19 junho 2004

barragem que abraça

Trigueira,
quente,
de seda,
pousa,
borboleta,
em corpo outro,
com sede,
que a segue,
e sente.
Voam,
navegam,
de porto em porto
de rio em rio
que abraçam,
e prendem,
em barragem,
que se estende,
na brisa,
na margem.
Corpo dançarino,
flor dada,
amada,
sem ciúme,
em palavras,
em canto,
em hino,
que se ouve,
do nada,
em encanto
ao longe,
no perfume,
da aragem…

18 junho 2004

quando um sonho cabe inteiro na tua mão.

Agarrei sonho que se aconchegou na minha mão.
Guardou-se nos meus poros e transformou-me o EU.
Anda agora a esvoaçar e a libertar as cores em que se pintou em mim.
Ainda não é quadro.
Ainda o sinto concha na minha mão.
Não arde, não é vulcão, é quase beijo, é quase rosa.
Só ainda não é quadro...
Só lhe oiço o sorriso…

17 junho 2004

antevisão

Obcecado! Estava, duvida, não havia!
Envolvera-se em angústias e em insónias, à procura das cores que lhe cabiam na sua história. Inventara-se, entregara-se, todo, aos sentidos, atento, caçador, à escuta das cores, e nada.
Cada desenho, cada quadro, cada esboço, era sistematicamente amarrotado em ritmos febris e alucinantes. Minuto a minuto, hora a hora, dia a dia, vida toda e nada, não havia meio de se rever no quadro, nas cores que lhe corriam no sentir. Fora Homem, menino, mulher, lágrima dela, papoila, até personagem. Saltimbanco, palhaço, marinheiro sem saber içar vela, e nada, não havia cores que lhe bastassem.
Os ritmos sucediam-se loucos, com as angustias a voarem em papeis de cores várias, amachucadas, humilhadas, caíam lágrima no chão, uma após outra, quase arvore-de-outono.
Já sem tintas, já sem papel, enrugava-os, desprezava-os, em pedaços de vida que abandonava, em insónias, no chão.
Cansado, levantou-se raiva e de tesoura na mão impeliu-se para cortar os seus pincéis. Parou brusco, lívido. De nada valia, eram os seus pincéis , eram pincéis-flor, renasciam!
Por fim ( há sempre um, mesmo que não seja final, mas isso já foi história, outra. Não liguem ao narrador, fala sózinho, mas façam de conta que ouvem, ele gosta.), desistiu. Arrumou os pincéis, a paleta, os óleos, e os sujos coloridos que lhe pintavam vestes e panos, e virou-se para o caminho.
Ficou parado!
Paralisado! Extasiado, com o que lhe transbordava dos olhos. Tudo o que via, pedaço-a-pedaço, papel-a-papel, esboço atrás de esboço, era simplesmente…LINDO.
Sorriu!
Estava rodeado de UNIVERSO!

corpo(s)

desenho linha de corpo,
em traços finos,
leves,
rubro-acácia,
em chama,
não lhe toco,
dorme,
voa,
em corpo outro que o acalma...

16 junho 2004

questões de caminhos

O sonho é a antecipação do nosso caminho.
O caminho é sempre o resultado do nosso sonho, reflecte é a nossa vontade de o alcançar.
Nada é impossível, basta acreditar...

15 junho 2004

palavras direccionadas , brancas…

Quando os braços caem e as lágrimas nos sobem na alma, resta-nos o silêncio e sentirmos a dança do sonho, que irreverente, nos empurra para a VIDA.

14 junho 2004

inseguro?

Quando te sentires inseguro, coloca-te em frente de um espelho (não tem que ser necessariamente um espelho tradicional, é no entanto aconselhável existir alguma interacção, alguma devolução da imagem. Há quem consiga o exercício mesmo sem reflexo nenhum, mas esses, em boa verdade, não precisam de o praticar, porque não A sentem (para quem já se perdeu, falamos da insegurança do Eu…)), fixa-te e desenha os contornos, não da imagem que se reflecte mas a que VÊS (donde se conclui que o reflexo deve apenas servir para orientar o ver). Demora o tempo necessário (só tu tens pressa, por isso domina o impulso da precipitação) para sentires as linhas que te envolvem o EU.
Já está?
Sim?
Agora, ACREDITA-TE!
Já está?
O impulso deu-te um sim?
Então estás pronto para te pintares das cores que a imagem reflectida TE descobre... (tens a vida toda, vai pintando…)
Hesitaste? Então não tens outro remédio senão falar-te!

In "Apontamentos para um manual da inquietação, ou como dar sugestões a quem pretende começar a pintar…" ( onde a inquietude se esconde no contorno que se desenha)

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...