06 agosto 2004

olhares que partiram



henri cartier-bresson, 1908-2004


um olhar a preto e branco, onde as linhas de contorno tomam vida própria e sentimentos vários. Quadros de vida, reflectidos no olhar-da-alma de um poeta, que pintava instantes.

05 agosto 2004

o sentido das palavras

Sonhei que acordava num local sem nome, onde as palavras só tinham um sentido. Preto, era preto, não era sombra, nem gato, nem noite, era preto. Ternura era carinho, não era senão carinho, não era paixão, não era amor, não era senão ternura, acto que se transmite com meiguice, a quem nos entra pelo olhar dentro, com ou sem licença. Acordei sobressaltado e cheio de angustia. Naquele sitio a palavra sonho não era senão pesadelo e isso não cabia num lugar que se pintava com palavras em desenho intimista…

18 pedaços do céu

Escrevo, embalado por pedaços do céu, como quem descobre pequenos tesouros e fica maravilhado, com os olhos caídos em cada um. Queremos todos, de vez só, conscientes que assim perdemos o único de cada um. Oiço cada pedaço e invento uma história individual, só minha, íntima. São dezoito, os pedaços de céu que me couberam em sorte, escolhidos longe. Vieram no vento, com ele. Pequenas nuvens brancas, cúmplices que souberam chegar a mim, sem palavras, só sons, cor e sorrisos de silêncios. Escrevo, contos de menino, só para mim, porque só eu sei a forma com que cada um dos pedaços de céu se abriu em mim.

04 agosto 2004

encontro

Trago de um encontro,
a imagem de um braço-de-menina-mão-de-asa, que flutua na brisa em mergulhos-peixe que ondulam em abraço do vento,
a palavra ternura e uma mão cheia de cumplicidades.
Em moldura, um dia azul-mar e o começo de um caminho que foge para além do olhar.

03 agosto 2004

debuxar...

Vivo nesta ilusão de sentir fisicamente um sonho, de o tocar, de o moldar, de o transformar em irreal. Mergulho na inquietude e no desassossego. Não imaginam a serenidade que me fervilha na fantasia de me confundir nas formas de reflectir o VER.

02 agosto 2004

similitudes…

Há uma grande disparidade entre a minha árvore genealógica e o Plátano que olho curvo para o céu e que se dança em sombras à minha frente. Na minha árvore todas as folhas tem nome (ou pelo menos já pairou em tempos outros, no chamamento de folha outra, com emoção ou sem ela). A que se me ergue no VER, inundada de existir, se os tem, não diz a ninguém.
Em cada uma das folhas, da minha e desta que me assombra em espanto e que se veste de verdes frescos, só há uma coisa em comum, encerram um universo infinito nas linhas que as contornam…

01 agosto 2004

sorrisos de fantasia, em jeito de passeio interior

De olhos fechados, experimento a sensação de ouvir o que não cabe em mim. Tento soltar os ruídos que se colam ao sentir, em melodia aguda e fina, mas tudo se esconde, nas grutas de uma memória que se pinta de verdades. Tudo sou eu, não há fuga. Mesmo os gritos, mesmo os quadros deitados fora, todo o lixo do sentir que guardei e vivi, colou-se-me à pele das emoções. Sou um conjunto do não querer.
Abro os olhos cheio de vontade de repintar o quadro, mas ele está ali defronte, pendurado na parede, assinado e datado.
Tento-me em roubá-lo.
Ladrão de mim!
Resisto.
Deixo-o pendurado, mesmo torto, a querer cair para um dos lados, desenquadrado, desequilibrado.
Saio.
Lá fora está um dia cheio de luz. É intensa, mas vou, sem fechar os olhos. É cor de estrela, é cor de caminho. Sabe bem o calor da cor que não nos deixa esconder o ver. É de um quente transparente que nos sorri de fantasia.

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...