30 junho 2004

mergulho em miragem, sem cores frias, de aço

Corro-me no espaço que esvoaça em desafio, moldo escultura que faço e desfaço sem tempo,
no espaço.
Neste rumo-viagem, sem ventos, sem velas, sem barco, entrelaço o Ver nas cores frias de aço,
que trespassa,
em angustias dos passos que me correm, que me voam, em luzes que se desfazem na sombra que me evolve em abraço.
Grito-me longe dessas cores que se fingem, que se tingem e voo sereno, mergulhado na miragem que se pinta rubra, viva e que me sente os passos, que correm livres no espaço...

29 junho 2004

sonho, quase erótico

Sinto o teu corpo,
castanho-veludo,
que me afaga,
em sopro,
e se funde,
mudo.
Toca-me e voa,
une-se e vive,
em harmonia nua,
no sonho que tive.
Corpos que se amam.
Silêncios,
gemidos,
lençóis que se enlaçam,
em beijos suaves, tímidos...

28 junho 2004

aguarelas...as minhas

Desenho-te, não corpo, mas saudade, em traços de aguarela, sem formas. Manchas de lágrimas coloridas, esbatidas em azuis-calmos-de-mar-gaivota…
Pergunto-te, em que cores te escondes, em que traços te sorris, para os pintar e (re)colorir, em pinceladas doces, continuas, unas, sem fim, e afogar esta dor que permanece cega, em mim…

morto-vivo

Bateu a porta em som surdo levada pelo vento, em contínuo, voz irada, solta fúria e ira em gritos fundos, que não entram pelos ouvidos mas pelo sentir. Apanham-me frágil. Cai-me lágrima no chão. Uma lágrima. Não tenho mais, engolias em silêncios. Sinto que ultima. Transformo-me, modifico-me com o sofrer e com a dor. Não sinto forças para levantar os olhos, dói-me o corpo que sonhava, dói-me o menino que brincava, que fugia. Parei. Faltam-me a forças para a corrida, para os caminhos. Percebi o que é o sentir da solidão. Toda ela numa lágrima, só. Não são precisas mais lágrimas. Esta basta para me modificar, para me moldar ao que sempre fugi. Tanto me reflecti o Eu, que me fugia. Resto-me Eu, desnudado perante a frustração de uma vida em que medroso me refugiei no sonho, nas fantasias do existir. A vida fere, não sorri. É ilusão o sorriso, encobre-se, esconde-se da dor.
Pergunto-me em desassossego, o que faço aqui? Porque me trouxeste? Porque me criaste um caminho para sulcar, para andar, se não tem sentido, se não tem rumo, nem objectivo? Porque crio tanto rancor, naqueles a quem me dou, a que me entrego de alma? Porque me ferem tanto aqueles que amo? Porque me fazem lágrima, aqueles que me dou por inteiro? Porque não me olham eles? Porque não me vêem? Porque me lapidam, quando de joelhos só lhe peço sorriso? Estou cansado, preciso de um abraço, só para mim. Não me peçam nada, não me exijam mais nada, estou vazio, estou morto, consumido, estilhaçado, morto-vivo-que-transporta-lágrimas.
Dói-me a cabeça, que rebenta em mim. Perdi as cores que me traçavam o caminho, já não vejo o horizonte da alma, que me sussurrava o murmúrio das ondas . Olho o vazio que se encobre em voo de ave, negra, que se eleva ao sol e o encobre em sombras. Voa sem mim, tapa-me a luz, porque a olho de baixo , preso no chão, é ela que olha o sol, fugiu de mim…

27 junho 2004

procura

Nas árvores verdes,
de um bosque,
busco,
em buscade ti.
Procuro,
no,
fusco-fusco,
esperança,
de um sorriso,
de mim…

lágrimas

Choro,
não da morte,
da vida,
que me coube em sorte.
Oro,
rezo,
lágrima perdida,
caída,
escondida,
em página,
soprada,
virada,
sozinha.
Choro lágrima,
engolida
vazia,
da vida,
que me espezinha,
que me foge,
que me voa,
e
me
magoa.
Lá vai ela,
navega,
sem vento,
caí no chão,
ao relento.
Lágrima,
só,
ao vento,
eremita,
sem pão,
chora,
faminta,
de amor,
perdida,
da cor,
na dor,
de ser lágrima,sozinha...

sentidos

Quando se perde o sentido das palavras, resta-nos o silêncio e os ecos que mantêm acordados os seus significados, mesmo que sem vida, sem força, sem cores, porque não sentidos. Não escrevo por escrever, autómato de letras e de lugares, simplesmente procuro-os de mim parar mim, sem dramatismos, sem inquietudes, apenas desassossegos e ansiedades, como qualquer aventureiro-caminhante que desconhece o caminho que pisa, como qualquer explorador que sabe em fé que o seu suor se vai transformar em esmeralda, rara, porque só sua. É esse caminho que faço, que reinicio. Ciclo de vida, ciclo de sentir, caminhos…

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...