07 dezembro 2004

um pedra cheia de querer

Engracei com uma pedra. Não pela cor, nem pela forma, mas por estar ali no meio do meu andar.
Olhei-a, em conversa (daquelas conversas que temos com todas as coisas que nos entram no olhar e ali ficam a provocar-nos, seja pedra, rio, nuvem, quadro, flor ou coisas outras), mas ela mandou-me seguir caminho.
O meu parar incomodava-a “ Sai! Sai da frente! Sai! Não ouves?” Repetiu-se em soluços simpáticos mas insistentes.
Fiquei intrigado, porque não a imaginava com olhar. Pedra que é pedra, não tem frente nem costas quanto mais “olhar”.
Fui. Na volta tornei a vê-la e parei-me provocador, mas não me disse nada.
Sonhei”, pensei “ lá estás tu com as tuas histórias”, disse-me. Fui com toda a intenção de ir, mas fui interrompido por um sussurro, “Espera! Fica aqui comigo! Preciso de ti!”. “Para quê? Porquê?”,Cansei-me de ser pedra! De manhã quando passaste por mim, estava a olhar para aquela papoila, aquela que ali está, a olhar para mim. Quero que me transformes em papoila!”, “Mas tu nunca serás uma papoila! Serás sempre uma pedra!”,Tu também já foste menino e agora és homem, porque razão não posso ser papoila?”

Agarrei nela e esculpi-a, papoila…

O sol encarregou-se de lhe dar cor…

06 dezembro 2004

aguadas

A sombra pesa-me no olhar.
Transpareço-me em aguarela, de aguada em aguada. Esquisso de mim que persiste em esmagar-me a cor.
Segue-me, escura, pesadamente fina, em película de terra negra, suja…
Agarro-a!
Estendo-a ao sol!
Gargalho-a com humilhação no rir libertino, ao vê-la evaporar-se, leve, numa nuvem descolorida em fuga desencontrada, para o mar…

Os comentários lidos até ao momento deixaram-me preocupado com o sentido e o (des) sentido que as palavras tomaram.
Não é a primeira vez e não será certamente a última, que elas (palavras) me fogem do sentido, do meu. Por isso gosto tanto delas.

Expliquemos então o escrito, como foi sentido no instante em que tomou forma:

Acordei confuso, com se uma sombra me retirasse o olhar, o entendimento. Coisa normal, quando se acorda cedo e se dormiu pouco. (A sombra pesa-me no olhar).
Tentei entender-me, descobrir a causa (daí o translúcido) quanto mais transparente menor é a sombra que se projecta, quanto maior for o entendimento menor será a sombra. Como sou homem das cores imaginei que essa clareza pudesse ser representada por cores de aguarela, normalmente mais claras, logo mais translúcidas. De aguada em aguada, representa as várias tentativas de aclarar as cores.
O esquisso de mim, é o esboço que a sombra reflecte no chão ou na parede, não é relevante, só falo no chão por causa do dito seguinte. Escrevo que mesmo assim, o raio da sombra me persegue e sombra que se preze, esconde (esmaga) a cor. ( a ideia do texto foi a de dar peso à sombra, que obviamente não o tem, pelo menos mensurável)
“Segue-me pesadamente fina”, não necessita de explicação, aqui as palavras ficaram agarradas ao seu significado.
A película de terra suja, é a imagem que tenho da sombra, e como de seguida a vou pegar, tive que previamente a transformar em película. Terra suja, é só para acentuar o escuro da sombra.
Estendo-a ao sol. Foi o que fiz. Quando se lava a roupa põe-se a secar.
A imagem e o acto, deu-me vontade de rir. Um rir libertino, porque libertador. (hoje a palavra”libertino” e o sentir associado não me largaram o olhar depois da sombra partir) Já imaginaram a vossa sombra pendurada num fio a secar???? Eu ri-me até ela se sentir humilhada, porque o riso teve a arte de a fazer desaparecer. Evaporou-se e pronto.
Quando há vapor há nuvem e esta de tantas tentativas que teve minhas para se descolorir ficou assim mesmo, descolorida. Para o mar vão e vem, as nuvens…
Posto desta forma, já não há mais explicações a não ser o porquê de me sentir assim libertino, mas isso não explico, é só meu…

02 dezembro 2004

a estrela

Ouvi uma melodia que me abraçou, entrou suave e tomou conta de mim.
Vinha de uma estrela que atrevida aprendeu a tocar guitarra só para me encantar.
Ainda lá está, a sorrir-me.
Será que ela sabe que a vejo e oiço, aqui de longe e que os meus lápis dançaram uma história em aguarelas só para ela?
Talvez não saiba, o melhor mesmo é ir dizer-lhe…

01 dezembro 2004

o muro

Há um muro que me persegue, que se julga senhor dos meus labirintos.
Não tem sorte este muro que de tanto me acompanhar, é o meu muro. Sabe ele que voo, que lhe abro janelas, mas ele insiste tanto em me empurrar com a sua sombra que foi com ele que aprendi a ser teimoso.
Só hoje percebi que o muro é afinal, a linha do meu caminho. De um lado está a realidade do sentir, do outro a do olhar…
A gaivota leva-me de um ao outro lado do muro, mas o caminho que me levam os passos, esse é o muro que construo.
Por isso gosto tanto do Mar. É aí que o sentir e o olhar se fundem, numa espécie de sonho que se vive sem voar…
O muro, esse, é vulgar. Não é mostrengo, nem formiga, nem poeta, nem Quixote, é um muro de tijolo-pedra que se estende devagar…

30 novembro 2004

como uma pedra escondida no Rio...

Sou o que me resta do sentir, um reflexo de mim mergulhado, quase pedra, em água de rio que se (des) ondula em aguarelas que se fingem cor, (des) centradas do existir...

29 novembro 2004

quando...

“Quando as aves morrerem, aprenderei a voar…”

Entrou um mim, sem aviso nem arauto, esta necessidade-vulcão, quase vida, de percorrer o espaço que se esconde no olhar, livre de passos, de caminho e de amarras.
Mas estou aqui.
Aqui, neste exacto instante, imóvel no Ser, preso no Eu, sem dar um passo, com o olhar enterrado, a desenhar o que sinto e não sei.
Preso, nos passos não dados, imutável na ausência a (des) sentir…
Resta-me tentar impedir que as aves morram e pedir-lhes que me levem o Olhar no seu voar, determinadas no ir…

27 novembro 2004

estante

Desenhei uma estante, esguia.
Escolhi o ponto de fuga, levemente ao centro. Traços verticais, primeiro (nada se faz sem arrimo, mesmo uma estante, esguia), depois os horizontes. Sete (é um gosto que tenho)! Uma estante com sete horizontes, portanto. Depois as janelas, (outro grado que tenho, poder espreitar e ver, mesmo que através de uma estante de sete horizontes). Finalmente os livros (é de livros a minha estante, outro prazer, meu). Livros, de histórias escritas, misturados por todos os horizontes, uns juntos aos prumos, outros, a desenharem janelas. Depois de tudo distribuído, tudo muito bem desenhado e colorido, sentei-me a imaginar os livros que ainda ali não estavam, e as histórias que a minha estante ainda tinha para contar.
Não cabiam.
Andavam a voar, aqui e ali, entre os horizontes, à procura das cores para se pintarem…

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...