07 fevereiro 2005

um dia cheio de numeros, que se perderam no tempo

Tenho poucas palavras. O eu que me vive, que se movimenta anónimo de mim, encheu-me de números, o dia todo.
Cálculos atrás de cálculos em somas de absurdos.
Não me sobrou letras para o sentir, como se o dia tivesse passado sem me dizer, estou aqui. Não tenho memórias para este dia ausente de pequenas coisas.
As cores do hoje que me encobriram o Ver, têm formas algébricas, de métricas, sem fim, nem destino.
Os números não tem destino, porque se repetem sempre que se quiser .
São monótonos os números que nos transformam em vazio.
Todos, são a repetição do Um, mesmo os minúsculos, são uma repetição do um.
Que monotonia de dia.
Vou ver se ainda consigo olhar a noite...
É grande demais para caber num numero, a noite que vou espreitar…

06 fevereiro 2005

continuidades surrealistas, mas mal humoradas

Acordei mal-humorado. Para ser preciso, acordei no lado negro do humor.
Dei comigo a sussurrar ao ouvido de Vicente *, “ …andei a passear com os teus verdes, em boémias nocturnas ao som de guitarras…”
Mandou-me aos Girassóis!

a partir dos próximos dois pontos , deve ler-se o texto em sussuro, num quase nada de som:

(que raio, lá estou eu a exprimir-me, (pretende-se uma ligação ao expressionismo, subtilezas sem humor, que só fazem sorrir quem escreve) a desenhar, o irreal, com girassóis e cores surrealistas!
que significado terá para um analista da mente ou do sentir, um girassol?, ou será o amarelo? ou será que o sinto e vejo, porque é bonito e imponente? ou será uma simples fixação, em dias cinzentos e frios e que serve apenas para aquecer o sentir a quem os imagina, coloridos a fingir-se quadro, ou poema?
não! não estou sob efeito de nada , é apenas a minha própria loucura de me entreter com as cores que me perseguem na companhia do dia…
também imaginei o dali só com metade do bigode, cortado em acto puramente naturalista e higiénico, mas é melhor ficar mesmo por aqui, que prezo a minha sanidade, mesmo em dia cinzento…)

*Vicente, não é gato nem coisa outra, é mesmo o Mestre Van Gogh, que impressionou, com o seu expressionismo, e cortou orelha, em acto puramente surrealista…

05 fevereiro 2005

devaneio surrealista

Hoje divago,
devaneio sem sentido, fora desta atmosfera densa e intensa das emoções.
Sigo a linha do desenho, curva seguida de curva à procura da forma, da imagem, deslizando no deleite da descoberta.
Caminhos novos, íntimos que esvoaçam suspensos, no ser.
Olho o desenho, imaginando-me mágico que num golpe de asa, num sopro, num assobio, o transforme num delicado flamingo-rosa , a elevar-se rasante até ao infinito. Escrevo sem sentido, espasmos de memórias, divago, como quem semi-dorme numa carruagem de comboio, sem tempo, nem pressas, nem cais de desembarque.
É um ir, não uma fuga (estás a ficar chato. sempre esta vontade louca desmedida de ir, de caminhar, de avançar, de descobrir. repito esta lenga-lenga, quase até à exaustão…será do comboio, será duvida se realmente fujo? não, é apenas uma cor que gosto, que uso, porque me reconheço nela, uma espécie de azul-nuvem, que permite olhar o sol de frente, sem dor).
Hoje divago,
sem sentido, vestido de oleado amarelo-torrado-de-marinheiro-pescador do-mar-do-norte, encrespado num sobe e desce, ora céu ora abismo, neste Mar que me envolve em onda-de-vida.
Atropelo os meus fantasmas, as minhas sombras ( repito-me novamente , agora já não é o rame-rame do comboio, é mesmo o barco que vai de feição por esse mar dentro, que me ferve na alma. outra cor de que gosto e que uso em abuso. tenho que voltar ao mercado das cores, amanhã é dia de mercado, vou levantar-me cedo, quero vê-las todas juntas e escolher apenas aquelas que me dançarem, saltimbancas ao som da brisa).
Mergulho na fantasia e deslizo como uma lágrima que acaricia a emoção antes de se disfarçar em sorriso e deixo-me maravilhar pela viagem que me oferece o esbelto e feminino flamingo-rosa, que insiste que lhe chame Girassol. (Girassol? que raio de nome para um flamingo-rosa? ).
Hoje divago,
sem rumo , no interior colorido de um sonho inconsequente, apenas pelo prazer de voar num flamingo-rosa, lindo de esbelto, que só sorri a fingir-se de girassol.
As palavras estão sem rosto, porque não tem outro intuito senão o de terem nascido assim tal qua,l de uma divagação sem sentido.
(Disse-me o Mestre um dia, ao ouvido, que a melhor provocação para o sonho, é fazer um esboço difuso de um quase-sonho, para que cada um sinta a sua própria história e voe com a emoção da sua própria magia, com o peso exacto das emoções que se esconde em cada uma das lágrimas que, atrevidas e aventureiras se transformam em sorriso, como um Girassol, que não Gira, mas que todos imaginam girar…)

