23 janeiro 2005

nos caminhos à volta do Um

Todos os caminhos vão dar à Harmonia, mesmo aqueles que atravessam o âmago de um vulcão, desde que nunca se perca o ir e a vontade de a encontrar

In “ Apontamentos para um manual para a serenidade”, ou como devemos estar atentos a todos os sinais que nos atropelam o olhar

22 janeiro 2005

Sem desistir

Não vale a pena mentir,
não me sei no que dou,
na intensidade do que sou…
Não me soletrem o olhar,
não estou!
Não vos peço caminhos,
Não vos peço nada,
Vou!
Só!
Ferido na asa.
Olho,
as vezes que chorei,
a intensidade com que amei,
de mais…
Hoje,
deslizo-me no sangue,
a sentir,
em dor que só eu sei,
sem cais.
Não vale a pena fingir…
Amar?
Só olhando o mar,
que vai e vem,
sem desistir…

21 janeiro 2005

do outro lado do limite

Deixei que o livro se desfolhasse em desnude, folha a folha sem me fixar nas palavras, indiferente à sua História.
Fazia-lhe companhia, sem curiosidade outra do que aquela que me mantinha ali a olhar o livro a dançar-se no tempo…
O tempo escorregou até ao Fim, sem trocarmos uma palavra.
Ele tinha toda a sua história e eu a minha. Ambas se escreviam com todas as palavras que o livro continha.
As palavras todas, cabiam em toda a minha história, mesmo naquela outra que ainda não se desenhou no sentir…
Tenho tão pouco tempo para descobrir uma palavra que não caiba no livro e que sirva inteira na minha história por colorir...

20 janeiro 2005

um dia, por engano

Desci do dia!
Apeei-me!
Lancei corda e deixei-me deslizar, sem pressas.
Chegado ao fim, olhei o cimo, carregado de sorrisos, a contemplar trocista, a passagem do dia que se esfumava indiferente, lá nos altos. Violento.
Depois…larguei a corda.
Desprendi-me.
Leve.
Mergulhei inteiro nas minhas cores, que me olhavam atrevidas a provocar o sonho…
São provocadoras do sonho as minhas cores, não me contam histórias, nem me desenham formas, mas põe-se doidas a bailar no sentir, sem me deixarem outra alternativa que não o sonho, num viver que não cabe nos dias que nasceram sem mim…

18 janeiro 2005

o príncipe

Canhane. Não sei o significado da palavra, sei que é nome de terra de África lá para as margens do rio Limpopo, muito antes de chegar ao Indico. Terras vermelhas, quentes. Terra de gentes de capulanas multicolores. Terra de príncipes, isso digo eu porque a fantasiei assim ao ver uma mulher de joelhos a falar com um homem cheio de rugas e cabelo branco. “Fala com o pai…”, foi a tradução dada à imagem vista.
Eu era menino e imaginei aquele homem, príncipe porque eu não falava com o meu pai de joelhos a olhar o chão. Foi nesse dia que me apaixonei por África. A capulana era de tons azuis fortes, quase céu, a terra já lhe pintei cor, mas o que me entrou pelo sentir foi a diferença. Ali, no meio da savana africana, longe de tudo o que conhecia, existia outro mundo, de príncipes, pensava eu, que era menino.
Canhane, tinha uma cubata no centro, grande e outras mais pequenas ao redor. A apoiar os telhados de capim, erguiam-se varas de pau pintadas ás riscas de várias cores, umas azuis, outras vermelhas, outras talvez verdes ( a recordação é difusa que o tempo entretanto desbotou as cores do sentir), todas separadas por riscas outras, brancas.
Do nada apareceu um pequeno cão que nunca mais me largou, branco, castanho-antílope e uma única ponta preta no fim da cauda, a divertir o olhar e o próprio cão.
Ficámos colados um ao outro. O mesmo princípe que falava com a filha, disse que era meu porque ele me escolhera, dois maços de cigarros e “dois quinhenta” e ele poderia partir para outros mundos com o menino que o não largava.
Só podia ter um nome aquele cão que seguiu o menino que o fitava em terras quentes de África. Canhane, ficou de nome.
Era diferente de todos os cães, era príncipe, não tinha dono, comia lagartos, osgas, camaleões, sapos-de-chuva ( nome nada cientifico, inventado por mim, porque só apareciam depois das chuvas) e pombas que aprendeu a caçar sozinho na cidade grande. À noite esperava sorrateiro o menino que à socapa fugia pela janela, no silêncio da noite para brincar com o seu príncipe. Nas noites que o menino, cansado das correrias do dia não saltava pela janela, uivava a noite toda. Não havia quem o calasse. Era príncipe aquele cão que nos emprestava a companhia.
O Cão não era meu, eu é que era, e ainda hoje o sou, o Zé do Canhane. Era príncipe !
Hoje trinta anos depois tenho outro cão, é o meu cão, é o cão do Zé.
Não é príncipe este cão que se enrosca a pedir afectos e olha tímido para o chão.

17 janeiro 2005

paragem obrigatória

Pára!
Assim tal qual, em qualquer lugar, a qualquer hora.
Pára e sente-te a existir!
As cores, tuas,
do sol ou da terra,
de um beijo ou de um abraço,
do mar ou de uma gaivota,
de uma criança ou de uma flor,
de um rio ou de um anjo,
tocarão uma melodia que só tu ouvirás no silêncio.
O que ouves és tu a segredar-te, a vida...

16 janeiro 2005

dependências

Assomou em jeito de sopro um vento milenário, com um pedaço da minha "verdade de hoje", ainda esboço, mas já com matizes de cor.
Segredou-me assim, em silêncio ...“tu só existes enquanto alguém depender de ti (não vinha com instruções mas depreendi que "alguém", não é necessariamente, pessoa, gente, mas qualquer coisa que é no momento e que está com a nossa imagem em si …).
Até tu quando deixares de depender de ti, abdicarás de existir…
IN
“ Apontamentos para o manual de serenidade”, ou como necessitamos de acarinhar as nossas dependências, para olhar o azul...

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...