se para cortar os seus pincéis. Parou brusco, lívido. De nada valia, eram os seus pincéis , eram pincéis-flor, renasciam!
Por fim ( há sempre um, mesmo que não seja final, mas isso já foi história, outra. Não liguem ao narrador, fala sózinho, mas façam de conta que ouvem, ele gosta.), desistiu. Arrumou os pincéis, a paleta, os óleos, e os sujos coloridos que lhe pintavam vestes e panos, e virou-se para o caminho.
Ficou parado!
Paralisado! Extasiado, com o que lhe transbordava dos olhos. Tudo o que via, pedaço-a-pedaço, papel-a-papel, esboço atrás de esboço, era simplesmente…LINDO.
Sorriu!
Estava rodeado de UNIVERSO!

corpo(s)

desenho linha de corpo,
em traços finos,
leves,
rubro-acácia,
em chama,
não lhe toco,
dorme,
voa,
em corpo outro que o acalma...

16 junho 2004

questões de caminhos

O sonho é a antecipação do nosso caminho.
O caminho é sempre o resultado do nosso sonho, reflecte é a nossa vontade de o alcançar.
Nada é impossível, basta acreditar...

15 junho 2004

palavras direccionadas , brancas…

Quando os braços caem e as lágrimas nos sobem na alma, resta-nos o silêncio e sentirmos a dança do sonho, que irreverente, nos empurra para a VIDA.

14 junho 2004

inseguro?

Quando te sentires inseguro, coloca-te em frente de um espelho (não tem que ser necessariamente um espelho tradicional, é no entanto aconselhável existir alguma interacção, alguma devolução da imagem. Há quem consiga o exercício mesmo sem reflexo nenhum, mas esses, em boa verdade, não precisam de o praticar, porque não A sentem (para quem já se perdeu, falamos da insegurança do Eu…)), fixa-te e desenha os contornos, não da imagem que se reflecte mas a que VÊS (donde se conclui que o reflexo deve apenas servir para orientar o ver). Demora o tempo necessário (só tu tens pressa, por isso domina o impulso da precipitação) para sentires as linhas que te envolvem o EU.
Já está?
Sim?
Agora, ACREDITA-TE!
Já está?
O impulso deu-te um sim?
Então estás pronto para te pintares das cores que a imagem reflectida TE descobre... (tens a vida toda, vai pintando…)
Hesitaste? Então não tens outro remédio senão falar-te!

In "Apontamentos para um manual da inquietação, ou como dar sugestões a quem pretende começar a pintar…" ( onde a inquietude se esconde no contorno que se desenha)

13 junho 2004

véus

Há dois anos iniciei leitura de um livro (O sentimento de si de António Damásio), interessado nestas coisas do sentir. Percebi que se tratava de obra de alquimista (desculpem esta minha mania de dar sentidos outros a palavras antigas de uso. Neste contexto falo de químico da alma, uma vez que até à página lida, se pretendia demonstrar o quanto o sentir era fruto de reacções bioquímicas, e coisas outras, naturais, claro, pois falamos de cientista). Parei páginas, poucas, ainda o livro ia no início, há livros assim, que sendo profundos, nos obrigam a paragem até conseguirmos digerir a mensagem, tão importante se torna, no nosso viver e no nosso questionar, e que se não for convenientemente descodificada, arriscamos a alterar todo o nosso conceito de vida (aconteceu-me este fenómeno, de interromper leitura duas vezes, a presente, e em livro de Kafka, de nome Metamorfose, esse continua fechado, fiquei no titulo…). Este, repito de alquimia, de cientista conceituado nestas coisas da mente, parou-se nos olhos e no sentir, nestas palavras, “Por vezes, usamos a mente, não para descobrir os factos, mas sim para os esconder. Usamos uma parte da mente como um véu para evitar que uma segunda parte da mente se aperceba do que se passa na primeira. Este véu não é forçosamente intencional – nem sempre escondemos de propósito – mas intencional ou não o véu acaba sempre por esconder. Uma das coisas que o véu esconde mais eficazmente é o corpo, o nosso corpo propriamente dito, tudo o que lá se encontra dentro, as entranhas. Tal como um véu que cobre o corpo para manter o pudor, mas não o encobre completamente, o véu que falo esconde da mente os estados interiores do corpo, aquele que constituem o fluxo da vida enquanto esta vagueia na jornada do dia a dia.” Isto abana, porra! (termo raramente usado por quem escreve palavras do sentir, normalmente mais suaves mas que se justifica face ao abanão provocado), (acreditemos então). Ficou a germinar dois anos o entendimento das palavras, e hoje, percebi que para além daquele, há outro véu, o que esconde da mente não o sentir (partindo do pressuposto que o sentir é uma reacção, boa ou má, um reagir ao que vem de fora para dentro, e se encontra intimamente ligado aos sentidos e como consequência ao corpo, e pelos vistos químico), mas o sentimento, seja ele químico ou não, que vem de dentro para fora, e não precisa de sentidos, é o véu da Alma. Falta determinar de onde emana este véu que encobre eficazmente, o viver, da plenitude do ser, e intencional ou não, também este véu acaba sempre por esconder os fluxos do existir. Percebendo isto, voltei a abrir o livro, e recomecei leitura, vamos ver por quantas mais páginas, para já promete ser desafio ao tempo, e aos véus que nos cobrem sem pudor a vida que se nos cola ao ver.

(nem todos os dias estou tão confuso no escrever, há dias assim, valha nos a paciência…)

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...