19 outubro 2004

um dia alfaiate com olhos de mostrengo

O dia parou de repente (naquela precisa hora, naquele instante em que nos distraímos do existir) e debruçou-se, inteiro diante mim. Tinha olhos gigantes, cheio de “interrogares”.
Fingi-me formiga-caracol, em silêncios de respirar…
Mas era teimoso este dia.
Agarrou-me, louco, zangado, autoritário,determinado e vestiu-me com todas as cores do Eu que tinha escolhido para mim .
Com o mesmo repente, desamarrou-me no tempo.
Fui, sem perguntas, pelas ruas que ele pintou para mim, recheado de "decidires"

18 outubro 2004

porto de abrigo

Hoje estou sem horizontes, sem azuis nem mar.
Caiu em mim uma tempestade inquieta, cheia de ventos e folhas a voar. Sinto o frio de um vazio que me envolveu a alma. O desenho parou. A bailarina chorou sem movimento. O marinheiro-gaivota-saltimbanco-vagabundo, olhou os negros-cinza, em sentires de recuar e virou-se para o céu em conversas íntimas, cheias de acreditares.
Hoje perdi o mar e os azuis.
Sou todo navegar, sem destino, abraçado na tempestade, à procura de um porto de abrigo…

17 outubro 2004

só no sonho o tempo pára...

O céu parou junto à minha janela.
Imóvel.
Quando o céu pára de frente ao nosso olhar deve querer dizer-nos alguma coisa.
Por isso parei a ouvi-lo.
Esperei um sinal, uma cor a transformar-se, a viver-se no movimento de um sopro...
Imóveis,
estáticos,
eu e o céu,
a respirar-nos.
Só se ouvia o tempo, a sorrir-nos, em eco, “eu só paro no sonho”.
Foi então que percebi que o céu não parou na minha janela para eu lhe ouvir os silêncios, nem para me oferecer as cores.
Parou simplesmente porque resolveu pôr-se a sonhar…

15 outubro 2004

quando as palavras se cansam e não sabem dizer, cumplicidade...

Queria escrever-te, mas as palavras fogem-me, como se me dissessem, “Agora não! Espera que venham outras de nós, com outros sentires, Espera. Não te precipites. Nós hoje já estamos muito cansadas…”
Queria contar-te todas as histórias que me fizeram o dia. Queria dar-te o meu dia, para me veres inteiro e entenderes o porquê do meu vazio…
Talvez elas tenham razão, talvez as tenha usado em demasia. São muito vaidosas as minhas palavras, pintam-se todos os dias. Sabias?

Vou esperar…
Não!
Esperar não!
Vou visitar-te!

Assim, ao veres-me, saberás todos os passos que me levaram o dia, porque as palavras de todas as histórias que te tenho para contar, estão todas no meu olhar…

14 outubro 2004

tatuagem de olhares, gravada no sentir

Hoje sou tatuagem do olhar, cada linha de luz é cor, agulha sem dor que se dança na aragem, em formas de mãos que se dançam em sorrisos violeta-sépia. Dançam sozinhas, sem dançarina que se escondeu na cor.

(escondeu-se de propósito, em passos rápidos, "flamencos", só para a não esquecer )

13 outubro 2004

outra vez os azuis, mas desta vez, fora de prazo…

Os azuis têm esta tendência de se colarem ás (minhas) palavras, numa espécie de tentativa de fuga ao Outono, contrariando, em desafio, o meu (Outono), que tem castanhos de se perderem no olhar.
Derramam-se nas palavras, como se fossem um tinteiro endiabrado...(Até o meu “diabo” se veste de azuis. Devo estar com uma doença qualquer no olhar, ou no sonho que me invade de azuis…)


Tinha um quadro só de azuis com um barco na parede-muro-creme que me enfeita o quarto.
Abri a janela e voou (o barco, não o quadro, que ficou, a rir-se, em gozo de palhaço, em sussurros cínicos).
Fiquei a olhá-lo( o barco, não o quadro, repito, ainda incrédulo) em angústia, triste, desiludido.
Tínhamos prometido que nenhum de nós partiria sem o outro.
Certamente os azuis estavam estragados, porque os meus azuis só voam comigo todo lá dentro…

12 outubro 2004

um beijo

Um beijo, um simples beijo é uma ponte que une margens de um rio de vida. Ponte que une corpos que se dissolvem, se prendem em voo de pássaro. O beijo é uma rua, sem mapa, sem sentido, é uma porta, um abraço.
Não me peças para esquecer, porque já não sou eu, sou o olhar que voa,
na cidade,
na rua,
no corpo que é teu…

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...