12 outubro 2004

tu eras...

Tu eras espelho que me reflectia a dor,
gota
a
gota,
sem cor…

Tu eras a imagem que não me via
e
tempo
no
tempo,
derretia…

Eras chuva de pedra,
negra
usada,
vazia…
Agora,
és,
sopro de vento,
parado,
ausente,
lento…

11 outubro 2004

palavras sugadas...

Quando os dias nos invadem e nos sugam o tempo, resta-nos vasculhar a imaginação numa espécie de malabarismo bi-existencial, para escrever uma ou outra palavra que nos salve o dia. Não tive outra alternativa se não retirar o escrito do já dito noutros espaços. Palavras que fui deixando no nocturnidade escritas por impulso e em dialogo. Reacções de palavras, a palavras. Sentires do lido, escrito por alguém que se esconde no escuro e o transforma em grito-poema. Ressurgem agora isoladas, desgarradas desse espaço. Incompletas, mas aqui ficam com um agradecimento à Cláudia que as inspirou:

Não me perco nas grutas, porque as sei cavernas, escuras de luz,
sem alma.
Não me perco,
não me encontro,
não me procuro.
Sou cenário sem sombra.
Como nuvem,
como chuva,
voo,
em queda,
não agarro,
não prendo.
Caio,
só,
sem me levar…
Mergulho na vida,
e
arrasto-a,
comigo…
Todos calam,
ouvem-me os gritos,
silenciam-se no negro,
aflitos.
Fingem que não vêem,
mas sinto-os.
Pegam-me,
devoram-me,
estilhaçam-me,
sem asas,
no lixo.

Burros,
imbecis!

Ah se soubessem as cores que o lixo tem!

Sem odores,
pinto-os,
prostitutos,
podres,
sangue-cor,
ocres…

Rio-me, palhaço,
Em azuis-jasmim-aço.

Caio,
mergulho,
em abismo,
mas sei-Me,
sou-Me
sozinho,

contigo…

10 outubro 2004

gavetas esquecidas

Não sei se é influência da Inconformada ou não, mas hoje ao som de uma chuva que canta sem piano, mas que encanta em voz de embalar, fui às minhas gavetas, onde guardo pequenas colecções de outros pequenos nadas. Debaixo do forro escondiam-se algumas folhas manuscritas de mim, de anos outros, sem ordem mas datadas. Diz quem escreveu serem sentires de 1985 a 1997. Poucos, não mais que meia dúzia porque os que se escreviam com ordem, desapareceram, mas isso é história que não quero recordar. Peguei num que datava de Setembro de 85, mas que me levou algures para os anos sessenta. Li, o que se escreveu, assim:

Quando era pequeno tinha um urso de peluche. Era criança. Todas as crianças têm um peluche. Era o meu refúgio. Era a ele que confessava os meus medos, as minhas angústias, as minhas lágrimas. Quando os olhos se riam, ele ficava por ali caído, junto à cama, sempre disponível para me dar conforto nas noites escuras de pesadelo.
Hoje é apenas uma recordação. Consumi-o até já não ter olhos, braços ou pernas. Quando a palha do seu corpo lhe trespassou a pele passou a incomodar-me. Deitei-o no lixo, assim sem mais, sem despedida nem nada. Estava longe de imaginar que um dia me sentiria urso de peluche. Como se deve ter sentido triste o meu urso…

Que raio de jeito, tenho eu, que não há meio de me entender com o Mundo.
Queria poder fechar os olhos, inventar-me, viver com um sorriso na alma e afastar de vez esta constante tristeza de me sentir só.
Lembro-me de um dia com seis anos chamar o meu pai ao quarto, fechar a porta e pedir-lhe para se sentar na minha cama. Tinha uma coisa muito importante para lhe dizer. Senti-me muito importante e muito senhor da minha verdade. Solenemente disse-lhe: “ Pai! Hoje morri,….e amanhã também!!” O silêncio que se seguiu , ainda hoje o sinto. Estava à espera de um abraço, um conforto, um beijo. Ouvi “ Tenho muita pena, meu filho”. Ali fiquei, sozinho com a minha verdade. Nesse dia apertei o meu urso com muita força.
Já não tenho urso para abraçar e por aqui ando escondido nos meus caminhos, a tropeçar nas minhas pedras de olhos bem abertos, como quem se perdeu e não sabe que direcção tomar…

09 outubro 2004

se

o "se" é uma palavra amarga.
Dita ou sentida, implica aceitar que o sonho morreu, ou ficou a olhar as nossas costas...
O "se", é uma palavra perdida, que nos procura enganar...

07 outubro 2004

a revolta da cores

Bateram à porta, que entreabriram, sem esperar resposta. Envergonhadas, de olhos baixos, um conjunto de cores invadiram-me o espaço.
Podemos? Questionaram depois de me verem os olhos a perguntarem em silêncio de espanto, o que faziam todas aquelas cores no meu quarto, no meio do livro que se partilhava comigo. Que foi que aconteceu? Pergunto, agora de voz, meio sumida, não fosse assustá-las.
Vimos pedir a tua atenção!
A minha atenção? Como?
Queremos justiça, queremos ser tratadas todas da mesma maneira, afinal somos todas cores…
Não estou a entender, podem explicar-se melhor?
Não estamos a pedir que nos uses a todas, não é isso, o que queremos é ser todas importantes para ti…
Mas são todas importantes. É verdade que as uso com intensidades diferentes, mas sabem melhor do que eu que as cores que uso tem um pouco de cada uma de vós…
Mas quando nos dizes, nas palavras, não nos tratas de igual para igual…
Como não? Exclamo, em perfeito estado de admiração e de indignação!
Quando falas da Rosa dizes Cor-de-rosa, mas se dizes verde, não escreves Cor-de-verde, nem Cor-de-azul. Queremos ser todas Cor-de-Ti…
Fiquei quase mudo, quase estático, impressionado pelas cores, eu que nunca fui impressionista…
Prometes? Promete, promete, somos tão tuas amigas…
Prometo, com uma condição.
Qual? Qual?
Que não se zanguem com a rosa…

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...