24 julho 2004

personagem

Insisto na personagem, que moldo, traço por traço, no existir, com tudo o que comporta a imagem. Falta-lhe vida. Cor não basta para ser mais que personagem, quanto muito reflexo, face, pedaço. Ando cansado para me fingir, para manter vivo o desenho em  que me pinto, por isso deixo-me invadir pelos reflexos ( os reflexos e os labirintos perseguem-me no cansaço do ver). Só no silêncio me vejo autêntico. É num mundo de ausências que me sorrio sem sombras. É na ausência que me cresço em Mim. As palavras que me fingem a personagem doem-me. Quando mergulho ou voo, ensino-me a andar. Vou aprender a desenhar a palavra ouvir, para saber espreitar a ausência sem ela me pressentir...

23 julho 2004

guitarra, que chora, baixinho...

Eras uma linha, em sons de corda, que cantava guitarra, eras menino-flor, de olhos-música.
Eras fado cantado com cordas dedilhadas de amor, eras dança, eras cousa uma em forma de abraço.
Voo sentado.
Embalado.
Sonho-guitarra-ternura.
Quadro.
Eras linha una, que cantava.
Linha-corda, acorde de alma.
Eras tu.
Carlos, Guitarra.
Cigarra de dedos loucos de medos, outros.
Olho-te desenho-mãe que pega-abraça criança, em curvas-guitarra.
Hoje choro baixinho, sem lágrima. É choro de guitarra...

desencontros em teatros de vida(s)

Em situação normal nunca teria ido por aí.
O caminho não era o dele.
Imaginara-o vezes várias, sentira-o com todo o seu olhar, mas sabia que só o viveria numa vida paralela, entre o sonho e o seu caminho. Espaço, sem tempo que existe no sentir, que chega a ter vida própria, mas que apenas cresce e floresce dentro de cada qual. Mas este era real, tocava-se para lá do olhar, tinha corpo e alma própria, não saía de dentro da lamparina de emoções que lhe habitava o ser. Era soma de si, por isso foi de olhos fechados, cheio de sentir. Foi, inconsciente, encantado, cheio de novas cores, de desenho vivo, que se transformava em palavras e em vida.
Ainda não sabe o que o levou a ir, por caminhos que não eram os dele, pois sempre controlou emoções, sempre as viveu sozinho.
Um dia, como que acordado de um sonho, encontrou-se no meio do mar, sem pontos de referência, apenas ouvia sussurros de ecos trazidos pelo vento, que lhe indicavam, sinais e sentidos. Criou forças e seguiu o seu caminho, imaginando rotas e atalhos (estranhos atalhos os que se encontram no mar que cada uma das nossas vidas contém). Quando acordou, voltou a ver as cores que lhe pintavam o existir.
Estava tudo lá, no seu cenário.
No cenário que tinham criado para se ver na vida!
Só não teve coragem de olhar par atrás.
Sabia que os seus passos, fora do caminho, tinham pisado outros olhares, que sem querer se misturaram no sonho sem perceber que as cores que o iluminavam, reflectiam cenário outro.

22 julho 2004

acaso(s)

Fiz uma DESCOBERTA!
Não necessariamente cientifica, porque  introspectiva, sem ensaios, nem teorias e de cientista nada tenho, a não ser leituras avulsas e gulosas.
Dei-lhe nome, a imitar padrão de pedra tosca, de eras e homens, outros.
LEI DO ACASO. Tem como principio que cada ser, vivo ou não, (ou de estado outro, desconhecido), interage com a menor energia disponível. O acaso, está em que cada um tem a sua, e não necessariamente a mesma, pelo que a interacção, o encontro, o entendimento, é fruto do acaso…

fumos com história para contar

Sigo, em presença, nuvem de fumo à procura de enredo para um conto, de encontros, sem personagens, porque me fogem sempre que lhes toco, mesmo que imaginadas e criadas para o momento da escrita. Quero pôr palavras no ar em formas várias, de fumo-prata, à procura de um sentir. Sinto. Intimidade, entre os dedos que me escrevem e o aroma, café-chocolate, que envolve o desenho e que me espreitou a sorrir pedaços de vida que me roubou. Converso-me, antes da escrita como quem procura o verde nas árvores de Outono, em Inverno tardio. Só me sei. Desinteresso-me das palavras. Conheço-as. Queria outras, que me acordassem, que me brilhassem e navegassem-brisa, em poema.
Sinto-me chuva-semente-de-rio, antes de escorregar ravina, à procura de caminhos que  a levem ao sal.
Queria sentir palavras que voassem em melodias murmurosas, assobiadas de SABER…


21 julho 2004

palavras que se escondem

Há equívocos que se escondem no silêncio das palavras, e o desassossego não é o melhor olhar para os ouvir. Ando ausente em luz-noite, como se a vida se tivesse cansado de me reflectir as cores e eu não tivesse forças nem imaginação para a pintar, nem que fosse só a fingir.

20 julho 2004

uma questão de cuidados e de afectos

Temos uma tendência (quem escreve, refere-se a todos aqueles que lhe habitam o eu e que se convergem no seu sentir, semelhanças, de olhos outros com o que vai ser escrito e lido serão coincidências do olhar que se somam no mesmo ver) para sentirmos que o Amor é uma flor que nos cresce dentro do peito e que lhe damos cor com a luz do nosso olhar.
Nada mais errado, o Amor está fora, é flor, sim, mas que precisa mais do que o nosso olhar, precisa de cuidados, muitos, de carinho, de alimento, para poder colorir(desculpem, florir) com o nosso dar

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...