08 setembro 2004

folha de papel

Tenho uma única folha branca, estaticamente branca que me desafia, porque única, porque ultima.
Interrogo-me intimidado pelo poder ilimitado que detenho, sobre esta folha que quase me cega de luz.
Pode ser universo, mundo fantástico, desenho qualquer, sorriso ou lágrima. Pode ser quadro, abraço, avião, pássaro, nuvem ou mar. Pode nascer palhaço, criança, sorriso ou estilhaço. Não me decido.
Tenho um lápis lilás, uma paleta de cores fortes e uns olhos atrevidos, ávidos de impaciência à espera que o papel se transforme em vida.
Olho o vazio à procura de um sinal, de uma palavra que o movimente, que o torne imprescindível ao olhar que o devora.
O horizonte esconde-se. Não me segreda, não me sussurra, nenhuma palavra mágica, nenhuma cor , nenhuma fantasia. Esqueço o horizonte, afago a folha e pergunto-lhe: O que queres que te faça? De que emoção te queres vestir? Quero que me deixes tal qual, carrego comigo toda a emoção do teu vazio…

07 setembro 2004

recordações

Papá, uma rosa, cheira a rosa, uma tulipa, cheira a uma tulipa, um malmequer a um malmequer. Reconheço cada flor, pelo seu perfume.
Estás sempre a dizer que uma mulher é uma flor, mas eu não sei a que cheira uma mulher! Cheiram sempre a perfumes diferentes, com nomes que não sei dizer...

06 setembro 2004

cor de árvore

Em menino pintei uma árvore ENORME, do tamanho do papel que me calhou em sorte, com lápis de cera vermelho-sangue.
Um lápis inteiro, do tamanho da árvore que me cabia no olhar.
A professora perguntou-me o que era, fiquei muito corado e disse: É uma árvore cheia de vergonha..."
Hoje quando me avermelho, sinto-me árvore, do tamanho de um lápis de cera...
(É o que dá em brincar em menino com lápis de cera cor de vermelho-sangue)

quando o horizonte nos envolve

Parado, olho o vento que me foge e que me convida.
Sinto-o.
Empurra-me.
Fico.
Fixo.
Em mim, no EU.
Fundo-me ao fundo, no horizonte.
Em mim.

05 setembro 2004

transparências

Abraço-me no silêncio.
Sem procura. Deixo que ele me envolva.
Sem fuga.
Corre-me no sangue até à alma. Funde-se e transforma-me em ausência.
É o silêncio de mim.
Revisito-me. Olho em descoberta, confundo-me com o só. Mas permaneço e desenho-me. Traço uma única linha.
Em cor de movimento…
Em silêncio, quase só, oiço as sonoridades da pergunta que dança, que me dança em sons de melodia. Flauta de Pan. Rouca.
Em cor de vento…
Abraço-me em alegria serena, pausada, que me pinta, amarelo-gira-sol-em-fim-de-tarde. Pinceladas grossas, baças, rápidas, determinadas.
Já não estou quase só, corro-me nas veias, na vida.
Em cores do existir…

02 setembro 2004

colo

As palavras que hoje gravo, não são minhas, foram contadas em jeito de história.
É história que se transmite.
É história de gerações.
Meu é só o sentir que elas provocam, em cada passo que dou no meu caminho, vá ele por onde for...
Agarrei nelas e devolvo-as ao vento, para se viverem...

"Mãe, mãe, tu mentiste-me!
Porque o dizes, meu filho?
Disseste-me que Deus estava em todo o lado e não é verdade, Mãe! Hoje andei pela praia e só vi as minhas pegadas na areia...
Andas muito distraído, filhote. As pegadas que viste na areia, eram as Dele, que te levava ao colo..."

01 setembro 2004

distrações

Visitei o ( meu) rio.
Estava parado, com uma pele verde, opaca de luz.
Pensei serem os verdes das árvores reflectidos, petrificados, estáticos por tanto se olharem nas águas do rio. Não gostei do sentir a que o pensar me levava, porque árvore é arvore, não narciso.
Olhei fixo aqueles verdes, cheio de interrogação no ver.
Porque me paraste? Perguntou-me o rio
Eu?
Sim tu!
Mas eu não te parei, tu corres, bem sabes que corres para o mar. Oiço-te. Por debaixo dessa tua pele verde, opaca, corres…
Ouves, mas não me vês. Deixaste de me olhar quando me roubaste o verde e o levaste contigo. Levaste-o todo, só para ti e desinteressaste-te de mim. Quero maravilhar-te com outros verdes.
Não! Eu gosto dos teus verdes, os teus verdes são os das tuas árvores, das tuas águas, da tua luz! É dos teus verdes que eu gosto!

Se gostas tanto dos meus verdes, porque deixaste de te maravilhar comigo?
Porque dizes isso?

Porque passas por mim, já com todos os verdes no teu olhar e não deste conta da minha tristeza, por sentir que sou apenas a tua paisagem…

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...