04 fevereiro 2005

abismo

Persegues-me, no silêncio de uma sombra.
Cobardemente ausente, a vasculhar-me os sentidos, os recantos do meu ser, pisas-me…
Vejo-te.
Sei-te, veneno em gota.
Incolor.
Esmagas, passo por passo, os meus, sem entenderes que passo dado não se repete, não se repisa. Trilho, é caminho andado, não é descoberta. Tem nome. Nome tem olhar e o Ver sentir.
A sombra dos meus passos tem a minha angústia, não a tua, que é outra. Tua.
Espreitas-me o olhar, o sentir, intrusa.
Só não me sabes o querer…
És palhaço pintado em cenário de papel, com muitas tintas, tantas que te esborrachas nódoa, no chão, sem passos, teus.
Os meus navegam, bolinam. São meus.
Caiem no abismo, gritas-me.
Vejo-te!
Sei-te longe, de longe do meu voo...
Branco de gaivota-azul, vou, Palhaço-de -carne-vivo, lacerado, mas a sentir passo por passo o caminho que dou. Meu.

( de vez a vez, mais do que o desejado releio-me e vejo-me todo lá dentro, possessivo de mim. são instantes, escritos que ficam como um passo, mas, acreditem, há outros olhares, outros sentires, no tempo que sobra de cada instante em que me escondo em mim. como um cágado, ou um caracol, ou um homem, assustado...)

Palavras sopradas em jeito de abraço pela Seilá:

..."Nada dos outros é nosso - a gente sofre a NOSSA dor alegria tristeza...ai que solidão a deste ser...damos as mãos mas somos tão eminentemente sós que se não sabemos SER que somos e SÊ-LO andamos a esvoaçar em procura do ser uno e nem damos as mãos ...o que nos resta...
Olha se não perceberes apaga.."

Percebi, julgo...não apaguei...




03 fevereiro 2005

epitáfio

Cruzei-me com o meu epitáfio.
Jazia assim:

"Samicas de caganeira.
De caga merdeira! Má rabugem que te dê! *


A gerência não se responsabiliza pelos efeitos colaterais causados pelo contágio originado pelo contacto prolongado, ou efémero, com a alma penada que se volatilizou em horizonte, nem pelas deficiências do produto por manifestamente se encontrar fora de prazo.

Agradecimentos ao Mestre..."

*dizer do "Parvo" em Auto da barca do Inferno de Gil Vicente, quando em conversa com o mafarrico...




02 fevereiro 2005

a árvore

Encontrei uma árvore que chorava, em soluços de angústia, como alguém que se sente injustiçado…
Porque choras? Pergunto contagiado…
Sinto-me só! Disse-me em cores escuras, em silêncios de brisa, com os sons desbotados no brilho, a confundir-se toda no tronco, como quem se envergonha de existir.
Só? Mas tu és uma árvore-de-encantamento! Todos aqui vem beber a tua sombra, todos te procuram, porque as tuas folhas provocam o sonho, o voo, a quimera…vêm todos os dias em busca do maravilhar, não há razão para estares triste!
Vês alguém aqui hoje a fazer-me companhia? Nem uma criança, nem um pardal, um cão ou gato. Nada , nem a luz me visitou hoje!
Insistiu, em choro de folhas, cada vez mais triste.
Não! De facto não vejo ninguém que se abeire de ti, confirmei quase em admiração. (devia haver um ponto de admiração próprio para quem de admira com intensidade, como os há para exclamar ou interrogar, para quem se admira até fazer doer o olhar, esbugalhado de tanto sentir…admitamos, este sinal Ї)
NãoЇ De facto não vejo ninguém que se abeire de tiЇ
, repito admirado, com intensidade…
Pois é! Zangaram-se comigo, porque (dizem) as iludi e acreditaram que eu era mais do que uma árvore. Zangaram-se de-sério, porque eu era, afinal, uma fantasiaЇ Cansaram-se de sonhar e agora acusam-me de as ter enganado-feio. Eu que sempre fui uma árvore-de-sonhar…tenho ali um letreiro em letras grandes-enormes, pendurado nos meus ramos que diz para quem olha e lê: Perigo! Aqui sonha-se! Mas parece que ninguém quer ler, que ninguém quer perceber que aqui, debaixo da minha sombra apenas pretendo provocar o sonho, para que cada um possa levar consigo um pedaço da sua própria fantasia, para se maravilhar com o VER!

01 fevereiro 2005

acaso? ocaso? ou colibri?

Interroguei o “acaso”, que se intersectou no meu caminho. Queria resposta, segura, objectiva, não fosse cegar na escuridão.
Acaso conheces tu, todos os instantes que te formam, te ferem, te iluminam o Ver? Conheces tu o que irá cruzar o teu sentir? Replicou sem resposta, em sussurro, num piar de colibri. Se soubesses, terias para soma, todas as parcelas do UM e deixarias de te interrogar…acrescentou em tons de autoridade e voo até ao ocaso, preso no meu olhar…
Foi tão depressa que lhe esqueci as cores. Não tenho cores para pintar o acaso…

In” apontamentos para um manual da serenidade, ou como a procura desta, pode desenhar-nos instantes de inquietude...

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...