04 novembro 2004

caroço de laranja

Hoje senti-me laranja.
Espremida.
Livro, sem letras, nem palavras, nem desenho.
Oco.
Negro.
Esquecido do olhar, dos sinais que me envolvem o ser.
Hoje não caminhei.
Andei sem passos, sem tempo nem cor.
Esvaí, gota a gota o sumo da alma que me habita o eu.
Ficaram as sementes, caroços largados por aí, sedentos de terra.

Hoje, quando o sol estiver laranja, vou PLANTAR-ME!

03 novembro 2004

tambores

Oiço batuques ao longe, em danças de vento que me sopram cicios de África.
Vêem em gritos de chuva, num toque, toque baço, ritmado em galope de Impala.
Navego em barco-à-vela-de-capulana num cinzento que se pinta em tempestade. Cheiro, a terra quente, que cavalgo em pacaça-alada, deselegante, pesada.
Confundo-me, difuso, na savana de terras-sangue, em letras-palavras que me levam a liberdade.
Estou sem conto, num encanto a um canto, perdido entre ventos e vontades que cantam, ao som do batuque, num toque, toque, a galope, num golpe de asa que me foge, em cartas abertas, sem olhares, nem envelope…

02 novembro 2004

Interiorizações para as quais não se pensam explicações…

Não é um nada, muito menos um vazio, é coisa estranha que se encontra entre o olhar e o sentir.
Movimenta-se, insinua-se numa permanência suave que aquece, mas inibe a imaginação.
Não lhe sei corpo, nem cor.
Visita-me em abraços que se sentem na fantasia de um conto sem história ( não há história quando não existe caminho).
Andei por aí com uma presença translúcida de mim, em conversa sossegada sem olhar o Tempo. Tinha-o, todo meu…
Quando mergulho d’alma neste Mundo bizarro, sem caminhos, que me fala, só o Tempo é meu, o mais de mim foge-me e leva-me com o olhar…
Detive-me num muro que se erguia alto-céu e percebi-me anão-formiga, num labirinto que se passeava no meu caminho a fingir-se destino.
Pintei-o todo de castalheiro-velho-a-brilhar-Outonos e subi-o…

29 outubro 2004

no país onde há folhas que insistem em ser verdes, mesmo no outono

Sento-me no olhar.
À espera de um nada.
Transformo os sons que me envolvem o dia, em cores com odores de canela.
Pinto o vento e a chuva.
Parado no tempo, sem espaço, num ponto do Universo.
Hoje sou sombra-de-colibri, personagem de uma história de fantasia, num mundo onde a luz e as cores nos falam a sorrir, escondido debaixo de uma folha que insiste em ser verde, maravilhado com o sentir.

28 outubro 2004

borboleta

Trago-te esvoaçada,
irrequieta,
a voar em mim.
Borboleta-leque, alada,
em traços branco-rubro-jasmim.
Círculos que se dançam e me tocam em cores de giz,
cantas em vento, um segredo
que me diz,
“sou borboleta-flor, vem, não tenhas medo,
estou aqui”…

27 outubro 2004

cores silvestres

Agarrei em três cores do campo, silvestres, e espalhei-as no olhar, violeta-amora, azul-papiro e amarelo-sol, desenhei um circo, sem vermelhos, sem palhaços, sem sombras. Era a equilibrista que me fascinava o desenho e que se movimentava sozinha nas cores. Estendia-me as mãos, em abraço colorido a assobiar sussurros em ventos leves “vem, vem”…
Não fui, mas pintei…

26 outubro 2004

boneca de porcelana

Descido em terras outras, de sentidos vários, únicos, desenho sonho de amêndoas doces.
Pinto, leve, na alma, os olhos. Dela. Flor de lótus.
No ar, ao vento, na brisa, os cabelos. Negros de china com tintas e pincel de olhares.
Boneca de porcelana em dança com o Universo, no chão, na terra, no tapete-verde-bambu, longínqua, em mim.
Dança de branco, de negro, linda, distante, desenhando na alma movimentos de brisa, de bambu, verde-oriente, sozinha, com corpo de setim.
Desenho-te, os olhos-de-amendoas-doces em movimentos de vida, que me saltam do papel-arroz e voam...

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...