Encontrei Mestre Dali, reencarnado na paisagem de um canavial, daqueles que seguem os caminhos em sombras quase verdes e que por mais que se cortem, crescem sempre e sempre verdes. O Mestre via-se, D’ali, transformado em formigueiro de caracóis. Reconheci-o pelo bigode desenhado nos olhos dos caracóis, ao sol. Os caracóis pintavam-se em cachos brancos, em imagens gémeas, de flor de jarro, sem fim na vista, floridas no canavial (desconheço flor de cana, de canavial vulgar, de verdes comuns. Ignorância ou distracção imperdoável, mas se tiver e acredito que sim, não são flores-jarro. Tavez sejam verdes, camufladas em transparências, talvez em cor-pequena, sem direitos a reflexos do olhar, talvez flor-minhoca, escondida semente no humido da terra).
Quando souber pintar vou retratar o mestre, verde-branco, flor de jarro e gravata erecta, amarela-ovo, com mil bigodes de olhos de caracol, com um girassol no meio dos verdes a cair do céu .
10 agosto 2004
09 agosto 2004
os sons de um olhar sobre uma bailarina-cisne
Espreito bailarina que esvoaça dança, branca-de-cisne-em-sombras-cor-de-rosa. Não é mulher, nem flor, nem poema, nem escultura, nem cisne, é quadro em movimento que vai directo ao coração sem passar pelo olhar.
As linhas que contornam o desenho da bailarina que saltita as cordas do violino, não tem cor nem luz, nem nada, é um sonho de alma que nos sorri num branco-multicolor
As linhas que contornam o desenho da bailarina que saltita as cordas do violino, não tem cor nem luz, nem nada, é um sonho de alma que nos sorri num branco-multicolor
08 agosto 2004
palavras-semente
Tentar transformar sentimentos em palavras, é como plantar uma flor. Semeamos cor, em Rosa e aguardamos com o olhar e o querer, um florir rosa-vinho-d’ouro, cor que nos saltou da paixão, do amor e não da flor.
07 agosto 2004
sem cores
Andei a saltitar de palavra em palavra e não fiquei em nenhuma. Escondi-me de amarelos-luz, estendido na praia, sem mim.
06 agosto 2004
olhares que partiram
henri cartier-bresson, 1908-2004
um olhar a preto e branco, onde as linhas de contorno tomam vida própria e sentimentos vários. Quadros de vida, reflectidos no olhar-da-alma de um poeta, que pintava instantes.
05 agosto 2004
o sentido das palavras
Sonhei que acordava num local sem nome, onde as palavras só tinham um sentido. Preto, era preto, não era sombra, nem gato, nem noite, era preto. Ternura era carinho, não era senão carinho, não era paixão, não era amor, não era senão ternura, acto que se transmite com meiguice, a quem nos entra pelo olhar dentro, com ou sem licença. Acordei sobressaltado e cheio de angustia. Naquele sitio a palavra sonho não era senão pesadelo e isso não cabia num lugar que se pintava com palavras em desenho intimista…
18 pedaços do céu
Escrevo, embalado por pedaços do céu, como quem descobre pequenos tesouros e fica maravilhado, com os olhos caídos em cada um. Queremos todos, de vez só, conscientes que assim perdemos o único de cada um. Oiço cada pedaço e invento uma história individual, só minha, íntima. São dezoito, os pedaços de céu que me couberam em sorte, escolhidos longe. Vieram no vento, com ele. Pequenas nuvens brancas, cúmplices que souberam chegar a mim, sem palavras, só sons, cor e sorrisos de silêncios. Escrevo, contos de menino, só para mim, porque só eu sei a forma com que cada um dos pedaços de céu se abriu em mim.
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