25 julho 2004

mil e uma cor

Passeio na areia que se estende em horizonte pintada de castanhos-deserto. Fixei-me em ponto branco, disforme, porque longe. Estava meio, entre a linha e o olhar. Só o sei branco-neve. Dirijo-me para o ponto, interrogativo, expectante. Só vejo branco, nem oiço mar que me ladeia, fiel, companheiro. É rocha, alva, pura. Gigante de branco. Toda dignidade, no meio daquele areal que se veste de “deserto”. É fim de dia e as cores são poesia.
Que faz aquele rochedo branco, perdido na areia, imaculadamente branco?
Homem? Naaaão! Nenhum homem carrega rocha para meio de coisa alguma, quanto mais num areal quase horizonte. Nem mesmo artista!
O Mar? Impossível, mesmo forte, mesmo tormenta, não levaria para local, longe, semelhante rochedo, quanto muito ficaria, beijado de água, escorregado entre o Mar e a Terra, não ali, longe…
Sentei-me a olhar o branco que naquela tarde de fim de dia, insistia em ser só branco, mesmo no sol por, onde todos tomamos outras cores e outros sentires…
Cheio de acreditar, perguntei ingénuo.
Que fazes aí? Quem és?
Sou onda-espuma. Petrifiquei-me de amor por um cristal de quartzo de mil cores. De mil cores! Poderás tu imaginar a beleza de um quartzo de mil cores? Não lhe resisti! Transformei-me!
Levantei-me. Tive medo de olhar tão perfeito ser, não fosse perder-me também. Se o arco íris em que me vou pintando no sentir tem sete simples cores, não ouso imaginar a emoção de se olhar mil cores todas ao mesmo tempo…
Voltei devagar, a olhar os castanho-rosa de fim de dia, a ouvir o mar, a cantar-me, para me sossegar…

24 julho 2004

sombras

As sombras não são cinzentas nem negras.
São transparentes.
Vê-se sempre o que está por baixo.
Só de noite escondem tudo!
São  o cobertor da cama do Mundo!

sede

As fontes, afinal são esgotáveis.
Morrem pedra.
Matéria…
Dêem-me um copo de alma por favor…

acordar tarde em bocejo de mar

O mar acordou sem cor. A sua. Cinzento. Segredou-me que vinha mais tarde. Esperei. Fiquei a ouvi-lo

personagem

Insisto na personagem, que moldo, traço por traço, no existir, com tudo o que comporta a imagem. Falta-lhe vida. Cor não basta para ser mais que personagem, quanto muito reflexo, face, pedaço. Ando cansado para me fingir, para manter vivo o desenho em  que me pinto, por isso deixo-me invadir pelos reflexos ( os reflexos e os labirintos perseguem-me no cansaço do ver). Só no silêncio me vejo autêntico. É num mundo de ausências que me sorrio sem sombras. É na ausência que me cresço em Mim. As palavras que me fingem a personagem doem-me. Quando mergulho ou voo, ensino-me a andar. Vou aprender a desenhar a palavra ouvir, para saber espreitar a ausência sem ela me pressentir...

23 julho 2004

guitarra, que chora, baixinho...

Eras uma linha, em sons de corda, que cantava guitarra, eras menino-flor, de olhos-música.
Eras fado cantado com cordas dedilhadas de amor, eras dança, eras cousa uma em forma de abraço.
Voo sentado.
Embalado.
Sonho-guitarra-ternura.
Quadro.
Eras linha una, que cantava.
Linha-corda, acorde de alma.
Eras tu.
Carlos, Guitarra.
Cigarra de dedos loucos de medos, outros.
Olho-te desenho-mãe que pega-abraça criança, em curvas-guitarra.
Hoje choro baixinho, sem lágrima. É choro de guitarra...

desencontros em teatros de vida(s)

Em situação normal nunca teria ido por aí.
O caminho não era o dele.
Imaginara-o vezes várias, sentira-o com todo o seu olhar, mas sabia que só o viveria numa vida paralela, entre o sonho e o seu caminho. Espaço, sem tempo que existe no sentir, que chega a ter vida própria, mas que apenas cresce e floresce dentro de cada qual. Mas este era real, tocava-se para lá do olhar, tinha corpo e alma própria, não saía de dentro da lamparina de emoções que lhe habitava o ser. Era soma de si, por isso foi de olhos fechados, cheio de sentir. Foi, inconsciente, encantado, cheio de novas cores, de desenho vivo, que se transformava em palavras e em vida.
Ainda não sabe o que o levou a ir, por caminhos que não eram os dele, pois sempre controlou emoções, sempre as viveu sozinho.
Um dia, como que acordado de um sonho, encontrou-se no meio do mar, sem pontos de referência, apenas ouvia sussurros de ecos trazidos pelo vento, que lhe indicavam, sinais e sentidos. Criou forças e seguiu o seu caminho, imaginando rotas e atalhos (estranhos atalhos os que se encontram no mar que cada uma das nossas vidas contém). Quando acordou, voltou a ver as cores que lhe pintavam o existir.
Estava tudo lá, no seu cenário.
No cenário que tinham criado para se ver na vida!
Só não teve coragem de olhar par atrás.
Sabia que os seus passos, fora do caminho, tinham pisado outros olhares, que sem querer se misturaram no sonho sem perceber que as cores que o iluminavam, reflectiam cenário outro.

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...