14 setembro 2004

deambulações de uma bailarina

Há uma bailarina linda, que esvoaça em dança sem parar. É musica que enfeitiça o desenho do artista, que pinta e repinta a bailarina a dançar...
É dançarina, sem lágrima, quem chora é o trompete, o violino que tocam som fino, quase hino, à dançarina menina que dança sem parar.
Os olhos que brilham, que saltitam, maravilham e ensinam, o pintor a cantar...

13 setembro 2004

viagens

Há um barco que me leva,
sem vento…
Rema,
Navega, entre neblinas coloridas de aguarela,
vou, em voo lento,
à janela.
Permaneço,
em movimento,
de luz-vela
sem tormento…

Continuidades...

"há um barco que me leva ao assassino das horas,navega, rente à noite e o silêncio chega para me manter acordada. "
Cláudia Ferreira

10 setembro 2004

lágrima-memória

Há um choro que me canta e embala no longe.
Sem tempo, no tempo.
Ergue-se gigante em luz-deserto, sem vento, sem dunas a um canto que me recorda.
Ecoa em oração de monge, que abala e acorda.
Oiço-a no fundo, ao fundo num quase azul suspenso que escorre em lamúria.
Som de mim sem fim.
Labirinto-muro, em fúria, de onda, de espuma que esfuma, branca, jasmim.
Há uma lágrima na memória que me sorri em abandono, esquecida que encanta e me chama e me sopra.
Não me diz, é memória sem história, por isso canta, por isso ri.
O desenho que se espalha, cor de palha, é palhaço.
Roto, cor de aço-vermelho-baço.
Ri, de mim a brincar com as palavras, triste por ti, que não me olhas, não me vês porque parti!

09 setembro 2004

percepções

Há um farol à beira da minha noite que me assinala a presença do Mundo.
Aguarda-me em silêncio de sombra e segreda-me os invisíveis que me rodeiam sem cores. Sem ele não sentia os passos, sem ele era só eu.


08 setembro 2004

folha de papel

Tenho uma única folha branca, estaticamente branca que me desafia, porque única, porque ultima.
Interrogo-me intimidado pelo poder ilimitado que detenho, sobre esta folha que quase me cega de luz.
Pode ser universo, mundo fantástico, desenho qualquer, sorriso ou lágrima. Pode ser quadro, abraço, avião, pássaro, nuvem ou mar. Pode nascer palhaço, criança, sorriso ou estilhaço. Não me decido.
Tenho um lápis lilás, uma paleta de cores fortes e uns olhos atrevidos, ávidos de impaciência à espera que o papel se transforme em vida.
Olho o vazio à procura de um sinal, de uma palavra que o movimente, que o torne imprescindível ao olhar que o devora.
O horizonte esconde-se. Não me segreda, não me sussurra, nenhuma palavra mágica, nenhuma cor , nenhuma fantasia. Esqueço o horizonte, afago a folha e pergunto-lhe: O que queres que te faça? De que emoção te queres vestir? Quero que me deixes tal qual, carrego comigo toda a emoção do teu vazio…

07 setembro 2004

recordações

Papá, uma rosa, cheira a rosa, uma tulipa, cheira a uma tulipa, um malmequer a um malmequer. Reconheço cada flor, pelo seu perfume.
Estás sempre a dizer que uma mulher é uma flor, mas eu não sei a que cheira uma mulher! Cheiram sempre a perfumes diferentes, com nomes que não sei dizer...

06 setembro 2004

cor de árvore

Em menino pintei uma árvore ENORME, do tamanho do papel que me calhou em sorte, com lápis de cera vermelho-sangue.
Um lápis inteiro, do tamanho da árvore que me cabia no olhar.
A professora perguntou-me o que era, fiquei muito corado e disse: É uma árvore cheia de vergonha..."
Hoje quando me avermelho, sinto-me árvore, do tamanho de um lápis de cera...
(É o que dá em brincar em menino com lápis de cera cor de vermelho-sangue)

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...