28 julho 2004

caminhos cruzados

Cruzei-me com menino que carregava sozinho toda a responsabilidade de viver o seu sonho. Vi-o a seguir gaivota com o olhar, que se fundia em cor, entre o sol cansado e o horizonte.

27 julho 2004

história por contar.

Há dias de luz-serena que somos tentados a colher da paisagem que nos envolve o ver, personagens, que nos emocionaram e levá-las para casa, e inventar-lhes uma história. Não há ponto de encontro, nem destino, nem acaso. Acaso só o facto de termos estado no mesmo cenário, com a mesma luz, a existir o momento…

Sentado ao fim de tarde de Julho, também ele no fim, olho o mar, é costume. Há um ambiente de sons, de cores e de profundidade que me levam a olhar o nada, à procura de palavras, em mim. Saboreio pensamentos, muitos deles, nem me contam, andam por aí a fingir-se gaivotas e apenas se dignam a revelar-me sussurros espaçados em palavras que esqueço. Estava nesta calma ausência, todo sentidos virado para dentro, quando oiço alegria de risos soltos. Sem olhar, por me encontra ainda, por dentro em concha que se perde no horizonte, tento precisar se a alegria que me invade é de criança. É a curiosidade que me faz aproximar do mundo que se movimenta à minha frente. Dançam em jogo de bola dois jovens, ele e ela. Paro-me nas linhas que se saltam em bailado, da rapariga que se estica para tocar a bola que lhe esvoaça nas mãos. Movimentos lindos, desenho impossível de fixar, nem retratar, porque transmite alegria, que se reflecte em constante sorriso, de boca jovem que vive o instante, no lança que lança, de bola em dança. Não consigo retirar o ver do corpo, do olhar e dos risos que rasgam o ar que ofuscam o batuque-pandeireta de mar que se desenrola, no seu vai e vem, em recados de onda que só estando a sós se entendem, e não o estou, (tenho outras coisas no olhar). Cabelos escuros, pele de verão, pescoço esguio. Salta, dança, a bola é acessório de paisagem (desculpem a repetição, mas o movimento que a acompanha, ritmado de riso com orquestra de mar, só pode ser bailado, sensual, porque feminino, mais bonito que belo, porque harmonia. Tudo se conjuga em imagem que prende os sentidos, todos). Não consigo realçar o que me comove o sentir, se o cabelo que esvoaça preso-livre, atado em linha esbelta, em cavalo-negro de desenho cubista, se o riso, branco-feliz, se os seios cheios, também eles dançarinos, também eles voadores, junto ao corpo que salta, levantando areia ao encontro de bola, ao vento. Não gosto da palavra seios, não porque feia, mas porque lhe falta poesia, porque linguagem demasiado anatómica e leva o pensamento a consultório médico. O que o olhar me devolve para descrever tão graciosa escultura assemelha-se a gotas-vestidas-de-pele-seda-de-julho-quente, que floriam esculpidas no corpo, porque gotas têm a forma perfeita que a natureza lhe deu, porque seda cheira a flor (não sei de onde veio esta associação de sentires, mas se está escrita, é porque foi sentida), macia, na sua firmeza jovem (desenho-os, de longe, sem pensamentos outros que aqueles que a imagem me dá, porque estou maravilhado com o todo que ri sem parar, em alegria estonteante de criança grande, linda, trigueira de se ver). Pinto gazela, chamo-lhe Gabriela (talvez o nome tenha caído de leituras outras, não sei, digamos que sim, porque igualmente bela, igualmente sensual, na ingenuidade de se expor linda, a rir, furacão de riso que me embriaga o sentir). O nome não interessa, mas fica, talvez seja preciso mais tarde para dar nome a quadro, se conseguir artes e jeitos para pôr alegria em cor e desenho. Ele, bruto, desenquadrado no ver. Exibe-se. Macho de tanga. Não a vê, só a bola. Não tem graça. Lembra-me soldado, desactivado, porque acumula tecido adiposo, de quem se vai desleixando de corpo e alma, se o não é, imita o estilo. Vejo-o fardado, a insultar os passageiros do comboio de fim-de-semana, de lata de cerveja na mão, a contar as suas proezas físicas e sexuais sem respeito por quem o espera, ansiosa, na estação de saída, em saudades de afectos e de corpo. Não lhe dei nome, não vou precisar dele mais tarde, ficará fora do quadro. Não cabe lá dentro (talvez esteja a ser injusto. Ciúme? Não de todo. Apenas estraga a imagem, a poesia do momento e não entremos em fantasias, que sou adepto da serenidade e da lealdade, e tenho afectos outros.) Pergunto-me, o que é que a minha história tem a ver com o facto de estar na praia, contagiado pela beleza de mulher, que teimou em dançar entre mim e o horizonte? Não respondo, porque me sei a mania de me meter onde não sou chamado e esta história não é a minha, eu só a desenho. Não me canso de olhar, esqueço-me das horas, o tempo (des)existiu, só as gaivotas avisam o por do sol. Não tenho outro remédio, senão apanhar as duas vidas, como quem colhe duas flores, e transforma-las em personagens e levá-las comigo, para um dia, agarrar nelas e inventar-lhes uma história.



