26 novembro 2004

significações abstractas do sentir

O amor é coisa simples, não é possuir ou ser possuído, é carinho, é beijo, suave, sem dor, não é verso, nem flor, é brisa que passa, que nos olha e nos transforma em cor.
Amor é coisa simples, é carícia, é palavra, é gesto, acto, apoio, não é meu, nem teu, é nosso.

Amor é sentir, que já não sou eu...

25 novembro 2004

vermelho, do meu...

Gosto do vermelho, mas não por inteiro.
Aliás não gosto de cores inteiras.
Quando misturado com amarelos mergulho no meu vermelho-campo-que-se-sente-mar-ao-fim-do-dia. Misturo os amarelos para lhe dar um matiz de luz-do-olhar.
É assim quase todos os dias.
Só quando me zango com o sentir, uso as cores vivas.
Com raiva e traços únicos.
Precisos.
Cheios de ir.
É nesses dias que uso vermelho. De sangue, do meu, que se dilui em sal-de-lágrima, mas só depois do desenho…

24 novembro 2004

escultor sem pedra

Agarrei numa lágrima, com todo o cuidado para a esculpir, queria dar-lhe outro sentir, mas era endiabrada, esta minha lágrima.
Sem me olhar escapou-me da mão, a fugir…

23 novembro 2004

folha de outono, em forma de palavra

Como uma folha de Outono, desceu suave.
Uma palavra.
Numa dança de cores, leve, lentamente leve.
Uma única palavra.
Simples.
Daquelas palavras que escondemos, não vá o uso desfazê-la.
Como uma folha de Outono, quente, desceu em forma de beijo e de abraço.
Veio.
Caída, em voo cantado.
Sem ventos.
Encantada, a desenhar um quase horizonte.
Não lhe pude fugir e sorri-me todo em tons de Outono, maravilhado…

naufrago

Sinto em mim um navegar sem sentido.
É um retrato em que me repito no dizer.
Sei que vou sem velas nem direcção. Só que hoje vou sem vontade nem ventos.
Estranho de mim.
Saí do retrato e da cor.
Uma espécie de sombra sépia que não devia ali estar, mas que se desfoca num riso louco, demente.
Sou uma quase ausência, deambulando no existir.
Gostava de ter outro em mim, menos triste, todo colorido de ondas-espuma-ao-por-do sol. Mas sou navegante sem barco, sem onda, nem vela.
Naufrago de mim, em galope torpe, em golpe de mar, sem fim…

22 novembro 2004

ecos que choram em desespero

Lembro-me de um dia ter gritado a quem me olhava cheio de interrogação e duvida, “ Não me inventem o Eu!”…
Hoje, grito-me com os mesmos sons, num repetir cheio de angustia e desespero, “ Não me inventem, deixem-me simplesmente ser Mar…”

21 novembro 2004

noite(s)

De noite transportamos os nossos vazios. Pesados, guardados no olhar.
Não os vemos, só os sentimos. Moldam-nos o dia que se esconde na fantasia de ser ainda, apenas um esboço.
Um dia pinto a noite. Preencho-a toda até transbordar, com as cores de um sonho que se desenhou de dia.

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...