07 julho 2004

dizem-te...

Dizem-te que as palavras não prendem, mas que envolvem, em cor e se misturam no sentir…
Dizem-te que uma palavra é um beijo, um afecto que traça o destino…
Dizem-te, que uma palavra é um gesto que transforma a ilusão num olhar…
Dizem-te que mesmo sem palavras há sentir, e que este cresce gigante em forma de presença, em sons de saudade…
Dizem-te que uma só palavra transforma o escuro em cor…
Dizem-te que a cor cintila Livre-em-luz, nas palavras que não se escrevem, porque se pintam em reflexos do ver, e se formam UNIVERSO…

06 julho 2004

desenhar o destino

O destino é o cruzamento de todos os olhares. É um caos imprevisto que faz pulsar o Universo e que concentra todos os sentidos num só, e um só em todos os outros.
Se desenhasse o destino, pintava uma árvore …

05 julho 2004

hélice-guilhotina

Apareceu-me esculpida no olhar, quase fotografia, uma hélice gigante em madeira-carvalho-floresta que me navegava a vida.
Qual o sinal? Qual a mensagem, se navego à vela, com os ventos, orientando-me nos caprichos das tempestades e dos estios?
Vejo muro que me atropela, que me dirige, que me condiciona e comanda, sem sentir, em ruído humano de máquina que rodopia cortante e insensível em forma de guilhotina.
Sou empurrado para a multidão que me afoga e grito em apelo da vela-vento, do vento que enfola as velas do meu barco-alma, na esperança de poder continuar a descoberta de mim, com todas as cores que me pintam o EU.

04 julho 2004

pincel-alma

Agarrei pincel-paleta, sujo-brilho, de cores selvagens, misturados de invenção e cheiros dementes de coisas novas. Pincel-alma de desenho vivo, sem medo, aventureiro, criativo. Fotografia do ver e do sentir. Cores que contam histórias de fantasias, sem começo nem fim. É pincel quadro, surrealista. Janela aberta que adivinha lugares, gentes que se passeiam em cidades outras, que só existem no olhar, em danças-musica de assobios ao vento, num pontão infindo que penetra o Mar. Misturo-me nas cores e transformo-me em traço, em quadro de figura-mãe que abraça de lenço-véu, filho que lhe sorri afectos e vontades. A cor é só OLHAR, o desenho que me desliza no ver, tem cabelos onda em forma de cascata-alada-de-negros-sol.
Ao fundo, sussurram mares em vela-nau, que lembram destino-aventura, de Homens-história. Olho fixo. É apenas esboço, porque o quadro vive-se em cada reflexo que o imagina e o inventa. Esconde-se envergonhado em nevoeiros-cor que tímidos se recusam a ser apenas história de um pintor que só sabe imaginar cores em palavras tristes.

O que pode ser mais surrealista, que cor que se pinta sozinha, num esboço de mar-vivo?

03 julho 2004

pingo de tinta

Ping!
Caiu em escorrega lento, gota azul-água em papel de arroz. Sem vida, mas em movimento de sons de violinos-trompete, que ecoavam poesias no ar, a aguardar gesto cuidado de pincel-chines.
Ping!
Soava, em bicos de pés de bailarina-cisne, era gota-azul-turquesa, cheia de corpo e de luzes opacas, que choravam desenho,nuvem, ao longe, com verdes desmaiados em águas outras, voados com gaivotas, que cheiravam a sal.
Ping!
Gota de azul-sujo-de-castanhos-humidos, quase lágrima de mendigo. Era gota aguarela, gota olhos-de-pintor, que olhava o mar e cuidados singelos, não fosse a cor assustar-se do pincel e esfumar-se sem vida.
De ping, em ping,
em azuis-de-menina-com-saudades-do-seu-mar-verde-onda, nasceu quadro musica, que ficou nos olhos do pintor, dele, e de todos, que antes de verem cor, ouviam o ping, ping, do azul-água que contava baixinho, histórias de amor...

02 julho 2004

sophia

A morte tem destas coisas do sentir, que se transforma num enorme vazio, que se confunde em dor, em lágrima, mas cuja presença é uma nítida e persistente ausência.Aprendi poema a ler-te histórias, daquelas que uma mãe conta a um filho, mais tarde, sentires, depois ainda, serenidade, nas ondas e no mar em que te envolvias em poesia.
Apareceste-me de nome Sophia, livro, brancos-palavra, poemas-de-praia-mar-em-luzes-de-lua-coral-que-choram-sozinhas…

(a Sophia de Mello Breyner Andresen )

01 julho 2004

rio-óvulo

Percorro, tacteando com o olhar, Rio que se forma, corpo. Nascente de vida que converge em destino e emerge do tempo em cores cristalinas, frescas, novas, que transbordam existir.
Percorro Rio que me penteia afectos com dedos de mão “ovulada” de vida, com perfumes e cores de flor-menina.

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...