10 julho 2004

cumplicidades em aromas do sentir

Converso-me contigo, que me olhas, que me esperas, em sossego, sem exigências, sem angústias. Olhas-me calmo, pousado na mesa, quase esquecido, arrefecido de fumos pardos em movimentos que se pensam, que se escrevem, se desenham. Companheiro, quase amigo, de confissões, de histórias e de lágrimas. Pego-te, após ano de indiferença, e acendo-te, em ritual de paixão, de aroma, de cumplicidade. Esfumas-te, e sinto-me em companhia de mim, mão-cachimbo que se inventa em história-poemas. Esqueço-me, ausento-me em músicas em tons de jaz, e sinto-me nuvem, em brasa lenta que me pensa…

08 julho 2004

ás voltas com um dia não, que voou até à minha mão

Contaram-me a história de um dia não, ou melhor fizeram-me pensar, como se preenche um dia não.
Fiquei parado, a imaginar, a imaginar-me, a percorrer os espaços de um caminho que se dirige para um dia assim, feio, careta-amargo.
Assim como?
Um dia cheio de vazios de sentir!
Um dia que anda ao contrário!
Onde as estrelas são negro e o negro luz!
Um dia que não cabe no olhar, um dia que não se sorri, que se despinta, que se desnuda, frio de Ver!
Um dia, não, é um livro que deixa escorregar todas as suas letras por entre as páginas que se viram, ao vento e se amontoam, em pirâmide de sal, salgado, mas negro…
Que fazer a todas aquelas letras que já foram história, já foram sentir, já foram palavras de poema, já foram sentires de amor e agora são letras que só por acasos caóticos formam a palavra não, ou palavra qualquer?
Fecho os olhos e pinto, um não, sem cor, traçado-escrito, no vazio, só para sentir que ele está ali, preso na palavra, preso na escrita e ...
sorrio,e gargalho-me e corro contente, alegre-palhaço, alegre-menino, a avisar toda a gente, a anunciar o feito, o acontecer...
Escrevi-o!
Prendi-o!
Fechei-o, guardado no papel!
Queimei-o!
Volatilizei-o!
Hoje já não há mais dia não!
Agora conta, menina, conta a tua história, para amanhã vermos todas as cores da tua estrela…

07 julho 2004

sonho de menino-indio-que-olha-o-horizonte

Olho as palavras que me agrilhoam o Eu e imagino-as a florir em histórias infantis, contadas por saltimbanco-que-mendiga-destinos-por-existir. Visto-as de figuras falantes que correm em quimeras, em jogo de esconde-esconde-colorido...
Brinco palavras-vivas, que chilreiam gargalhadas de meninos que não se vêem, porque se engoliram no seu próprio mundo e imaginam-se livres em sonho, sentido, vivido, gulosamente vivido...
Brinco palavras-cor, em perfumes de flor-fada que não gosta de príncipes, em floresta de Outonos, perdido em cores de amêndoas doces...
Digo-me, coelho-fantasma que se inventa palavra-sem-som, que se transforma em afectos, e saltita bailarino, vestido e pintado de Pierrot, no teclado de piano que voa-universo...
Vejo-me, palavra sonho que adormece em nuvem que se aquece e que chora cores de menino-borboleta-de-olhos-que-voam...
Desenho palavra em forma de menino-indio-que-olha-o-horizonte e perco-me nos sentidos do sonho,
e calo-me,
e oiço,
e vejo-Te...

dizem-te...

Dizem-te que as palavras não prendem, mas que envolvem, em cor e se misturam no sentir…
Dizem-te que uma palavra é um beijo, um afecto que traça o destino…
Dizem-te, que uma palavra é um gesto que transforma a ilusão num olhar…
Dizem-te que mesmo sem palavras há sentir, e que este cresce gigante em forma de presença, em sons de saudade…
Dizem-te que uma só palavra transforma o escuro em cor…
Dizem-te que a cor cintila Livre-em-luz, nas palavras que não se escrevem, porque se pintam em reflexos do ver, e se formam UNIVERSO…

06 julho 2004

desenhar o destino

O destino é o cruzamento de todos os olhares. É um caos imprevisto que faz pulsar o Universo e que concentra todos os sentidos num só, e um só em todos os outros.
Se desenhasse o destino, pintava uma árvore …

05 julho 2004

hélice-guilhotina

Apareceu-me esculpida no olhar, quase fotografia, uma hélice gigante em madeira-carvalho-floresta que me navegava a vida.
Qual o sinal? Qual a mensagem, se navego à vela, com os ventos, orientando-me nos caprichos das tempestades e dos estios?
Vejo muro que me atropela, que me dirige, que me condiciona e comanda, sem sentir, em ruído humano de máquina que rodopia cortante e insensível em forma de guilhotina.
Sou empurrado para a multidão que me afoga e grito em apelo da vela-vento, do vento que enfola as velas do meu barco-alma, na esperança de poder continuar a descoberta de mim, com todas as cores que me pintam o EU.

04 julho 2004

pincel-alma

Agarrei pincel-paleta, sujo-brilho, de cores selvagens, misturados de invenção e cheiros dementes de coisas novas. Pincel-alma de desenho vivo, sem medo, aventureiro, criativo. Fotografia do ver e do sentir. Cores que contam histórias de fantasias, sem começo nem fim. É pincel quadro, surrealista. Janela aberta que adivinha lugares, gentes que se passeiam em cidades outras, que só existem no olhar, em danças-musica de assobios ao vento, num pontão infindo que penetra o Mar. Misturo-me nas cores e transformo-me em traço, em quadro de figura-mãe que abraça de lenço-véu, filho que lhe sorri afectos e vontades. A cor é só OLHAR, o desenho que me desliza no ver, tem cabelos onda em forma de cascata-alada-de-negros-sol.
Ao fundo, sussurram mares em vela-nau, que lembram destino-aventura, de Homens-história. Olho fixo. É apenas esboço, porque o quadro vive-se em cada reflexo que o imagina e o inventa. Esconde-se envergonhado em nevoeiros-cor que tímidos se recusam a ser apenas história de um pintor que só sabe imaginar cores em palavras tristes.

O que pode ser mais surrealista, que cor que se pinta sozinha, num esboço de mar-vivo?

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...