06 outubro 2004

búzio

Oiço um bailado veloz que se transforma em sentimento e derrama em palavras.
Passeia-se entre o ver e o sentir.
Provocante.
Chama-me em desafio, em aventura, no desconhecido,
a sós.
Sinto,
o bailado em sons de flauta e vejo-te,
bailarina,
linda,
rosa-transparente,
a olhar futuro,
em frente.
Quem és tu que se imagina dentro de mim e dança em palavras, como desenho que se pinta sozinho?
Ora és flor, ora és mulher, ora és imagem difusa que voa gaivota com perfumes de mar.
És som do búzio,
(que me ofereceram em palavras e se transformou), real,
grande,
branco-coral,
em som de encantar…
Oiço poema que se canta,
sem voz nem rosto e esvoaça, no meu sonho, no meu olhar.
É uma fada, sem magia,
pintada de fantasia, que diz, baixinho,
não sonhes,
criança…

Resisto,
vejo-a,
dança sem parar,
ora branca,
ora rosa a voar e a cantar.
Mergulho no búzio (que me deram para brincar) e oiço sozinho o mar,
a voar,

não desisto...

05 outubro 2004

o meu vermelho

Gosto de papoilas do campo, não é novidade. Ninguém fica indiferente à intensidade da sua cor e à sua fragilidade. É a imagem materializada da sensibilidade. Hoje , neste Outono de cores várias, húmidas, acordei com a imagem de uma seara Horizonte-trigo, de amarelos torrados, matizados pelo vento. O céu azul-naif, intenso. Perto do horizonte, um único e solitário vermelho seda, cheio de autoridade a captar todo o olhar do universo. Era a minha papoila…

oportunidade(s)

O desentendimento, é apenas um olhar visto de um ponto que julgavamos não existir. É por isso, uma oportunidade para a descoberta.
Vou estar atento aos meus desentendimentos e dar-lhes cor...

03 outubro 2004

sermão de um pai, triste...

Pai, porque estás tão zangado comigo, se sempre que precisaste estive contigo? Porque não me olhas?
Não estou zangado, filho. Não te olho porque estou triste.
Triste? Porquê?
É verdade que estiveste presente, sempre que precisei de ti ou de alguém...
Estou triste porque nunca me deixaste estar presente, quando tu precisaste de mim e o amor, filho, para ser pleno, partilha-se…

02 outubro 2004

um quadro, o meu, de hoje...

Com as cinzas do dia, pintei um quadro. Uma enorme tela com traços a carvão. Uma tela cheia de sombras entre o negro e o cinza-prata. Imaginem um rio de manhã fria com o vale coberto de bruma e céu pesado, agora acrescentem chuva, daquela que se avista ao longe e que parece pinceladas de Van-Gogh, mas sem cor. Depois entretive-me a polvilhar o quadro com números, desenhados, muitos, variados, tombados, deitados, minúsculos, quase brancos, negros profundos, deformados. Sempre cinza-bruma, da cor do meu nevoeiro. Salientei uma ou outra sombra, um ou outro relevo. Pontos de fuga muitos. Escondidos pelos números. Do lado esquerdo em pormenor, esbocei em desenho quase técnico um sistema de roldanas denteadas, mecânicas. Humanas. Afastei-me do quadro. Senti-lhe o cheiro de floresta queimada. Quase ouvi o choro de um crispar em silêncios dos cinzentos, das cinzas. Ente o “UM”, quase negro, quase deitado, e o “SETE” que se debruçava em “S” por cima de um TRÊS, agarrei num verde-verde e desenhei um folha a desabrochar do cinza. Sorri. Não era o verde que era belo no meio das sombras, era a VIDA que atropelava a morte e o Homem…

01 outubro 2004

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...