06 setembro 2004

quando o horizonte nos envolve

Parado, olho o vento que me foge e que me convida.
Sinto-o.
Empurra-me.
Fico.
Fixo.
Em mim, no EU.
Fundo-me ao fundo, no horizonte.
Em mim.

05 setembro 2004

transparências

Abraço-me no silêncio.
Sem procura. Deixo que ele me envolva.
Sem fuga.
Corre-me no sangue até à alma. Funde-se e transforma-me em ausência.
É o silêncio de mim.
Revisito-me. Olho em descoberta, confundo-me com o só. Mas permaneço e desenho-me. Traço uma única linha.
Em cor de movimento…
Em silêncio, quase só, oiço as sonoridades da pergunta que dança, que me dança em sons de melodia. Flauta de Pan. Rouca.
Em cor de vento…
Abraço-me em alegria serena, pausada, que me pinta, amarelo-gira-sol-em-fim-de-tarde. Pinceladas grossas, baças, rápidas, determinadas.
Já não estou quase só, corro-me nas veias, na vida.
Em cores do existir…

02 setembro 2004

colo

As palavras que hoje gravo, não são minhas, foram contadas em jeito de história.
É história que se transmite.
É história de gerações.
Meu é só o sentir que elas provocam, em cada passo que dou no meu caminho, vá ele por onde for...
Agarrei nelas e devolvo-as ao vento, para se viverem...

"Mãe, mãe, tu mentiste-me!
Porque o dizes, meu filho?
Disseste-me que Deus estava em todo o lado e não é verdade, Mãe! Hoje andei pela praia e só vi as minhas pegadas na areia...
Andas muito distraído, filhote. As pegadas que viste na areia, eram as Dele, que te levava ao colo..."

01 setembro 2004

distrações

Visitei o ( meu) rio.
Estava parado, com uma pele verde, opaca de luz.
Pensei serem os verdes das árvores reflectidos, petrificados, estáticos por tanto se olharem nas águas do rio. Não gostei do sentir a que o pensar me levava, porque árvore é arvore, não narciso.
Olhei fixo aqueles verdes, cheio de interrogação no ver.
Porque me paraste? Perguntou-me o rio
Eu?
Sim tu!
Mas eu não te parei, tu corres, bem sabes que corres para o mar. Oiço-te. Por debaixo dessa tua pele verde, opaca, corres…
Ouves, mas não me vês. Deixaste de me olhar quando me roubaste o verde e o levaste contigo. Levaste-o todo, só para ti e desinteressaste-te de mim. Quero maravilhar-te com outros verdes.
Não! Eu gosto dos teus verdes, os teus verdes são os das tuas árvores, das tuas águas, da tua luz! É dos teus verdes que eu gosto!

Se gostas tanto dos meus verdes, porque deixaste de te maravilhar comigo?
Porque dizes isso?

Porque passas por mim, já com todos os verdes no teu olhar e não deste conta da minha tristeza, por sentir que sou apenas a tua paisagem…

31 agosto 2004

guitarradas

Quando as palavras escurecem, não há nem sorrisos nem abraços.
Há um silêncio sem caminho que toca sozinho acordes torpes de guitarra.

Oiçam!

É a alma que pára?
Que Chora?

São os passos!

Que tropeçam,
gritam, e vibram corda,
sem tempo, o Eu que ora…

30 agosto 2004

chuvas...

Caem,
sem som,
sem voz,
gotas…
Pedaços de mim,
uma a uma,
em silêncios,
gota a gota,
letra a letra,
cor a cor…
Pingam
uma a uma.
Labirintam,
sem fim…

29 agosto 2004

ir...

Abriu-se porta na alma,
no corpo
e derramei-me entre a calçada,
branca,
negra,
calma.
Carcaça espantada,
ressequida de nada.
Hoje não me ando,
não caminho,
no fio,
não olho,
vazio.
Sou noite escura,
maré viva, sem praia.
Sou sal,
cor,
rio,
mar,
sangue,
cera,
estanque,
grito de dor.
Arame,
garrote de morte,
sem fé,
sem norte.
Fechem a porta,
abram as janelas.
Quero luz,
forte,
vento e velas
e ir,
em sorte…

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...