03 outubro 2004

sermão de um pai, triste...

Pai, porque estás tão zangado comigo, se sempre que precisaste estive contigo? Porque não me olhas?
Não estou zangado, filho. Não te olho porque estou triste.
Triste? Porquê?
É verdade que estiveste presente, sempre que precisei de ti ou de alguém...
Estou triste porque nunca me deixaste estar presente, quando tu precisaste de mim e o amor, filho, para ser pleno, partilha-se…

02 outubro 2004

um quadro, o meu, de hoje...

Com as cinzas do dia, pintei um quadro. Uma enorme tela com traços a carvão. Uma tela cheia de sombras entre o negro e o cinza-prata. Imaginem um rio de manhã fria com o vale coberto de bruma e céu pesado, agora acrescentem chuva, daquela que se avista ao longe e que parece pinceladas de Van-Gogh, mas sem cor. Depois entretive-me a polvilhar o quadro com números, desenhados, muitos, variados, tombados, deitados, minúsculos, quase brancos, negros profundos, deformados. Sempre cinza-bruma, da cor do meu nevoeiro. Salientei uma ou outra sombra, um ou outro relevo. Pontos de fuga muitos. Escondidos pelos números. Do lado esquerdo em pormenor, esbocei em desenho quase técnico um sistema de roldanas denteadas, mecânicas. Humanas. Afastei-me do quadro. Senti-lhe o cheiro de floresta queimada. Quase ouvi o choro de um crispar em silêncios dos cinzentos, das cinzas. Ente o “UM”, quase negro, quase deitado, e o “SETE” que se debruçava em “S” por cima de um TRÊS, agarrei num verde-verde e desenhei um folha a desabrochar do cinza. Sorri. Não era o verde que era belo no meio das sombras, era a VIDA que atropelava a morte e o Homem…

01 outubro 2004

30 setembro 2004

ah...

Tenho em mim uma dor...
não se extingue,
não se vê.
Tentáculo de um nada
que se passeia túmulo que se finge...
Desenho inacabado,
esfinge,
cume de areia,
pedra
que serpenteia,
em terra podre,
feia.
Torre de castelo,
ameia.
Ah se eu fosse eu,
sem esta névoa,
sem esta teia,
era flor
que se passeia,
levado por colibris,
em abraço,
que navega,
barco,
no arco-íris

Ah se eu fosse,
simplesmente eu…

29 setembro 2004

hoje foram as palavras que se escreveram…

Não gosto de cores puras.
Ferem-me a harmonia. A minha, que a dos outros não sei, “cada um tem a sua e cada uma é bela para cada um” (as palavras que deixem de brincar comigo e de se escreverem sozinhas, por favor. Não me tem respeito algum! Quando quero desenhar um pensamento tomam-me o pulso e saltam-me do olhar sem me pedir licença. Não é justo).
Quando uma (cor) me risca o olhar, imagino-lhe matizes, misturas, transparências, transições, chego a fantasiar-lhes movimentos e sons, leves, híbridos, difusos.
As cores, as musicas, os movimentos, as formas (os plurais são evitáveis, é verdade, mas eu tenho tantos de cada um, no olhar…) dizem-me sentimento.
Provocam-me sentires vários.
Autênticos.
(gostava de sublinhar, “Puros”, mas depois ia repetir em demasia o conceito e a ideia que quero transmitir, para obrigar o leitor a reler e a repensar o escrito, por isso não o digo. Penso-o, só, Puros!).
Os sentimentos são pessoas.
Uma e todas, individualmente.
Cada uma é um universo de sentimentos…
Gosto de pessoas de olhares puros!
Sou incoerentemente esquisito! ( a culpa é das palavras que me desassossegam e correm à minha frente, parecem crianças no recreio, cheias de coloridos pintados de risos)

28 setembro 2004

violino-barco

Oiço um violino-que-me-chora, a sorrir. Funde-se suave no que me voa e canta palavras-som que se vivem sozinhas. Liberta palavras-cor que me levam o Tempo. O meu. Só. É violino-onda, que me navega na alma. Oiço um violino que me acalma. Prece de mãe que embala, filho que vê partir. É violino-barco que me chora, que me leva, sem mentir...

27 setembro 2004

as minhas sombras

Estremeço com o olhar que me perde,

ando à deriva, em mim,
mineiro sem luz,
sem sombra, nem negros,
corro em caminhos sem fim,
traços esguios, em cruz,
gigantes, cedros,
aqui,
muros,
ali,
escuros…

a minha escuridão pinta-se verde,
sozinha,
em mim…

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...