26 julho 2004

imagem desfocada

O nevoeiro, caiu, pesado, junto ao mar. Fundiu-se. Pintou tudo da sua cor.
O mar, que me fala, que me murmura em segredos, contados por onda que me abraça, em manhãs de cumplicidades, disse-me quase sem som, Sou eu todo!
Elevo-me,
denso,
desfocado.
Hoje sou nuvem-de-olhar...
Abafo os meus lamentos em lágrimas finas,
aguçadas que se evaporam,
fervidas de dor.
Sou névoa salgada.
Sou eu todo que me escondo…

25 julho 2004

mil e uma cor

Passeio na areia que se estende em horizonte pintada de castanhos-deserto. Fixei-me em ponto branco, disforme, porque longe. Estava meio, entre a linha e o olhar. Só o sei branco-neve. Dirijo-me para o ponto, interrogativo, expectante. Só vejo branco, nem oiço mar que me ladeia, fiel, companheiro. É rocha, alva, pura. Gigante de branco. Toda dignidade, no meio daquele areal que se veste de “deserto”. É fim de dia e as cores são poesia.
Que faz aquele rochedo branco, perdido na areia, imaculadamente branco?
Homem? Naaaão! Nenhum homem carrega rocha para meio de coisa alguma, quanto mais num areal quase horizonte. Nem mesmo artista!
O Mar? Impossível, mesmo forte, mesmo tormenta, não levaria para local, longe, semelhante rochedo, quanto muito ficaria, beijado de água, escorregado entre o Mar e a Terra, não ali, longe…
Sentei-me a olhar o branco que naquela tarde de fim de dia, insistia em ser só branco, mesmo no sol por, onde todos tomamos outras cores e outros sentires…
Cheio de acreditar, perguntei ingénuo.
Que fazes aí? Quem és?
Sou onda-espuma. Petrifiquei-me de amor por um cristal de quartzo de mil cores. De mil cores! Poderás tu imaginar a beleza de um quartzo de mil cores? Não lhe resisti! Transformei-me!
Levantei-me. Tive medo de olhar tão perfeito ser, não fosse perder-me também. Se o arco íris em que me vou pintando no sentir tem sete simples cores, não ouso imaginar a emoção de se olhar mil cores todas ao mesmo tempo…
Voltei devagar, a olhar os castanho-rosa de fim de dia, a ouvir o mar, a cantar-me, para me sossegar…

24 julho 2004

sombras

As sombras não são cinzentas nem negras.
São transparentes.
Vê-se sempre o que está por baixo.
Só de noite escondem tudo!
São  o cobertor da cama do Mundo!

sede

As fontes, afinal são esgotáveis.
Morrem pedra.
Matéria…
Dêem-me um copo de alma por favor…

acordar tarde em bocejo de mar

O mar acordou sem cor. A sua. Cinzento. Segredou-me que vinha mais tarde. Esperei. Fiquei a ouvi-lo

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...