19 dezembro 2004

chuva num campo de papoilas



Hoje passeei-me num campo de papoilas, que nasceram à chuva só para me olharem...
Ficaram assim, desta forma a sorrirem-se para uma gaivota que resolveu voar...

17 dezembro 2004

dá-me um sorriso...

Dá-me um sorriso” ouvi em eco de longe, como quem pede “pinta-me um quadro, de azul, preciso de azul, do teu azul…
Fiquei com as palavras a saltitar-me no sentir, agarrei nas cores e nos lápis, coloquei-me frente ao espelho e desenhei-o. Primeiro a base, depois o esboço e finalmente as cores (poucas que o tempo é de crise).
Houve momentos subtis no pintar, em que cheguei a fechar-me no olhar à procura do sentir. Foram esses momentos que salvaram a pintura.
Quando (re) olhei , lá estava o sorriso...Discreto, é verdade, só não era azul…

15 dezembro 2004


Esperas, sem angustia.
Perdeste tudo, até a dor.
As horas, desfazem-se no tempo que te foge, sem gritos. Sem os teus gritos, que és menino sem voz.
Longe da humanidade, sem memória, sem passos nem caminhos, esperas, o nada.
Olhas, o desespero de teres perdido o sentir que mendigas, sem existires.
Já não és nada, nem numero, és buraco negro, indiferente, sem cor nem passos.
Roubaram-te o caminho, espezinharam-te a alma, mas continuas aí vazio sem nada, à espera. Nem a morte te quer, porque a morte só deseja a vida.
Hoje o meu dia, é teu, sou o teu grito, o teu vazio o teu nada...
Não tenho presépio, nem palha.
Espero.
Olho.
Estou ao teu lado, sem grito, vazio, pintado de vergonha e de cara tapada...

14 dezembro 2004

saber não ser...

Tentei desesperado desenhar uma flor que não queria existir. Fugia-me do lápis em gota de aguarela, envergonhada.
Escondia-se em cada pedaço do olhar que a inventava, triste, desfragmentada.
Não me desenhes, se não me sentes, se não me ouves, se não me cheiras. Não basta que me saibas a cor, disse-me baixinho para não me envergonhar nem me fazer sentir dor.
Como era linda, a cor daquela flor…

13 dezembro 2004

não fosse aquele menino…

Passei por um circo saltimbanco, sem palhaços, leões ou malabaristas.
Erguia-se numa tenda enorme cheia de coloridos e de fanfarras.
Era um fantasma de mim, vazio, sem nada.
Ah, mas tinha uma bailarina linda, que dançava sozinha, parecia saída da fantasia, não da minha, que estou sem cor no olhar, mas daquele menino que ali estava quietinho a sonhar…

(desculpem, quem lê, esta fase egocêntrica onde cada palavra que me sai do sentir, escreve um eu, ou um em mim, isto passa, tenha eu vontade de sair de mim...)

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...