16 julho 2004

sou

sento-me noite, na areia casada em espuma. oiço. é o universo que me fala, que me canta em encantos de poesia. sem palavras. sem sal, nem sabores. inteiro. simples. deixo-me envolver em ondas que me chamam e me ardem os sentires, em calores de noite, sem vento que me brisa o olhar. oiço e entro em universo que paira em alma. saio de mim. sou eu, fora, dentro de coisa maior. estrela? luz? não importa. estou. sou.

15 julho 2004

afectos…

Quando queremos dar um afecto, trocar um carinho, transmitir confiança, tocamos.
Damos,
um abraço,
uma mão,
ou as duas, que se tocam, quatro, (n)UM sentir.
Apertamos.
Sentimos.
Unimos.
Damos, as mãos…
Hoje, passou por mim, alguém, vestida de recordação que me deu um olhar.
Tocou-me, com o tamanho todo do Universo…

lápis vivo, atrevido que se transformou em desenho...

Desenho o teu cabelo, longo, onda-mar. O teu cabelo. Teu, que só existes no olhar e na cor que se vive no lápis que se chora sépia-sol.
Distancio-me da linha que ondula em praia mar no papel-marfim. Não tem corpo, nem alma. É corpo nuvem que me ardeu-fogo no olhar e que me fugiu, rebelde em linha-cabelo no desenho, que nasceu saudade…

14 julho 2004

gavetas

Não era costume arrumar, fechar gavetas, como quem resolve um assunto, uma tarefa. Não era de todo arrumado, nunca fora, sempre agira com o impulso do sentir. Deixava-se ir na vida, como a água de um rio. Sabia-Se e isso bastava. Mas hoje, hoje, o dia, pintara-se de estranhas cores no olhar. Hoje, era um dia anormal no seu viver, uma espécie de eclipse solar, que sendo natural, rareia e torna-se único, especial quando é.
Hoje, fechara gavetas (não necessariamente arrumadas, no que se vê dentro. Fechadas, apenas, sem chaves, não fosse o destino saltar com emoções outras e baralhasse arrumação do sentir…).Fechara-as, uma a uma, não necessariamente com ordem, só o resultado do sentir, fazia prever harmonia (adivinha-se, só por este facto que pelo menos ordem emocionalmente estética havia, se é que o sentir possa ter estética ou mesmo ordem. Quem escreve acha-o).
Sentia-se leve, quase ausente, quase sereno, sentia chão, via-o, sem olhar, sem se fixar na cor, no reflexo, e isso era poema, era horizonte, quase Mar…
Faltava, apenas, só, a sua gaveta. Era a sua gaveta que o puxava e dizia-o, implorando, interrogativa, e Eu?
Sim, sabia-o, faltava a sua gaveta, não tinha espaço para ela, não tinha hierarquia, nem ordem, era a sua gaveta, o seu caos e assim deveria permanecer. Sua, desarrumada, esquecida…

13 julho 2004

pintura-retrato em DNA

Retrato figura esbelta linear, menina. Desenho cabelos soltos, caídos em castanhos muitos. Vejo-lhe olhos e pinto-os, cor de mar. Está envolta, abraçada, em mãos, suas, curiosas. Pensa saudades. Pinto-a, disfarço-a em árvore, sem sombras, é menina. Componho imagem com poliedros, grades de hélices, simples, duplas que se combinam em letras, quatro, A-T-G-C, misturadas em fosfatos, em açucares. Letras, palavras que compõem o desenho que lhe traço, é nano-poeta, a menina. É célula-tronco, é vida. Cores, muitas, em tons de creme, que abraça, que sorri. É descoberta!

12 julho 2004

mão, deformada em apelo

Não sei se piso, se ando…
Sinto…
Não são palavras, nem olhares, é o nada, o vazio que enlouquece e me preenche o caminho.
Pesa-me o que piso…
Sinto…
Fecho os olhos, o olhar e visto-me. Deixei de andar nu.
Vou…
Sinto…
Vazio,de mar em sons de Outonos,onda-espuma que se eleva no ar…
Mar-Vulcão.
Sinto...
Pinto-me de cores visíveis em formas de Mim,
sem palavras…
Não sei o que digo, apenas quero estar aqui, vestido de sentidos…
Sinto…
Estendo a mão.
Aberta.
Esticada.
Deformada em apelo.
Foge-me.
Sinto…
Já não ando. Sento-me, penduro-me na estrela que me olha-luz, em baloiço…
Criança que se finge, que se brinca…
Só!
Sinto…
Repito sons, palavras, que moldam o vazio de mim…
Barro húmido, informe, (in)criado no ser-Me!
Sinto-me...
Só!
Onda que emerge, infinda, sem sons…
Já não grito,
piso,
piso-me caminhos...

11 julho 2004

história trauteada em assobios de trompete e piano ( sem dó menor)

Sensação estranha, bizarra por inteiro, esta de querer contar história e perder-me na imaginação das palavras, que se amotinam e recusam personagens.
Metamorfose híbrida de um contar de memórias, outras, difusas, doentes, que se transformam no próprio corpo do ilusionsta-pintor, preso em rios seus que apodrecem e definham com o tempo, em recusa de poemas-fantasia , rimados em cores esbatidas de querer.
É vida, inventada que escoa, mágica, que me corre nas veias do olhar, em sons de trompete que me "pianeia" ( para além do som das cordas, não esquecer os efeitos do preto e do branco a dançar sozinhos, quase sem dedos, porque estes transformaram-se em bailarinos) os sentidos em improvisos que me fogem das palavras que (des)escrevo, que (des)conto que (des)historio.
Simplesmente, não há história, contada em letras sem cor, apenas sons conexos, sem imaginação , nem sexos, a fingirem-se de Vida...

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...