De olhos fechados, experimento a sensação de ouvir o que não cabe em mim. Tento soltar os ruídos que se colam ao sentir, em melodia aguda e fina, mas tudo se esconde, nas grutas de uma memória que se pinta de verdades. Tudo sou eu, não há fuga. Mesmo os gritos, mesmo os quadros deitados fora, todo o lixo do sentir que guardei e vivi, colou-se-me à pele das emoções. Sou um conjunto do não querer.
Abro os olhos cheio de vontade de repintar o quadro, mas ele está ali defronte, pendurado na parede, assinado e datado.
Tento-me em roubá-lo.
Ladrão de mim!
Resisto.
Deixo-o pendurado, mesmo torto, a querer cair para um dos lados, desenquadrado, desequilibrado.
Saio.
Lá fora está um dia cheio de luz. É intensa, mas vou, sem fechar os olhos. É cor de estrela, é cor de caminho. Sabe bem o calor da cor que não nos deixa esconder o ver. É de um quente transparente que nos sorri de fantasia.