26 junho 2004

no que me escrevo

Ando à volta de histórias do sentir, envolvido em emoções que se escondem na fantasia do Viver, como quem pinta um quadro sem o pensar e antevê cores na tinta que escorre em formas que se vivem sozinhas e encantam o olhar.
“são destinos”, penso. Destinos que se intersectam e que do ponto, do olhar, nasce “coisa-cor”, marcada, gravada no existir, sentida no Ver. A gota de cor, escorre, desce seiva, não chora, vive-se em reflexos. Não precisa de desenho, tal como a história, que se lhe pinta, não precisa de palavras.
“repito-me no que me conto e no que me escrevo”, penso, "no entanto tudo é novo, não há destinos que se repetem".
“como um poema”, penso, “só não sei as palavras que se me escrevem no Eu, porque afinal não são minhas, não são só minhas”, sublinho, “já não sou eu a história”, finalizo.“não sabes o que dizes”, digo-me sem pensar e respondo-me, ”só sei o que sinto, e o que me nasce no viver, tem cor mas não tem história a contar"...

ao acordar

Não havia história, conto de fadas, saltimbancos ou brincadeira de palhaços que o sossegasse. Acordou com um Querer, não sabia qual, é certo, ainda estava desfocado no VER. Era intuição, impulso, vontade. Sabia que ia existir instante, por isso não estava para fantasias, estava cansado delas. Queria sentir, queria ter, queria ver-de-olhos, sem imaginação.
“Há dias assim”, pensou, “que nos queremos reais como no sonho que nos levou até aquele acordar…”
Levantou-se e foi…

25 junho 2004

o livro

Desfolho um livro, sem olhar letras, sem ver história. Passo-lhe a mão em carícia, em amores incontidos. Não são as palavras que me movem os sentidos e os gestos, mas o que lhes imagino em cada olhar. Palavras, vivas que se transformam em desenho e este nasce em corpo que procura abraço, que procura carinhos outros. Eu, de olhar longe, repito afectos que se bailam em poemas, em folhas de livro que me sorri. É livro que começa, é livro que ama, não ensina, porque leva o olhar para memórias, para momentos sem tempo, presos no peito. Só o amor se liberta preso (no olhar, no sentir, na cor, na pele, no beijo).
Passo as folhas como quem toca uma flor. Não lhe leio história, porque é outra a que as palavras me trazem. O livro é só ponte, a palavra é só musica que murmura aragens distantes em ecos que se repetem em amores e afectos. O livro não tem titulo, não tem capa, nem desenho, nem autor, é livro que se vive, só com amor.

ensina-me

Papá, papá, ensina-me poema! Se soubesse poema, dava-lhe um nome, um perfume, uma cor, mas só sei sentir…
Papá, papá, ensina-me a imaginar! Se soubesse contar, pintava de um só traço a história que não me cabe no olhar, mas só sei sentir…
Papá, papá ensina-me a pintar! Se soubesse pintar, vivia o que só sei sentir…
Se me ensinasses, papá, estava sempre a sorrir.

24 junho 2004

semente dos tempos

Tempo, sem tempo,
de beijos,
ausentes.
Tempo dos tempos,
dementes,
presentes.
Tempos, (des)temperados,
mortos,
doentes,
tempo sem tempo
(in)temporal,
beijo-cor,
coral,
semente

23 junho 2004

ondas que se fingem

O mar agita,
negro,
o olhar que o procura.
Ventos,
sós,
que se gritam,
sem voz.
Em noite escura,
o vento sopra,
empurra-te,
levanta-te ,
espuma,
em ondas que se fingem copa,
de árvores,
de amargura.
A luz,
cega,
em cor,
em bruma,
em dor.
É alma que chora,
lágrima quente,
em forma de cruz.
O vento ora,
foge,
leva-me,
sem onde,
sem hora...

cor sépia

Encontrei árvore que me disse, vem...
Fui, sem procurar sombra, era de cor sépia, a árvore que me chamava...

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...